quarta-feira, 28 de setembro de 2016

São Bento do Sapucaí

Pedra do Baú, em São Bento do Sapucaí, na Serra da Mantiqueira

Um casal, uma fase de transições e muitas incertezas sobre o futuro. O que fazer com esses três ingredientes juntos? Viajar, claro! Ainda mais se esse casal sou eu e Thiago, como é o caso em questão. Eu, envolvida até o último fio de cabelo em novos projetos profissionais, queria ir para um lugar mais tranquilo, em que eu pudesse ler e estudar. Já o Thiago, na transição entre trabalhos, queria descansar (o que pra ele significa banho de mar, ou cachoeira, ou ambos, de preferência incluindo trilhas).
Foi assim que numa ensolarada manhã de setembro, pegamos a estrada sem saber pra onde, mas com o foco no Vale do Paraíba e Serra da Mantiqueira. Foi então que o destino agiu e fez a parte dele, já que quando chegamos à São Bento do Sapucaí estava escuro e decidimos dormir ali apenas para não pegar estrada à noite.
Depois de nos perdermos para achar uma pousada, acabamos ficando num pequeno chalezinho que, por pura sorte, ficava (literalmente) na entrada para a trilha da Pedra do Baú, a principal atração da cidade. Esse era o sinal que precisávamos para decidir ficar mesmo por São Bento no dia seguinte. Só que o dia seguinte também nos surpreendeu e decidimos ficar mais um dia. E mais um dia. E mais um dia. E no fim, passei uma semana inteira na cidade (dois dias a mais que o Thiago, que teve que voltar antes pra São Paulo) e é daqui que escrevo esse post, já triste por ter que ir embora amanhã cedo e já com vontade de voltar logo pra essa delicinha de lugar.



Capelinha em São Bento do Sapucaí, na Serra da Mantiqueira
Capelinha em mosaicos de bandeirolas e ipê amarelo. Não é muito amor?

São Bento do Sapucaí é uma cidade pequenina, com pouco mais de dez mil habitantes, ainda numa parte mais baixa da Serra da Mantiqueira e, por isso mesmo, com temperaturas mais quentinhas que as vizinhas mais altas e geladas. Além disso, São Bento faz fronteira com a glamourosa Campos do Jordão, mas se não fossem pelas placas que indicam a proximidade, nem lembraríamos disso, tal a diferença entre os dois lugares, já que aqui ainda se vive de forma simples e pacata e sem a costumeira ostentação da vizinha famosa. Ainda bem para nós, que preferimos a vida mais autêntica e leve de quem não está preocupado em aparentar e, sim, em estar mais próximo da essência dos lugares e das pessoas. Era de um lugar como esse que precisávamos para colocar as ideias no lugar e nos prepararmos para os próximos desafios da vida.

Pedra do Baú e Bauzinho

Já na primeira manhã na cidade, um sábado lindo e ensolarado, acordamos decididos a subir à badalada Pedra do Baú. Afinal, essa é a atração principal da cidade e um dos picos mais famosos de São Paulo, com sua escarpa de 400 metros de altura,  chegando a 1950 metros de altitude acima do nível do mar. Quando abrimos a porta do nosso simpático chalezinho, nos surpreendemos com a quantidade de carros estacionados no restaurante do lugar, já que dali partem os bravos aventureiros para a trilha, que dá acesso à face norte da pedra. Antes, era possível fazer a trilha pelo face sul, mas esse caminho desbarrancou e hoje está inacessível, portanto o único acesso atualmente é esse pelo Restaurante Pedra do Baú, no bairro paiol. Exatamente onde nos hospedamos, completamente sem querer...

São Bento do Sapucaí, na Serra da Mantiqueira
Nosso chalezinho no início da trilha para a Pedra do Baú
(foto do celular)

O nome da pedra vem do tupi-guarani, embaú, que significa ponto de vigia. É curioso, porque o formato da pedra é mesmo de um baú fechado, mas o significado do nome é outro. Fico pensando se não usamos a palavra baú paras essas grandes  caixas com tranca, por causa do significado em tupi. Ou será que não tem mesmo relação alguma? Não faço ideia.
O que sei é que desde 2010, o complexo formado pelas Pedra do Baú, Bauzinho e Ana Chata (que nome mais infeliz pra se acompanhar uma Ana) fazem parte do Monumento Natural Estadual Pedra do Baú com a intenção de manter a preservação ambiental da região de mais de três mil hectares de extensão de pura beleza e ar puro.

Pedra do Baú, em São Bento do Sapucaí, na Serra da Mantiqueira
Detalhe da Pedra do Baú
(foto do celular)

Começamos a subida já com Sol forte, mas o céu azul celeste sem quase nenhuma nuvem fazia valer a pena o esforço. Além disso, a vista da Pedra do Baú e seu irmão, o Bauzinho aumentando de tamanho a cada passada à nossa frente dava ânimo, mesmo com a canseira da falta de preparo físico, que eu e Thiago estamos. Apesar de ter lido vários relatos que diziam que a subida não era difícil, eu suei bastante e me arrependi durante todo o percurso das cervejinhas que tomei à mais nos últimos meses (mas nada que impedisse que tomar uma cervejinha no fim do dia pra comemorar, afinal nós merecíamos). 


Trilha pra Pedra do Baú, em São Bento do Sapucaí, na Serra da Mantiqueira
Trilha e bananeiras

A maior dificuldade dessa trilha é quando se chega ao paredão da pedra, que só é possível chegar subindo uma escada de metal encravada na pedra. No total, são 600 degraus pedra acima (e depois abaixo), que não chegamos a subir, por falta de equipamento adequado. Mesmo assim, valeu muito a vista e a sensação de proximidade com a natureza.

Trilha pra Pedra do Baú, em São Bento do Sapucaí, na Serra da Mantiqueira
Encontros no caminho

Trilha pra Pedra do Baú, em São Bento do Sapucaí, na Serra da Mantiqueira
Fenda que separa a Pedra do Baú (à direita) do Bauzinho (à esquerda)

A descida sempre é mais fácil e, dessa vez, nos despedimos do chalezinho que nos acolheu na noite anterior para seguir viagem. Ao menos, era o que pensávamos, já que no caminho fomos vendo as placas para a Pedra do Bauzinho e decidimos segui-las. No caminho, passamos pela linda Cachoeira do Toldi, que desce suntuosa pela serra. A cachoeira fica numa propriedade particular e apenas a vimos pelo mirante, mas não chegamos a entrar na fazenda.


O acesso ao Bauzinho é bem mais fácil e e feito pela sede do Monumento Natural Estadual Pedra do Baú, pelo que precisamos pagar R$10 por carro para estacionar. Nos fins de semana, apenas consegue subir de carro até a pedra os maior de 60 anos e pessoas com crianças menores que 3 anos. Os demais (eu e Thiago incluídos), precisamos deixar o carro na parte de baixo e ir caminhando por cerca de 500 metros pra chegar.

Pedra do Baú, em São Bento do Sapucaí, na Serra da Mantiqueira
Pedra do Baú vista no caminho para a Pedra do Bauzinho 
A vista da Pedra do Bauzinho é fabulosa e dá para a lateral da Pedra do Baú, além do mar de morros da Serra da Mantiqueira à nossa volta. 

Pedra do Baú, em São Bento do Sapucaí, na Serra da Mantiqueira
Pedra do Baú vista do Bauzinho

Quando descemos da Pedra do Bauzinho, já era fim de tarde e assistimos o espetáculo do pôr do Sol, que nos rendeu a foto linda que abre esse post. Não tínhamos almoçado e ainda não sabíamos onde dormiríamos aquela noite. O Thiago ainda tinha o plano de ir pra outra cidade, mas a fome e o cansaço falaram mais alto e acabamos ficando por São Bento do Sapucaí mesmo, o que foi a mais acertada das decisões, já que descobrimos assim que a cidade tem muito mais a oferecer do poderíamos imaginar.

As surpresas de São Bento do Sapucaí 

Por outra peripécia da sorte, descobrimos uma pousadinha deliciosa bem no centrinho de São Bento do Sapucaí e, em grande parte por causa disso, acabamos decidindo ficar mais tempo na cidade, já que ali consegui a tranquilidade e conforto que queria para cuidar dos meus projetos, além de poder usufruir as gostosuras da cidade.

Por outra obra do destino, chegamos na cidade bem na época do Festival Literário e fomos invadidos pela festa, nas andanças pelo centrinho. Mas a melhor parte da festa foi mesmo no domingo, depois que voltávamos do nosso almoço tardio e começamos a ouvir alguns tambores. Imediatamente, começamos a procurar da onde viam e, no quarteirão à frente de onde estávamos, passou um cortejo de músicos e dançarinos e, claro, fomos lá acompanhá-los. O músicos eram o Batucaia, um grupo de percussão de Jacareí que pesquisa ritmos brasileiros e que vieram à São Bento do Sapucaí pra contar as lendas da região. Fomos atrás do cortejo, que contava a história de uma cobra gigante que invadia a cidade e estava destruindo tudo. No fim, quem salvou o pequeno vilarejo contra a cobra foram os escravos, que acharam a imagem de Nossa Senhora Aparecida (cujo o santuário fica aqui pertinho, aliás) e ela conseguiu desencantar a cobra. São muitas as lendas nessa região e ouvi-las é uma das coisas que mais me dão prazer, ainda mais se são contadas através de músicas e danças.

São Bento do Sapucaí, na Serra da Mantiqueira
Batucaia pelas ruas de São Bento do Sapucaí

O cortejo acabou nos servindo também de tour pela cidade, já que o grupo nos levou às principais praças e igrejas. Aliás, quantas praças e igrejas para uma cidade tão pequena. São Bento do Sapucaí tem pouco mais de dez mil habitantes, mas a depender da fé e das áreas de lazer, poderia haver pelo menos o dobro de moradores que mesmo assim teria espaço pra rezar e prosear. 
Passamos pela Praça do Coreto, a maior da cidade e terminamos em frente à charmosa Igreja da Matriz.

Praça do Coreto, em São Bento do Sapucaí, na Serra da Mantiqueira
Praça do Coreto

Igreja da Matriz, em São Bento do Sapucaí, na Serra da Mantiqueira
Igreja da Matriz

Aliás, a fé é algo muito presente na vida dos sambentistas. Tanto que, além das igrejas, vários oratórios e capelinhas foram sendo construídos pela cidade. A mais famosa delas é a Capelinha de Mosaico, construída pelos artistas plásticos Ângelo Milani e Cláudia Villar com tantos detalhes e cores, que é impossível não se deter ali por algum tempo admirando tudo.

Capelinha de Mosaico, em São Bento do Sapucaí, na Serra da Mantiqueira
Capelinha de Mosaico


Capelinha de Mosaico, em São Bento do Sapucaí, na Serra da Mantiqueira

As cachoeiras de São Bento do Sapucaí

E, além de tudo, Serra da Mantiqueira é sinônimo de cachoeiras de águas geladas e em São Bento do Sapucaí não poderia ser diferente. O bom de estar na cidade em setembro, com o clima mais quentinho foi poder curtir um banho de cachoeira sem congelar (ou congelar apenas depois de cinco minutos dentro da água). E fizemos isso com prazer: cinco minutos de terapia do gelo com meia hora de terapia de calango (o que, na nossa medicina, significa ficar estirado nas pedras quentinhas, tomando banho de Sol) até esquentar de novo e repetir o processo.

Das quatro cachoeiras que conhecemos na cidade, a que gostamos mais foi, sem dúvida, a Cachoeira dos Amores. Ela é também a que fica mais próxima do centro da cidade e de mais fácil acesso, mas o lado ruim é ser a única paga (R$5,00 por pessoa). Pelo menos, o dindin não é perdido, já que é possível tomar banho nos diferentes níveis de queda e as pedras ao redor parecem ter sido esculpidas à dedo para que deitássemos nelas da forma mais deliciosa e confortável possível, por horas à fio. Gostei tanto que lá fui duas vezes, sendo a última sozinha, quando o Thiago já tinha voltado pra São Paulo. E, apesar dessas duas visitas, fiz pouquíssimas fotos do lugar, já que a água me seduziu mais do que as imagens.

Cachoeira dos Amores, em São Bento do Sapucaí, na Serra da Mantiqueira
Cachoeira dos Amores

A Cachoeira do Toldi apenas vimos de longe, como escrevi anteriormente e não posso opinar muito, mas não pode ser esquecida na listinha.

Cachoeira do Toldi, em São Bento do Sapucaí, na Serra da Mantiqueira
Cachoeira do Toldi

As outras duas cachoeiras ficam próximas entre si e mais distantes do centro, sendo difíceis de achar pela falta de sinalização na estrada. São elas a Cachoeira do Poção e Cachoeira do Tobogã.

A Cachoeira do Poção é até bem gostosa, mas por ficar numa área de mata fechada, é bem mais fria e não dá muito pra ficar na terapia do calango, o que me desanimou bastante, já que sou friorenta e sem Sol não pulo na água. Ali deve ser bom de ir no pico do calor do verão, mas fora esse período é só para os mais valentes mesmos, como o Thiago que mergulhou e aprovou.
   
Cachoeira do Poção, em São Bento do Sapucaí, na Serra da Mantiqueira
Cachoeira do Poção

Já a do Tobogã é lindíssima, a maior de todas as quedas e seria perfeita para mergulhar, pois é aberta e bate bastante Sol, mas fiquei com a impressão de que alguém tentou abrir muito o poço e acabou formando uma enorme piscina de água parada, o que deixou a água lodosa pelo material orgânico que desce da cachoeira e acaba decompondo na piscina. Entrei ali toda feliz e saí meio desiludida com cheiro de lodo no cabelo e no corpo.

Cachoeira do Tobogã, em São Bento do Sapucaí, na Serra da Mantiqueira
Cachoeira do Tobogã

Cachoeira do Tobogã, em São Bento do Sapucaí, na Serra da Mantiqueira

De todas, ficou mesmo aprovada a deliciosa Cachoeira do Amor, que eu só penso em voltar o quanto antes de tanto que gostei.

Aliás, não só a cachoeira, mas  São Bento do Sapucaí inteira me conquistou. Tanto que já entrou pra minha lista de cidades preferidas em São Paulo.


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6 comentários:

  1. Ana Chata, ops, Ana Christ.... que delícia de lugar. Adorei as capelinhas coloridas! Sou como você, só gosto de caldo (água bem quente), caso contrário, pode apostar que só molharei os pés!
    Já está no Malaui, certo? Que seja muito feliz por aí. Aguardo os seus relatos desse cantinho.
    Beijinhos
    Ruthia d'O Berço do Mundo

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    1. Minha amiga, qta saudade! Pois é! Água gelada pra mim só no calor africano, como o que estou sentindo ultimamente aqui no Malawi! rsrs
      Comecei hoje com os diários daqui, pois estava esperando autorização do Médicos Sem fronteiras para escrever!
      Beijinhos

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  2. Adorei a matéria, e o blog.
    Já tenho o destino do passeio este mês, obrigada por compartilhar suas incríveis experiências.

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    1. Cinthya, sinto um enorme prazer em compartilhar! :)
      Aproveita bastante e, quando voltar, conta pra gente como foi!

      Beijo

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  3. Olá Ana, boa noite!
    Estas cidadezinhas arrebatam o nosso coração, não?
    que graça as igrejinhas, inclusive a matriz, toda clarinha.
    Esta região é muito bonita, agradável. Mas trilhas eu não faria, pois não suporto ficar no sol. Logo tenho que procurar uma sombra, detesto sentir calor e já vi que andou pela África. Tu és corajosa, estou aplaudindo aqui. Vou seguir pelas postagens para saber mais ...

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    1. Maria Gloria, eu sou inteiramente aapaixonada por essa região da Serra da Mantiqueira! Amo de paixão!
      Beijinhos

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