sábado, 8 de outubro de 2016

Hello, Malawi

Blantyre, 9 de outubro de 2016

Malaui

Estou a apenas três dias no Malaui, mas minha sensação é de que  já vivi coisas suficientes pra escrever um livro, tamanha a quantidade de sensações, descobertas, surpresas, gostos, cheiros e toques, que experimentei nesses poucos dias no país, um dos mais pobres do mundo e que já figurou na última posição do ranking de pobreza por alguns anos.

Minha chegada foi tranquila e o vôo de duas horas, desde Johannesburg foi de uma paisagem monótona e de um marrom constante, que entendi se tratar da savana africana. Fiquei pensando lá de cima, que o mais legal mesmo teria sido fazer essa viagem de carro, num desses safáris, cheios de zebras, elefantes, girafas e leões. 
Não vi nenhum desses animais do avião, mas fui presenteada na minha chegada à Blantyre com a florada dos jacarandás, que deixaram a cidade toda em tons de roxo. Roxo e marrom, na verdade. Sim, porque até agora achei o marrom o tom prevalente por aqui. Talvez, pela proximidade com a savana, ou talvez apenas pela quantidade de poeira levantada nas ruas de terra. 

Malaui

Já na saída do aeroporto, tive meu primeiro momento de encantamento: as mulheres africanas. Como não se encantar com suas roupas coloridas, seus turbantes vibrantes, seus bebês pendurados nas costas por panos também cheios de cor e os cestos na cabeça? Elas são lindas! Talvez, as mulheres mais lindas que já vi (as colombianas, que ocupavam essa posição pra mim, acabaram de perder o posto! rs). Lindas e vaidosas, apesar da pobreza que as consome.
E que pobreza! Um país sem recurso natural, sem saída pro mar e que consome o pouco dinheiro que tem com uma corrupção estrutural em vários níveis de poder. Com 15% da sua população vivendo abaixo da linha da pobreza, eu fiquei até surpresa de não ver tantos pedintes na rua, mas isso se deve ao fato de que a maioria da população vive de agricultura de subsistência, não necessitando comprar muita coisa para sobreviver. Não fosse isso, nem sei o que seria desse gente. 

É claro que, ao andar na rua, não é incomum que alguém peça esmola para uma pessoa branca como eu. Eles evidentemente sabem que sou estrangeira e expatriada (afinal, poucos são os turistas no Malaui, que dirá nesses bandas de cá, longe do Lago Malaui, o mais famoso ponto turístico do país). Mas, entre eles, não pedem esmola, pois sabem que estão todas na mesma miséria.

Malaui

O maior contato que tive com os nativos, até agora, foi hoje, um belo sábado de Sol, quando fui ao mercado local. Que grande aventura foi ir até lá, caminhando pela multidão e ouvindo as conversas em sua língua-mãe, o chichewa, afinal nenhum deles fala inglês em suas conversas cotidianas, apesar dessa ser a língua oficial do país. Aliás, hoje mesmo cheguei a encontrar duas moças que não falavam inglês, obviamente porque não foram à escola, onde é ensinado a língua dos antigos colonizadores britânicos. Essas duas, aliás, me pediram esmola e, mesmo sem eu dar, apertaram minha mão, deram um sorriso largo e seguiram em frente. No caminho, também passou por mim um grupo cantando músicas tipicamente africanas, daquelas que eu costumava ouvir no antigo CD trazido pelo meu pai, quando esteve na África do Sul, a mais de dez anos atrás. Músicas cheias de ritmo e vibração, sem o excesso de agudos que vem desses instrumentos elétricos e que me irritam os ouvidos. 

A chegada ao mercado foi um evento: uma mulher carregava três galinhas (vivas) no colo e o filho nas costas, os homens falavam coisas que eu não compreendia e todos nos olhavam com certo estranhamento. A maioria dos produtos eram vendidos no chão mesmo, mas com aparência de serem muito frescos e gostosos. Não vi nada de muito diferente do que temos no Brasil: banana, mamão, cebola, alho, beringelas, pimentões, feijões, lindas cenouras de uma cor laranja quase fosforescente e muitos tipos de pimenta. Os vendedores eram os próprios produtores e sem atravessador a feira saiu (literalmente) à preço de banana. 
Depois da feira, fomos no mercado normal (para os nossos padrões, evidentemente) e me surpreendi com a variedade de produtos importados, desde chocolate até molho de tomate e massas. Comprei o que precisarei pra semana e, confesso, fiquei um pouco aliviada de ter minha própria comidinha, pois ainda não me adaptei com a comida local. Ontem, no almoço tivemos Nsima, uma massa branca esquisita e sem absolutamente nenhum gosto, feita de milho. O que salvou foi o molhinho de tomate bem temperadinho que veio junto e deu algum sabor àquilo. Já no jantar, fomos num bingo e a comida estava absolutamente apimentada, num nível impossível de comer, mesmo eu sendo alguém que adora um tempero. Enfim, poder fazer minha própria comidinha vai ser bem bom, pelo menos assim posso escolher, quando (e se vou) me aventurar na culinária malauesa (ou seria malauiense? malaura talvez? não sei). A única dificuldade vai ser usar o fogão da minha casa, que deve ter, ao menos, um século de existência e dá medo de ligar a cada vez que vou usá-lo. 

Malaui


Aliás, minha casa foi uma boa e má surpresa. Moro numa pequena e deliciosa vila, rodeada pelos jacarandás e divido a vizinhança com outros expatriados do Médicos Sem Fronteiras. No primeiro dia, descobri que iria morar sozinha numa das casas, o que me deixou feliz por um lado (mais privacidade), mas triste por outro (mais solidão). Ontem, tive a  notícias que mais expatriados chegarão pelos próximos dias para dividir comigo a casa e agora não sei se fico feliz, ou triste com a notícia… rs

Não tenho autorização para sair à pé após o pôr do Sol, por motivos de segurança do Médicos Sem Fronteiras (apesar de me sentir mais segura aqui do que em qualquer grande cidade brasileira), então hoje decidi sair no finzinho da tarde, mas ainda à tempo de voltar antes do anoitecer, para uma caminhada e me deparei com a saída dos torcedores de um jogo de futebol. Desde de manhã, ouvi os sons das vuvuzelas (aquelas mesmas que infernizaram a copa da África do Sul) e a cidade estava agitada com isso. Não faço ideia de quais eram os times, mas sei que quem ganhou foi o vermelho e branco, já que os torcedores mais animados vestiam roupas dessa cor (mas não uniformes oficiais da nike, ou rebook, apenas roupas vermelhas e brancas). Já a cor do time perdedor não consegui reconhecer. 

Sobre o trabalho, ainda tenho pouco a dizer, mas já descobri algumas coisas que me assustaram, como: em algumas prisões, os encarcerados só tem uma refeição por dia, não tem água suficiente, nem saneamento básico, dormem sentados pela superpopulação e tem alta prevalência de HIV e de doença mental (mas só agora vamos começar a quantificar exatamente a prevalência, pois até agora o projeto era focado apenas em HIV). Mas esse não é lugar de falar de trabalho, então paro por aqui com a esperança de prosseguir com o diário, assim espero.



Diário do Malaui:


Entre Blantyre e Lilongwe
Muribandji, Malaui?
As maravilhas do Lago Malaui
Zimbabwe e o choque de civilização

8 comentários:

  1. Primeiras impressões num novo país, num novo continente, em que, para qualquer utente da cultura ocidental, quanta mais rápida for a adaptação na forma de olhar e sentir o mundo, melhor.
    Gostei muito da descrição das primeiras impressões, elas denotam que, apesar de vinda do exterior, a visitante já trazia preparação teórica para o que iria encontrar.
    Sempre ouvi dizer que as cores africanas, principalmente, as do hemisfério sul, eram únicas. Fico, de água na boca, à espera do que se seguirá.

    Boa estadia! :)

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    1. Verdade! Li bastante sobre o Malawi antes de chegar, no intuito de me preparar pro que viria, mas nenhuma leitura foi suficiente pra tudo que estou encontrando no caminho! Hoje, postei mais um diário! ;)
      Obrigada pelo carinho de sempre, AC!
      Beijos

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  2. Você tem Sensibilidade de perceber esses pequenos detalhes que citou. Muito bom acompanhar sua missão por meio de textos como esse.
    Que Deus lhe abençoe sempre!
    Amamos você. Gerlene e Zenaide.

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    1. Ah, queridas!!!! Adorei o recadinho!
      Também amo vocês! Cuidem-se, meninas!
      Beijinhos

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  3. Que a paisagem e as cores acalme os medos e a solidão do coração. O lago do Malawi, apesar de ser um ponto turístico, é um perigo para a saúde pública. Cuide-se muito bem, Ana.
    Abraço apertado
    Ruthia

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    1. Já fui ao lago, Ruthia (as postagens estão mesmo atrasadas, pelo dificuldade na conexão e correria de trabalho). Terei que tomar alguns remédios pra evitar algumas doenças, mas valeu a pena ter ido! hehehehehe
      Obrigada pelo carinho!
      Um beijo pra si e Pedrinho!

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  4. Continuo aplaudindo! Brava Ana! Uma emoção. Mas tu estás preparada, pelo que percebi.
    A comida, é certo, que estranharia. É mesmo bem diferente. Nunca provei, mas sabia sobre a alimentação africana, ser assim, bem diferente.

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    1. A comida aqui foi o mais difícil, é certo! Não me adaptei. SInto falta de uma feijoada e com caipirinha! Nham nham! rsrs

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