sábado, 5 de novembro de 2016

Muribandji, Malawi?

Blantyre, 21 de outubro de 2016


Malaui

Quando mais da metade da população é analfabeta, os mistérios parecem ser maiores. As fantasias e lendas ocupam o espaço da informação, o que tem seu lado lúdico e até poético, mas deixa o povo completamente entregue à própria sorte. Assim me parecem ser os nativos do Malaui. Sempre com um sorriso largo e aberto, numa hospitalidade que poucas vezes vi em outros lugares, mesmo quando suas roupas estão sujas, quando seus rostos estão esqueléticos e sua aparência é de cansaço. Um povo pacífico, que por conta desse temperamento afável evitou as guerras civis que assolaram seus vizinhos, como Moçambique. E, realmente, guerra não combina com esse país. A humildade que exala do olhar dessa gente pacata e calorosa beira à subserviência. Acatam as ordens sem questionar e sorrindo. Sentem-se gratos apenas pela nossa presença, pois vêem nos estrangeiros, sua única esperança.


Malawi, ou Malauí
A realidade por trás do sorriso

A interação com as pessoas daqui tem sido deliciosa, mas praticamente toda em gestos, sorrisos e mímicas. Quando vim para cá, me disseram que a comunicação seria fácil, afinal o inglês é a língua oficial do país. Que nada! Apesar de oficial, o inglês só é falado por quem frequentou a escola, ou seja, a minoria da população e, mesmo assim, um inglês truncado, com um sotaque quase incompreensível e que estou penando pra entender. A língua falada por todos aqui é mesmo o chichea e eu já estou arriscando umas palavrinhas:
Muribandji?
- Djribuino!
- Zikomo!
Quem saber, após esses três meses, eu não aprendo? rs

Malaui
Família africana

Porém mais do que o desafio com o idioma, tenho enfrentado diariamente um desafio com os problemas estruturais do país. Ficar sem energia já virou rotina para mim. A luz apaga, vou do lado de fora da minha casa e ligo o gerador. Em segundos, tenho o ventilador funcionando de novo e posso continuar minhas atividades com a luz acesa, mas para a maioria da população não é assim. Black-outs assolam o país, principalmente no período seco, já que o Malaui depende exclusivamente de atividade hidrelétrica para gerar eletricidade. E o que acontece é que a grande maioria da população não tem geradores em suas casas e passam a maior parte das noites às escuras. Andar durante à noite pelas ruas das maiores cidades do país, Lilongwe e Blantyre é certeza de passar por quarteirões inteiros na completa escuridão. Isso sem contar com a iluminação pública, inexistente, mesmo sem black-out. Aliás, além de não ter iluminação pública, as cidades também quase não tem calçamento. Anda-se por uma trilha de terra ao lado da rua. Ou pela própria rua, como faz a maioria dos pedestres.

Malawi, ou Malaui
Primavera Africana


Mas a temporada de chuvas está a caminho e cada vez mais surgem nuvens do céu. Não tarda e a chuva chega para acalmar o calor, fertilizar o solo e encher os reservatórios de água. Até lá, é lidar com a seca, o calor e a falta de energia.


Diários do Malaui:

Hello, Malawi
Entre Blantyre e Lilongwe
As maravilhas do Lago Malaui
Zimbabwe e o choque de civilização

4 comentários:

  1. Caramba, que doidera essa falta de energia. Aqui fica alguns minutos e a gente fica perdido...

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    1. Todas as atividades aqui tem que ser planejadas, pensando na possibilidade de não ter energia! Tem sido um exercício e tanto viver assim! rs (sem contar com a internet, que funciona só de vez em quando! Rs)

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  2. Ao ler o primeiro parágrafo, eu me emocionei, Ana. Lendo e olhando o rostinho do garoto ...

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    1. Pois é, querida Maria Gloria! Lidar com as abissais carências materiais e sociais é a parte mais difícil de estar no Malawi. Estou aprendendo muito com esse povo guerreiro!

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