sexta-feira, 31 de julho de 2015

As terras altas atacamenhas


Como vivem os nativos nos ayllus do Deserto do Atacama, no Chile.

Desde o primeiro dia no Deserto do Atacama, procuramos sair dos roteiros padronizados das agências de turismo e foi só no fim da nossa estadia que, finalmente, conseguimos o que queríamos, quando descobrimos um lindo trabalho de turismo sustentável, feito por uma família que recebe hóspedes em sua casa, no Ayllu de Coyo e que nos recebeu muito afetuosamente. Passamos com eles um dia formidável, que já relatei no post anterior e ainda negociamos com Emanuel, um dos nossos anfitriões, para que ele nos levasse para conhecer pontos interessantes fora do mainstream das agências. Depois de uma acirrada negociação, acertamos o roteiro e partimos cedo no nosso último dia de viagem para conhecer algumas comunidades de San Pedro, além de trechos do Salar de Atacama que ainda não tínhamos conhecido no dia que visitamos os Ojos del Salar. Um fim de viagem melancólico até no clima o qual, num dos poucos dias do ano que acontece, ficou nublado e sem o céu azul tipicamente atacamenho. Assim, na minha fantasia, era como se até o céu estivesse triste pela nossa partida, tanto quanto nós...

Como vivem os nativos dos ayllus do Deserto do Atacama, no Chile.

O povoado de Toconao

Começamos nosso último dia no Atacama indo para uma das regiões mais tradicionais do deserto: o povoado de Toconao, o mais próximo da região das mineradoras do Salar do Atacama e onde mora boa parte de seus trabalhadores. A pequena vila é um dos ayllus (comunidades autônomas, como já descrevi no post passado) de San Pedro, tendo vestígios de ocupação de mais de dez mil anos de existência, fortemente influenciado por seus antepassados, tanto que seus habitantes chamam esse lugar de Comunidade Ancestral Lickanantai de Toconoa. Lickanantai é a palavra em kunza (língua nativa desses povos) para o que chamamos de povos atacamenhos. Escreverei mais sobre o povoamento do Atacama no próximo post e, aí sim, me aterei detalhadamente nessas questões.

Como vivem os nativos de Toconao, no Deserto do Atacama.
Campanário e Igreja de São Lucas, em Toconao

Por situar-se bem próxima à diversos vulcões, Toconao foi toda construída a partir de uma pedra vulcânica, a liparita, que mantém a temperatura interna das habitações constantes, assim como o adobe que vimos em San Pedro e em Coyo. É justamente por causa da coloração clara dessa liparita, que Toconao ficou conhecido como o pueblo blanco. Apesar de uma imensa avalanche ter invadido a pequena vila há alguns anos trás e ter destruído boa parte de suas casas, ainda conseguimos ver essa branquitude em grande parte de sua arquietura. A que mais chama a atenção é a construção da praça da cidade, onde ficam o campanário e a igreja de São Lucas, construídos no século XVIII e considerado atualmente Monumento Nacional.  Apesar de um pouco abandonado, o lugar tem seu charme e, mais que isso, guarda a devoção do povo da região, que vivi de seus sincretismos religiosos tipicamente andinos.

Ayllu de Toconao, no Deserto do Atacama.
Detalhe da Igreja de São Lucas
(e o forte sincretismo religioso)

Depois de, ainda em Toconao, visitarmos uma lojinha de roupas de lã, feitas à mão com agulha de espinho de cacto (lindas, mas demasiadamente caras para nosso bolso), partimos para conhecer um dos lugares que eu estava mais curiosa em visitar, desde que chegáramos da Bolívia: as regiões mais altas do deserto, já subindo a Cordilheira dos Andes. Foi nesse momento que comecei a entender melhor a geografia desse lugar mágico, pois ao começar a subida logo nos deparamos com a imensidão da depressão andina e as cores brancas misturadas ao marrom do resto da planície faz um mosaico impressionante que chega a confundir o observador desatento, pelas suas cores e formas.

Como vivem os nativos nos ayllus do Deserto do Atacama.
Lhamas já nos Andes, com o Salar do Atacama ao fundo (de coloração predominantemente branca)

Como vivem os nativos nos ayllus do Deserto do Atacama.
Uma revoada de gaviotas sobrevoa o Salar de Atacama (visto de Talabre, já na Cordilheira dos Andes)
e, ao fundo, é possível ver a Cordilheira de Domeyko

Como vivem os nativos nos ayllus do Deserto do Atacama.
Salar de Atacama e lá no meio, a Laguna Chaxa de cor azulada

Talabre, ayllu das terras altas

Depois de uma íngreme e sinuosa subida pelas montanhas, chegamos no peculiar povoado de Talabre. É curioso que nessa altura, passamos a ver os vulcões lateralmente e não mais de frente, como nas partes mais baixas do deserto. Aqui fica evidente que, sim, estamos muito perto deles, o que torna tudo muito mais emocionante. Em Talabre, mais ainda do que em Toconao, as casas são praticamente todas em liparita e é curiosíssimo as placas espalhadas pelas ruas, todas indicando rotas de fuga em caso de erupção vulcânica.
Isso tudo pela proximidade com o famoso e imponente Vulcão Láscar, que fica coladinho em Talabre e que é o mais ativo dessa região e pode entrar em erupção a qualquer momento. Aprendemos com Emanuel que a chance de erupção é maior nos anos de inverno rigoroso (com muita neve) pelo fato dela entupir as crateras do vulcão, aumentando a pressão em seu interior, levando à explosão e consequente erupção, quando essa pressão aumenta demais. Ouvindo Emanuel, logo olhei pro Láscar e achei que ele parecia estar com pouca neve e me tranquilizei, talvez por puro desconhecimento do quanto de neve é suficiente para esse evento. De toda forma, nada aconteceu durante nossa estadia por lá. Ainda bem.

Como vivem os nativos nos ayllus do Deserto do Atacama
O ponto mais próximo que chegamos do Vulcão Láscar 

A última erupção do Láscar foi em 2006 e foi suficiente para fazer uma bagunça no tráfego aéreo de todo o continente, devido às cinzas e fumaça. Mas nada se compara ao que ocorreu em 1993, a maior erupção desse vulcão já registrada na história e que causou grandes estragos. Por sorte, na década de 80, Talabre havia sido reconstruída em outro lugar mais longe do vulcão, justamente pelo risco que corria, já que ficava a apenas 12 km de distância de sua base e foi transposto para 30km. Hoje, o pequeno povoado vive isolado e mantendo suas tradições preservadas, porém sempre atentos aos sinais dos perigos que estão submetidos.

Como vivem os nativos nos ayllus do Deserto do Atacama
Vulcão Lascar

Mas nosso maior interesse em Talabre, além do Láscar, era no seu fabuloso acervo arqueológico. Emanuel nos levou até a impressionante Quebrada de Kezala, onde petroglifos pré-históricos dão pistas de como viviam aqui os atacamenhos há milhares de anos. Vou aproveitar que ainda preciso postar sobre o sítio arqueológico Aldeia de Tulor, o qual conhecemos em Coyo e juntarei num único post tudo que aprendi sobre a arqueologia e sobre a história dos povos atacamenhos nesses dois lugares pouco turísticos, mas muito impressionantes.

Como vivem os nativos nos ayllus do Deserto do Atacama
Thiago ao lado do petroglifo em tamanho natural de uma lhama,
na Quebrada de Kezala

E a viagem termina na Laguna Chaxa

No fim de nosso passeio por Talabre, era hora de descer os Andes e iniciar nosso caminho de volta, mas antes ainda tínhamos mais um destino: a Laguna Chaxa, que havíamos vislubrado lá de cima da montanha e que agora poderíamos ver de pertinho. Lá do alto, ela parecia linda, mas a realidade se mostrou bem diferente disso, quando nos aproximamos. Apesar de ficar dentro da Reserva Nacional dos Flamingos, foi bem decepcionante constatar que há bem poucas aves vivendo ali e em  condições visivelmente adversas com a presença de tubulação aparente na laguna (que, muito provavelmente, leva água para as mineradoras do Salar de Atacama). Depois da experiência fabulosa com os flamingos das lagunas altiplânicas bolivianas, principalmente, a Laguna Colorada, onde vimos milhares deles, foi insosso ver alguns poucos espalhados naquela laguna que me pareceu tão triste.
Essa é uma situação que nos deparamos e vários pontos do Atacama, onde exploração seja ambiental, seja turística tem se mostrado mais forte que o esforço de preservação.

Como vivem os nativos nos ayllus do Deserto do Atacama
Laguna Chaxa com Vulcão Láscar ao fundo

Como vivem os nativos nos ayllus do Deserto do Atacama
Solitário flamingo na Laguna Chaxa, que reflete o Láscar

Apesar da decepção com a laguna, pudemos observar ali um efeito lindíssimo do céu nublado, coisa rara do Atacama, refletido nas águas plácidas do lugar. Aliás, achei curioso constatar que esse tempo cinza muda completamente a paisagem, deixando tudo com um tom mais rosado e mais apagado. Foi difícil de fotografar, porque a luz não colaborava, mas até que gostei do efeito do reflexo das nuvens na água.

Como vivem os nativos nos ayllus do Deserto do Atacama.
Um raro dia nublado no Deserto do Atacama

E assim foi nossa despedida dessa viagem cheia de contratempos, zicas, desencontros, mas também de grande superação e aprendizado para mim, que tive que lidar com a dor no braço, com as mudanças no roteiro e com tantos imprevistos. Sem dúvida que amadureci muito nesses dias andinos e atacamenhos. Não só pelo contato com culturas tão ricas, quanto (e principalmente) pelos desafios pessoais que o acaso me proporcionou. A conclusão que cheguei é que, sim, eu aceitarei sempre esses desafios e estou disposta a superá-los para estar em contato com diferentes formas de viver o mundo.


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