domingo, 4 de outubro de 2015

Nadando entre Plânctons Bioluminescentes e Mangues


Passeio de canoa entre os túneis de mangue, nas lagunas da Isla Grande, no CAribe Colombiano.

Durante nossa estadia na Isla Grande, passamos a maior parte do tempo sem fazer absolutamente nada, apenas usufruindo de um autêntico e merecido ócio, aproveitando as águas mornas e calmas do Mar do Caribe Colombiano. Mas é claro que tínhamos alguns interesses na ilha e atividades planejadas na nossa programação que não podíamos deixar de fazer. A primeira delas, em realidade, ocorreu ao longo de todos os quatro dias que passamos na ilha e era justamente o convívio com os nativos da Comunidade afro-colombiana de Orika, conhecendo sua cultura e rotina. Talvez, o dia em que isso ocorreu com mais intensidade tenha sido o segundo, quando fizemos um inesquecível passeio de bike pela ilha e fomos encontrando pessoas e paisagens típicas do lugar.
Mas na nossa programação também incluía conhecer as tantas belezas naturais típicas do Arquipélago de Rosario e foi isso que fizemos, quando decidimos contratar o serviço do guia local, Jesus, que nos levou com toda precaução ambiental para os dois pontos naturais mais famosos da Isla Grande: a Laguna Encantada num passeio noturno para ver os plânctons bioluminescentes que ali habitam e, em dia posterior, um passeio pelos mangues das lagunas internas da ilha. São esses dois passeios que relato no post de hoje.

Foto em preto e branco do passeio de canoa na Isla Grande, em pleno Caribe Colombiano.
Passeando de canoa pela Isla Grande


Nadando com plânctons bioluminescentes na Laguna Encantada

Apesar do nosso primeiro dia na ilha não ter sido dos melhores e termos enfrentado algumas dificuldades, a noite compensou nos presenteando com uma das mais divertidas e exóticas experiências que já tive na vida. Logo após o jantar e armados com nossas lanternas e trajes de banho, seguimos ainda inseguros pelas escuras trilhas da ilha até o local que Jesus guardava sua charmosa canoa de madeira. Naquela primeira noite, tudo ainda era novidade e não tínhamos a menor noção do caminho que fazíamos e apenas seguíamos cegamente o experiente guia, ainda mais na ausência total de iluminação, como naquela noite, que nem lua tinha.
A pequena canoa ficava estacionada numa estreita faixa de terra, ao lado de um mangue e de lá remamos pra nossa aventura rumo à famosa Laguna Encantada. O trecho inicial do passeio era ainda em mar aberto, o que eu só descobri porque Jesus falou, já que a calmaria daquelas águas e a ausência de ondas nos dava a impressão que estávamos num líquido amniótico de tanta  tranquilidade. Logo avistamos alguns pontinhos de luz lá longe e ficamos sabendo que eram outras ilhas com seus faróis e hotéis que funcionam com energia de gerador. Na nossa ilha também tinham alguns desses pontinhos, já que ali há vários hotéis caros e bem estruturados. Fomos margeando a costa até chegarmos numa baía de boca estreitada e que logo se abria. Chegávamos, enfim, a esperada Laguna Encantada. E foi assim que eu descobri algo que transformou meus parcos conhecimentos de geografia:  laguna é uma porção de água salobra que tem ligação com o mar e está longe de ser isolada do oceano, como eu pensava. Não sei se a tradução pro espanhol é a mesma de lago, laguna e lagoa, mas com essa eu descobri algo novo. Assim é que a Laguna Colorada, na Bolívia teria que ser traduzida para o português como Lagoa Vermelha, já que não tem ligação com o mar. Vivendo e aprendendo...

Ponto de partida do passeio de canoa pelo Mar do Caribe para vermos plânctons e mangues, na Isla Grande, em pleno Caribe Colombiano.
Ponto de partida do passeio de canoa pelo Mar do Caribe para vermos os plânctons e mangues

Mas voltemos ao nosso passeio pelo Laguna Encantada. Assim que entramos nela, ficamos rodeados por uma mata fechada e por uma paisagem cada vez mais escura. A noite era de lua nova e ainda haviam muitas nuvens do céu, o que em muito favorecia nosso passeio, já que quanto menos iluminação, mais fácil é de ver os plânctons na água.
Assim que entramos na baía, eu já queria ver os pontinhos iluminados na água, afinal, foi para isso que eu estava lá, mas Jesus me orientou a segurar a ansiedade e esperar. Segundo ele, há plânctons bioluminescentes em todo o litoral do arquipélago, mas eles só são vistos quando a noite está escura e quando há movimento vigoroso na água. E não deu outra Logo desembarcamos numa plataforma flutuante no meio da laguna e Jesus nos orientou:
- Pulem no mar e ao nadar vocês verão a água iluminar-se.
E assim foi que Jesus nos mostrou a luz...

Plâncton marinho
Fonte: Wikimedia Commons
(Domínio Público)

Mas isso não é um blog religioso, então, voltemos aos fatos. Eu pulei primeiro que o Thiago. Estava eufórica e queira ver como seria aquilo. Confesso que demorei a me entender o fenômeno que se passava ali na minha frente, porque acho que meus olhos custaram a acreditar no que eu via. Primeiro, passei delicadamente a mão na superfície da água e vi pequenos pontos de luz que mais pareciam delicados vagalumes na palma da minha mão. Depois, percebi que conforme eu mexia com mais força o braço um pequeno facho de luz seguia meu movimento e, por último, ao me movimentar com toda energia e mexendo meu corpo inteiro, eu virei quase que uma lanterna humana. Jesus, que me via do alto da plataforma flutuante disse que eu parecia estar envolvida num vestido rodado e  branco, quando me movimentava rápido daquele jeito.
O Thiago que inicialmente ficou receoso de pular no mar à noite e sem conseguir ver o fundo da laguna, ao me ver feliz que nem menina, criou coragem e veio atrás de mim. No fim, ele curtiu tanto aquilo que não queira mais ir embora e quase que tivemos que obrigá-lo a sair da água. Foi a primeira vez que ele nadou em mar aberto (lê-se longe da areia) e ainda mais à noite e isso acho que o deixou mais animado que os próprios plânctons.
Na volta pra casa, ainda vimos centenas de peixes voadores que se movimentavam em direção ao interior na laguna, provavelmente, porque a maré devia estar subindo. Foi um fim de noite inesquecível e as melhores boas-vindas que poderíamos receber dessa ilha mágica e surpreendente, depois de um dia difícil.

Passeio pelos mangues da Isla Grande

Se na primeira noite de passeio éramos os únicos turistas na pequena canoa de Jesus, no segundo a situação era bem diferente. Muitos visitantes chegaram na ilha juntos (franceses, alemães e colombianos) e na ausência de outros guias, Jesus acabou reunindo outros dois nativos de Orika para levar todo o povo junto pelos canais de mangues em rústicas canoas, que eles conduziam com precisão. Claro que eu preferia ter ido com menos gente, mas a turma era bacana e não foi assim ruim ter ido em grupo.

Os reflexos do mangue nas águas calmas das lagunas formam imagens impressionistas, na Isla Grande.
Mangue impressionista

Saímos do mesmo ponto de embarque do primeiro passeio, naquele mesmo lugarzinho onde ficava estacionada a canoa de Jesus. Só que dessa vez, seguimos o sentido oposto, na direção de outra laguna, ou melhor de uma série de três lagunas (ou canais) interligados por túneis naturais, que passavam por dentro dos mangues. A iluminação do fim de tarde já pintava a paisagem com suas cores marcantes e tudo parecia mais bonito. Logo chegamos na entrada dos canais e todos me pareceram bem semelhantes à Laguna Encantada, apesar de a termos conhecido durante à noite.

O ponto alto do passeio foi mesmo navegar pelos dois estreitos túneis, que unem os três canais, desviando das raízes aéreas e tendo que ajudar o canoeiro a fazer as curvas do caminho. Uma aventura deliciosa, que ainda ficou mais emocionante na volta, quando já no escuro, não víamos as curvas e as raízes e íamos batendo em todos as barreiras do caminhos 

Um passeio de canoa entre túneis de mangue nas lagunas da Isla Grande, no Caribe Colombiano.
Túnel de mangue entre os canais da Isla Grande

No final do terceiro canal, finalmente, desembarcamos numa pequena plataforma, que nos levava até uma trilha úmida e elameada até o que foi para mim o mais triste de tudo que vi na ilha: um zoológico de animais exóticos. Pelo que Jesus nos contou, aqueles animais são capturados de contrabandistas internacionais e ficam ali só o tempo necessário para se recuperarem e voltarem à natureza. Mas a bem da verdade é que acho difícil que nas condições que os vimos eles consigam se recuperar. Triste realidade, que se transformou em ponto turístico, mas que me causou grande desconforto. Fiz uma única foto de lá, de uma arara que estava solta, mas não conseguia voar. Os animais enjaulados, não consegui fotografar.

Animais capturados de traficantes internacionais parecem sofrer no triste zoológico da Isla Grande.
O triste zoológico na Isla Grande


Mas o dia ainda não tinha acabado...

Dei um jeito de passar rápido pelos bichos enjaulados e aguardei ansiosamente o que eu tanto queria: o banho de mar com o pôr do Sol ao fundo, conforme tínhamos combinado com Jesus. Quando acertamos o passeio com ele, colocamos como exigência que ele nos levasse até algum ponto da ilha onde isso fosse possível e ele cumpriu o que prometeu. Aliás, a priori apenas eu e Thiago ficaríamos para ver o entardecer e os demais turistas voltariam pro hotel, mas o fim de tarde estava tão lindo que todos se inspiraram a ficar conosco e vimos juntos o Sol se despedir atrás de uma das ilhas do arquipélago. E como se não bastasse a paisagem linda, imensos pelicanos sobrevoavam nossas cabeças e caçavam enormes peixes ao nosso lado. Thiago colocou o snorkel e viu que próximo de nós havia um cardume gigante e, provavelmente, era esse o interesse dos bichanos em ficar por ali.

No fim de tarde, os pelicanos pescam no Mar do Caribe.
Pelicanos com fome

Ficamos um bom tempo no mar, observando os pelicanos e eu quase ia esquecendo de fotografar aquele espetáculo de pôr do Sol, de tão absorvida eu estava com a paisagem. Mas minha paixão pela fotografia falou mais alto e eu resolvi sair da água e me posicionei no deck ao lado da praia para registrar aquele momento mágico. Era o fim de mais um dia no Caribe Colombiano.

Pôr do Sol no Caribe Cololbiano atrás de uma das ilhas do Arquipélago de Rosário.

2 comentários:

  1. Adorei seu relato sobre a Laguna Encantada! Consegue me informar como entrar em contato com algum guia ou agencia que faz esse passeio em Cartagena?

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Olá! Obrigada! Fico mesmo feliz que tenha gostado! :)
      Contratamos o passeio na própria Isla Grande, com o Jesus, que é guia turístico do Eco-hotel las Palmeras, onde nos hospedamos! O contato do hotel está nesse post: http://www.nativosdomundo.com.br/2015/08/comunidade-afro-colombiana-nas-islas.html
      Abraços!

      Excluir