segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Das descobertas e desafios, ou a turbulenta chegada na Isla Grande

    "Viajar! Perder países!
    Ser outro constantemente."
    (Fernando Pessoa)
Desafios na Isla Grande
Isla Grande

Viajo para sair do conforto. E não só do conforto físico, mas também do psíquico, daquele zona de segurança afetiva e pouco reflexiva que nos submetemos sem perceber no meio da rotina de trabalho e das turbulências do dia-a-dia.  Mesmo tentando lutar contra isso, quando viajo me dou conta de como me acomodei e é a cada nova viagem que me permito experimentar e viver o novo. Meus paradigmas são chacoalhados, minhas verdades são questionadas, certezas são perdidas e me é impossível voltar para casa do mesmo jeito e com as mesmas ideias de quando saí para viajar.
Isso parece incrível e empolgante e, de fato é, porém também é desgastante, desconfortável, amedrontador. Exige exercícios constantes de resiliência (aquela velha e necessária capacidade de lidar com as tantas frustrações do caminho), além de flexibilidade e disposição mental para resolver o que deu errado e, ainda sim, aproveitar o que esse erro pode trazer de bom.
Senti isso literalmente na pele (e no osso), quando quebrei o braço na Bolívia, no meio do Salar de Uyuni entre o nada e o lugar nenhum. E essa ocasião me trouxe uma das mais reveladoras descobertas que já tive em viagens, justamente de que a escolha de viajar requer também a escolha de pagar certos preços de se expor ao mundo. E foi assim também na nossa chegada à  Isla Grande, no paradisíaco Caribe Colombiano, quando as coisas não saíram conforme planejamos e tivemos que rebolar para que tudo se ajeitasse da melhor forma possível. Com esforço, conseguimos superar o desafio inicial e depois das intempéries as coisas fluíram tão bem que decidimos até ficar um dia a mais do que o planejado na pequena ilha. E é sobre esse dia cheio de emoções e atropelos, que me dedicarei nesse post.


Desafios na Isla Grande
Uma das primeiras fotos que fiz na Isla Grande

Acordamos cedo, ainda em Cartagena das Índias e pegamos um táxi para o porto onde supostamente sairiam barcos locais para Isla Grande, num local distante do centro e de difícil acesso. Chegamos lá e um comércio intenso de peixes, lagostas e outras crustáceos acontecia, mas ninguém sabia nos informar sobre o transporte de pessoas. Perguntamos daqui e dali e já achando que havíamos perdido o barco, descobrimos que, sim, havia uma lancha que saía rumo à ilha, mas, não, ela não funcionava aos domingos, justamente o dia da semana em que nos encontrávamos. Foi o primeiro susto. Ligamos para Ana Rosa, dona do eco-hotel que nos hospedaríamos e o pessoal de lá nos informou que a única alternativa seria pegar a lancha turística, no porto que ficava do outro lado da cidade (e ao lado do hostel que passáramos a noite). A tal lancha partiria às 9h e, já atrasados, pegamos um novo táxi, que nos deixou nas proximidades do outro porto. Era um domingo de emenda de feriado colombiano e, talvez por isso (ou talvez como em todos os dias), aquele porto estava abarrotado de turistas com seus chapéus, saídas de praias e máquinas fotográficas para passar o dia nas ilhas caribenhas ao redor de Cartagena. Aquilo era tudo que queríamos evitar: o famigerado turismo de massa.
Já incomodados, seguimos para o local da empresa que o rapaz do hotel nos indicou, mas ao perceber que pagaríamos o mesmo preço dos demais (que fariam o passeio completo, incluindo paradas em alguns pontos turísticos e ainda retornariam para Cartagena, coisa que não faríamos) comecei a me sentir enganada. O valor da tal lancha turística somado ao valor das duas desnecessárias viagens de táxi (do hostel até o porto mais distante do centro e depois de lá para o porto turístico, ao lado do hostel) já ultrapassava em muito o valor que planejamos gastar naquele dia e isso me causou um grande incômodo.
Mas tentei me acalmar e preferi achar que aquilo tudo havia sido apenas um mal entendido e que havíamos dado azar de ter decidido ir à ilha num domingo. Embarcamos na lancha junto com mais quinze ou vinte pessoas e outras dezenas de lanchas partiam constantemente do mesmo lugar e com a mesma quantidade de gente. Todas com o mesmo destino: a Playa Blanca, na explorada e já praticamente destruída Península de Barú.

Porto de Cartagena, rumo ao arquipélago de Rosário
Finalmente, saindo de Cartagena rumo à Isla Grande

A velocidade excessivamente alta da lancha não chegou a me surpreender, apesar da minha preferência por viagens mais lentas e sem pressa. A baía de Cartagena rapidamente ficou para trás e logo o mar foi mudando de cor, adquirindo aquelas incríveis tonalidades de verde e azul do Mar do Caribe. Em pouco menos de uma hora, chegávamos à Barú e foi impossível não me assustar com a paisagem que se descortinou à nossa frente. Não havia espaço livre na areia, nem no mar e a praia estava completamente tomada de gente. A lancha parecia que iria atropelar alguém a qualquer momento, enquanto se aproximava para deixar os turistas que ali ficariam. Os demais continuariam conosco para conhecer de perto (e explorar de forma bem questionável) os corais da região, mas depois voltariam todos para aquela mesma praia, onde almoçariam.
Naquele momento, confesso que me senti até vingada pelo preço alto que pagamos pela lancha, pois pelo menos não ficaríamos ali naquele caos e tínhamos um cantinho tranquilo nos aguardando mais à frente.

O caos na Playa Blanca
A caótica Playa Blanca, na Península de Barú
(ainda bem que não era nosso destino final)

Barú era uma península até que a formação de um enorme canal artificial, no século XVI, construído para facilitar a navegação até Cartagena das Índias a separou do continente e a transformou numa ilha. Ficou isolada até 2014, quando uma ponte foi construída, facilitando a chegada de visitantes e turistas, que por falta de planejamento e interesse em preservação ambiental, transformou a única praia pública de Barú (a Playa Blanca), nesse caos da foto acima. As demais praias da ilha foram invadidas por hotéis de luxo e resorts, que acabaram por privatizar um patrimônio público colombiano, que é a praia. Triste realidade de um turismo predatório e pouco sustentável.

Nativo de Barú
A simpatia do povo colombiano não cansa de se mostrar, mesmo no caos de Barú

Depois de deixarmos alguns turistas ali em meio à multidão, seguimos viagem para nosso destino final. E a partir dali, minha alegria só aumentava. Conforme fomos nos aproximando da Isla Grande, já começamos a observar que a presença de turistas era infinitamente menor e que, comparado com Barú, estávamos no paraíso. Claro que já na primeira vista, observamos algumas casas de luxo e hotéis invadindo os corais, mas sabíamos que o que nos esperava era algo muito diferente daquilo que vimos na Playa Blanca. O que nos esperava era algo mais autêntico e natural. Era o agradável convívio com a comunidade afro-colombiana de Orika e com seu modo de vida e costumes, afinal não foi à toa que tanto procuramos por um turismo comunitário na região, como relatei no post anterior.

Chegada à Isla Grande
Deck pelo qual chegamos na Isla Grande
(bem mais vazio que Barú)

A lancha nos deixou num rústico e charmoso deck, onde nos esperava Jesus, guia nativo que esteve conosco em vários momentos durante a estadia na ilha. Depois das boas-vindas, seguimos numa caminhada rápida até o hotel e lá nos instalamos para receber as orientações de Jesus sobre a ilha e sobre os passeios oferecidos por ele. Rapidamente, deixamos nossas malas, trocamos de roupa e logo seguimos para a praia na companhia de Renato, um artesão de Barú que descompromissadamente nos serviu de anfitrião, mas que depois veio nos oferecer seu trabalho. Com sua simpatia e sedução, acabei comprando alguns de seus produtos por um valor, que só quando voltamos à Cartagena alguns dias depois, vim a descobrir ter pago bem mais do que o dobro cobrado na cidade, por comerciantes que sequer eram os produtores diretos. Isso foi algo que me decepcionou bastante, quando me dei conta do quase estelionato. Eu que nunca caio nessas armadilhas me deixei levar pela lábia do sujeito e, infelizmente, a experiência me deixou um pouco mais incrédula sobre o ser humano. Renato não era de Orika e, sim, de Barú e acabou me deixando uma impressão ainda pior desse lugar, que somado ao que já havia observado caótica Playa Blanca me fez pensar que deve ser um lugar de exploração de todos por todos, num capitalismo selvagem.

Mas a verdade é que, naquele primeiro momento, ainda não sabíamos da má índole de Renato e agradeci sua gentileza de nos levar até à praia, já que tudo o que queríamos depois do sufoco e estresse daquela manhã, era um merecido banho de mar.
Uma característica já nos chamou logo a atenção por ali. As faixas de areia eram pequenas e mais pedregosas, o mar calmo como piscina e a água mais quente que já havia entrado. Durante os dias na ilha, viemos a entender que aquela é uma área de corais e que naturalmente não teria nenhuma grande faixa de área branquinha, exceto nas praias artificiais construídas pelos hotéis às custas e grande destruição ambiental.

Primeiro mergulho na Isla Grande, no Caribe colombiano.
Primeiro mergulho nas águas calmas e quentes do Caribe Colombiano

Depois de nos refrescarmos na água do mar, iniciamos nosso caminho de volta, pois a hora do almoço se aproximava e a fome já nos corroía o estômago. A comida era feita por Ana Rosa e quem servia a mesa era seu marido, Emanuel, um homem de poucas palavras e muita sistemática no atendimento, chegando até mesmo a dizer onde deveríamos sentar e determinando o momento certo de pedir as bebidas. Todo trabalho era dividido entre a família e isso foi algo que me chamou muito atenção. Eles trabalham de Sol à Sol, sem descanso naquele hotel, numa dedicação incansável.
Depois do almoço, resolvemos descansar um pouco e eis que aí aconteceu o evento mais complicado de toda a viagem, aquele que me motivou a escrever a introdução desse post. Escolhemos dormir em redes e vários foram os motivos dessa escolha: menor preço, apreço por esse tipo de acomodação e também pelo fato de ser mais fresco do que as tradicionais camas, algo importante no calor do caribe colombiano. Mas nos demos conta logo de cara que essa não tinha sido uma boa ideia. Assim que deitei na minha rede, com o corpo cansado e só pensando na sonequinha que me esperava, uma IMENSA, GIGANTESCA e destemida barata (que mais parecia um besouro mutante) caiu exatamente no meu olho. No susto, me atirei da rede e caí no chão. Thiago se assustou comigo e quando eu mostrei o bicho ele mesmo também não acreditava no tamanho daquela coisa. Ela havia voado pro teto e Thiago jogou o chinelo na sua direção para matá-la. E eis que quando o chinelo bateu no teto, mais duas baratas e um centopéia caíram no chão de uma vez só. Eu não acreditava no que via, enquanto a centopéia subia correndo pela madeira e as baratas voavam sobre nossas cabeças. Ficamos alguns minutos paralisados, sem saber como agiríamos. Thiago me perguntou se eu conseguiria dormir ali. Eu ponderei, ponderei e me dei conta de que não. Nem tanto pelas baratas, que já fizeram parte de várias viagens nossas, mas confesso que a ideia de dormir com centopéias não me era agradável e fiquei imaginando-a descer pela madeira e indo direto pra rede. Essa possibilidade me foi aterroradora e decidimos que precisaríamos falar com Ana Rosa.

Isla Grande, no Caribe Colombiano.

Mas justo naquele momento, ela tinha ido pra missa e precisaríamos esperá-la voltar. Cansados que estávamos, resolvemos dormir na rede ao ar livre, penduradas em duas árvores e aparentemente livres de centopéias. Quando acordamos, Ana Rosa já havia chegado e fomos conversar com ela. Uma conversa tensa, pois a danada falava um espanhol rápido e de difícil compreensão, além dela mesma parecer que não nos entendia muito bem. Ela dizia que as baratas eram da natureza e que não podia fazer nada por nós e, por outro lado, nós não sabíamos como falar centopéia em espanhol (é claro que depois aprendemos e nunca mais esquecerei os cienpies). Quando falamos de mudar de acomodação, ela entendeu que queríamos ficar no chalé (que era BEM mais caro) e isso gerou um grande mal entendido, que me deixou desgastada, pois não conseguíamos falar pra ela que o problema não era a rede, nem as baratas, mas as centopéias, pelo risco de picadas. Não queríamos desconto, nem regalias. Apenas não queríamos dormir com as centopéias. Ela chegou a sugerir que procurássemos outro hotel e o nível de tensão só aumentava. Depois de muito conversarmos, conseguimos negociar de ficar no quarto coletivo com cama e mosquiteiro pelo preço da rede. Aparentemente, estava resolvido, mas eu acabei ficando muito tensa por tudo que havia acontecido de estressante naquele dia (somado a algumas questões de desgaste pessoal) e simplesmente desabei em choro.
Não sei se por pura coincidência, ou a pedido de Ana Rosa, no meio dessa confusão toda, apareceu nosso anjo da guarda na ilha, a querida Eika, com quem havíamos conversado antes de chegar à ilha e que havia nos passado a maior parte das informações que buscávamos (falei dela no post anterior). Logo começamos a conversar e Eika foi se mostrando uma grande conciliadora. Líder comunitária na ilha e muito bem articulada (num espanhol que conseguíamos compreender com perfeição), nos contou a história de seu povo, passando pelos costumes e tradições, incluindo a presença das centopéias sempre no período entre agosto e setembro, que invade as casas e eles precisam lidar com esse inconveniente todos os anos. Foram horas de boa e produtiva conversa, em que ela chamou Ana Rosa e explicou o meu incômodo e ainda conseguiu deixar o ambiente mais leve e amigável. Tenho certeza que foi a presença da querida Eika ali que nos possibilitou ter um novo início e nova disposição para estar na ilha. Tanto que esticamos a estadia para quatro noites de tão encantados ficamos depois dos perrengues iniciais.

E para espantar de vez a urucubaca, nessa mesma noite, logo após o jantar, seguimos com Jesus para a magnífica Laguna Encantada. Só o passeio noturno de canoa pelas águas plácidas daquele mar já valeriam o passeio, entretanto, mais do que isso, o que tivemos foi uma noite memorável. Tão memorável que, mesmo sem registro de fotos, deixarei para relatá-la num post separado.

Depois de viver esse dia tumultuado e outros três dias memoráveis na mesma ilha e com as mesmas pessoas, ficou pra mim uma certeza ainda maior que viajar é, sim, um dos mais belos exercícios de empatia e compreensão que podemos fazer. Nesse sentido, aproveito o ensejo para concluir com a transcrição completa da poesia que introduziu esse post:
    "Viajar! Perder países!
    Ser outro constantemente,
    Por a alma não ter raízes
    De viver de ver somente!

    Não pertencer nem a mim!
    Ir em frente, ir a seguir
    A ausência de ter um fim,
    E a ânsia de o conseguir!


    Viajar assim é viagem.
    Mas faço-o sem ter de meu
    Mais que o sonho da passagem.
    O resto é só terra e céu."

    (Fernando Pessoa)


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