quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Albaicín, o outro lado da Alhambra

Albaicín, o bairro mouro de Granada, na Andaluzia.

É unânime! Não há quem não vá à Granada sem ter o objetivo principal de conhecer a famosa Alhambra. E quem o  faz está certíssimo, já que esse é uma das obras-primas da arquitetura mundial, daquelas que fazem o queixo cair e a respiração ofegar de tanta beleza. Mas a bem da verdade é que Granada vai além de Alhambra e o maior exemplo disso pode ser visto do outro lado da cidade vermelha: o antigo bairro mouro de Albaicín, que assim como seu irmão mais famoso também tem o título de Patrimônio Mundial da Humanidade, pela UNESCO e merece bem mais do que ser olhada só de longe.

O conjunto de casinhas brancas, que sobem a colina de forma desordenada e espontânea é logo de cara o que mais encanta os olhos, no passeio pelo bairro. Caminhamos por Albaicín em todos os dias que ficamos em Granada e em todas as vezes nos perdemos por completo. E honestamente isso é o melhor que se tem pra fazer por lá.

Albaicín, o bairro mouro de Granada, na Andaluzia.
Albaicín vista da Alhambra

Os mouros de Albaicín

A ocupação do Cerro de San Miguel, onde fica o Albaicín é bem anterior à invasão árabe na Península Ibérica, mas foi mesmo quando da formação do Reino de Granada pelos mouros que o lugar ganhou a constituição que tem hoje. Foi aqui a primeira ocupação árabe, no interior da antiga Fortaleza, chamada de Alcazaba Cadima, quando os árabes que aqui viviam eram ziridas, isso por volta do ano 1010. Quando no século XVIII, o rei Alhamar, fundador da dinastia nazarí, começou a construção da cidade que ocuparia a Colina de Alhambra, o bairro perdeu sua importância política e econômica e passou a ser a moradia dos árabes pobres, ou dos que eram contrárias ao poder vigente. Não à toa, Albaicín foi palco de várias revoltas e insurreições contra a dinastia vigente.

Albaicín, o bairro mouro de Granada, na Andaluzia.
Fim de tarde no Albaicín

O bairro persistiu assim, às margens da vida social e econômica da poderosa Alhambra até a Reconquista Cristã, quando um processo de transformação começou a acontecer no bairro, principalmente de sua arquitetura religiosa, já que mesquitas se transformaram em igrejas e seus minaretes viraram torres de sinos. Mas a alma do lugar, labiríntica por excelência e com emaranhados de vielas e ruas sem saída, os cristãos não conseguiram mudar e Albaicín continua lá, linda, charmosa e toda emaranhada de casas mouriscas, igrejas mudéjares e praças com belas vistas pra Granada, como é há séculos. 

Albaicín, o antigo bairro mouro de Granada, na Andaluzia
Resquícios das antigas muralhas da cidade

Chegamos à Granada depois de uma viagem de trem e ônibus, vindos de Ronda e, como sempre, fomos caminhando pra nossa hospedagem. Nem imaginávamos, entretanto, que já nesse primeiro contato com a cidade, acabaríamos descobrindo o Albaicín. As vielas que tanto fizeram parte da nossa rotina, poucas semanas antes, nas medinas do Marrocos ressurgiram como num passe de mágica à nossa frente, assim que saímos da Gran Via, a famosa avenida que delimita a cidade mais moderna e entramos no bairro mouro, onde ficava nossa hospedagem.
Por um lado, sentimos como que uma deja-vu do Marrocos (a mesma estética, o mesmo caos vibrante e até voltamos a ouvir pessoas falando em árabe, já que aqui há muitos imigrantes). Mas, por outro lado, a sensação era de que o Albaicín não podia ser comparado com na do que tínhamos visto até então.

Albaicín, o bairro mouro de Granada, na Andaluzia.
Ah, o povo andaluz...
Confesso que antes de conhecer Granada eu tinha um pensamento um tanto quanto arrogante do tipo: o que verei de novo nessa cidade que já não tenha visto no Marrocos? Afinal, na minha ignorância imaginava que a estética moura era uma mera reprodução do que os árabes faziam na África. Mas pensar isso foi um imenso erro, já que tudo que vemos na Andaluzia é uma fusão de influências, claro que com as características muçulmanas muito presentes, mas com uma marca própria, deixada por todos os povos que já habitaram essa região, desde judeus, ciganos e cristãos. 

Albaicín, o antigo bairro mouro de Granada, na Andaluzia.
Mesquitas que viraram igrejas

É claro que não tem como lembrar da geografia labiríntica das medinas marroquinas ao andar pelas vielas do Albaicín, mas a diferença se dá nos pequenos detalhes: enfeites em azulejos e arranjos florais nas fachadas, que são típicas daqui e tornam o bairro tão especial. E esse foi mais um daqueles aprendizados que temos aos montes em viagens: não menospreze um destino. Nunca, em hipótese alguma. Ainda mais quando se trata de Granada.

Albaicín e suas vielas

São muitas as possibilidades de caminhos pelo Albaicín, mas alguns lugares do bairro são tão especiais que passar por eles é inevitável, seja qual for o caminho percorrido.

O primeiro deles é a Carrera del Darro, com fama de ser a rua mais bonita do mundo (fama dada pelos próprios granadinos, claro). Exageros à parte, a rua é mesmo linda. Localizada bem entre os dois famosos montes que emolduram a cidade (a Alhambra e o Albaicín) e por onde passa um preguiçoso rio de águas calmas, o Rio Darro, a pequena rua fica assim, espremidinha entre tantas belezas, mas cheia de charme e vida própria. 

Albaicín, o bairro mouro de Granada, na Andaluzia.
Carrera del Darro com o rio e seus casarões

Nós passamos por ela, voltando da Alhambra, num animado fim de tarde, quando acontecia um festival estudantil na cidade (além de muitas despedidas de solteiros, comuns na cidade). A estreita ruazinha estava abarrotada de gente, mas mesmo assim foi bem gostoso passear por ali com o clima festivo e alegre dos universitários.

Outro lugar que me encantou foi a Placeta Cristo Azucenas, que é um ponto de encontro de várias turmas, desde artistas treinando malabares, passando por praticantes de slackline até vários grupos de músicos tocando os mais diversos instrumentos. Quando passamos ali, logo no primeiro dia na cidade, Thiago não resistiu e parou pra tocar seu inseparável cavaquinho (que ele carregou como um filho, durante todo o mochilão pela Europa!), enquanto tomava uma cervejinha. O susto veio quando dois policiais passaram e multaram alguns rapazes que também estavam bebendo ao nosso lado. Foi aí que lembramos que na Espanha é proibido beber na rua e o jeito foi esconder nossa garrafa no canteiro atrás de nós para escapar da encrenca. Tirando isso, o clima da praça foi um dos melhores que encontramos na cidade: democrático e criativo. Acabei não fotografando nada ali, pois me entreti com outras coisas, mas as lembranças ficaram comigo guardadinhas no meu coração.

Bem pertinho da placeta, fica o que considerei o ponto alto da nossa visita ao Albaicín e o melhor lugar pra terminar a caminhada pelo bairro: o Mirador de San Nicolás, de preferência no pôr do Sol. Isso porque dali se tem a melhor vista para a Alhambra com a espetacular Serra Nevada ao fundo e no fim da tarde, o Sol deixa tudo com cores ainda mais intensas e vivas, num espetáculo único e inesquecível. A paisagem do mirador é tão especial que rendeu uma das minhas fotos preferidas da vida (senão, a preferida), tanto que ela é hoje o papel de parede do meu notebook... 

Albaicín, o bairro mouro de Granada, na Andaluzia.
Alhambra vista do Mirador de San Nicolás

Também é possível subir na torre da pequena Igrejinha de San Nicolás logo em frente ao mirador e ter uma visão ainda mais do alto por apenas €2 por pessoa (mas tem que chegar cedo pra garantir o lugar, pois há número limitado de pessoas que podem ficar lá em cima).

Por tudo isso, insisto que uma visita à Granada não estaria completa sem essa experiência de se perder nas vielas de Albaicín, numa viagem ao passado do povo andaluz. Além de toda beleza é uma aula de história e resistência, mas que deixarei pra contar melhor no post sobre a Alhambra, o último reduto mouro na Andaluzia.


Em tempo:
Mas não posso terminar esse post sem mencionar o blog que mais me inspirou nessas minhas andanças pelo Albaicín (e por toda a Andaluzia, na verdade): o espetacular Fragata Surprise da queridíssima Cynthia Campos. Li os relatos da Cynthia antes da viagem e só posso agradecê-la por ter tornado minha estadia em Granada ainda mais rica com suas informações precisas e inspiradoras. Obrigada, querida!


8 comentários:

  1. Que legal, Ana! Bom saber que a Fragata inspirou sua passagem por Granada. Essa cidade linda ganhou um lugar especial em meu coração.
    Bjo

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    1. A Fragata já me inspirou por muitos destinos, Cynthia! Sou fã de carteirinha (dos seus destinos, da sua escrita e da sua pessoa)! :)
      Beijinhos

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  2. Excelente escolha para o vosso alojamento. E essa foto será meio difícil de destronar mesmo. Se bem que o vosso mochilão rendeu imagens maravilhosas. Continuo a viajar com vocês.
    Beijinhos
    Ruthia d'O Berço do Mundo

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    1. Ruthia, esse mochilão vai render muitos posts ainda! Não vejo a hora de chegar no relato de Guimarães!!!! ;)
      Beijinhos

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  3. Saltei mais uma vez para dentro das fotos, sempre apreciando viajar com com vocês, sem perder o momento de apreciar cada um dos posts.
    Ana, querida, deixo um beijinho e o desejo de dias felizes.

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    1. Obrigada pelo carinho de sempre, querida Maria Gloria! Dias felizes pra todas nós!
      Um beijinho

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  4. Olá Ana gostei muito das suas descrições e relatos da viagem,
    Deu para viajar junto.
    Muito bonitas as imagens e os lugares.
    Granada uso um anel dessa pedra no dedo mingo.

    Então... sobre não nascer nesse tempo é que as coisas andam meio complicadas em todas as partes do mundo mesmo. E quem tem um olhar para o outro e a beleza das coisas sofre um pouco com essa maneira de "Ter e Ser" que são impostas.
    Nos outros tempos as coisas tbm não eram fáceis é que não se tinha web e nem face
    para mostrar ou denunciar k. A evolução é lenta k.
    Abraços e volte sempre quando quiser.
    janicce.

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    1. É bem por aí mesmo, Janice! Cada época tem seus desafios. O nosso acho que é o tempo, bem cada vez mais precioso e escasso, que perdemos correndo, ou fazendo coisas que não nos agregam muito.
      Beijos

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