terça-feira, 25 de abril de 2017

O 25 de Abril, em Portugal

"Grândola, vila morena
Terra da fraternidade
O povo é quem mais ordena
Dentro de ti, ó cidade..."
(Zeca Afonso)
Revolução dos Cravos, em Portugal

Por 48 anos, Portugal viveu sob a ditadura fascista de Salazar. Foi à meia-noite do dia 25 de abril de 1974, que ao toque na rádio de "Grândola, vila morena", música até então censurada, que a história mudaria, com o início da Revolução dos Cravos. Essa data é até hoje comemorada, sempre com fogos à meia-noite e manifestações ao longo do dia, por todo país. Tivemos a sorte de estar no Porto nessa data e essa foi, pra mim, um dos dias mais especiais que passamos em Portugal. As comemorações haviam começado ainda no dia 24, dia que chegamos à cidade e já com pé direito, assistindo de graça ao show do Caetano e do Gil, numa tremenda sorte pra conseguir ingressos de última hora. Na saída do espetáculo, ouvimos os fogos e descobrimos que o 25 de abril era mesmo levado à sério.

Revolução dos Cravos, em Portugal

O cravo é a flor nacional portuguesa e a Revolução ganhou seu nome, pois  a população saiu às ruas distribuindo-as aos militares que destituíram o então governo e derrubaram a ditadura.  Foi graças a esse movimento que Portugal conseguiu, em 1976 promulgar sua nova constituição, que garantiria liberdade e democracia ao país, claro que com períodos mais e menos turbulentos, desde então. 

Revolução dos Cravos, em Portugal
Manifestação de brasileiros durante as comemorações da Revolução dos Cravos, que coincidiram com o processo de impeachment da ex-presidente Dilma Roussef
Os impactos desse importante momento foram sentidos até mesmo no Brasil, que vivia por sua vez numa ditadura militar, desde 1964. Na minha opinião, foi Chico Buarque quem melhor concretizou essa influência, compondo uma música, cheia de poesia pra homenagear os portugueses. Tanto Mar, sem nenhum pudor, fala dos cravos e da festa, assim como diz que cá no Brasil estávamos doentes e precisando do "alecrim", numa clara menção ao nosso regime militar. Não à toa essa música passou anos sendo censurada.

Tanto Mar

"Sei que está em festa, pá!
Fico contente
E enquanto estou ausente,
Guarda um cravo para mim.

Eu queria estar na festa, pá!
Com a tua gente
E colher pessoalmente
Uma flor no teu jardim.

Sei que há léguas a nos separar,
Tanto mar, tanto mar
Sei, também, que é preciso, pá!
Navegar, navegar.

Lá faz primavera, pá!
Cá estou doente.
Manda urgentemente
Algum cheirinho de alecrim"



Um ano antes da Revolução dos Cravos, o mesmo Chico havia composto outra música, essa carregada de críticas às ditaduras brasileira e portuguesa, com sutis referências à nossa história, enquanto colônia portuguesa. Fado Tropical é, na minha opinião, uma das mais lindas músicas da (extensa e genial) carreira do Chico e, apesar de não ser propriamente um fado, tem uma melodia que arrepia.

Fado Tropical

"Oh, musa do meu fado, 
Oh, minha mãe gentil,
Te deixo consternado 
No primeiro abril. 
Mas não sê tão ingrata, 
Não esquece quem te amou 
E em tua densa mata 
Se perdeu e se encontrou. 
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal. 
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal...

(Sabe, no fundo eu sou um sentimental. 
Todos nós herdamos no sangue lusitano uma boa dosagem de lirismo ( além da sífilis, é claro). 
Mesmo quando as minhas mãos estão ocupadas em torturar, esganar, trucidar, 
Meu coração fecha os olhos e sinceramente chora)

Com avencas na caatinga, 
Alecrins no canavial, 
Licores na moringa, 
Um vinho tropical. 
E a linda mulata 
Com rendas do Alentejo 
De quem numa bravata 
Arrebata um beijo. 
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal 
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal... 

(Meu coração tem um sereno jeito 
E as minhas mãos o golpe duro e presto, 
De tal maneira que, depois de feito, 
Desencontrado, eu mesmo me contesto. 
Se trago as mãos distantes do meu peito 
É que há distância entre intenção e gesto. 
E se o meu coração nas mãos estreito, 
Me assombra a súbita impressão de incesto. 
Quando me encontro no calor da luta, 
Ostento a aguda empunhadora à proa, 
Mas meu peito se desabotoa 
E se a sentença se anuncia bruta 
Mais que depressa a mão cega executa, 
Pois que senão o coração perdoa.)

Guitarras e sanfonas, 
Jasmins, coqueiros, fontes, 
Sardinhas, mandioca, 
Num suave azulejo 
E o rio Amazonas, 
Que corre trás-os-montes 
E numa pororoca 
Deságua no Tejo. 
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal 
Ainda vai tornar-se um império colonial 
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal 
Ainda vai tornar-se um império colonial"


Passados mais de quarenta anos, os dois países viveram altos e baixos, mas a sede por justiça e igualdade parece ainda estar longe de ser aplacada. Mas sempre ecoará na minha memória o grito dos portugueses a cada ano:


"25 de abril sempre! Fascismo nunca mais!"


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3 comentários:

  1. Aninha, que post extraordinário querida!
    Senti tanta força, nestas tuas linhas, um povo sofrido, que lutou e venceu. Fiquei emocionada! Li atentamente a tudo, palavra por palavra, ouvindo e sentindo os vídeos. Emoção pisar em Portugal, naquela data e ainda, com um show dos nossos queridos Caetano e Gil.
    Esta é uma partilha para aplaudir, li e reli.
    É um assunto muitíssimo atual. Ainda estamos, me parece, na mesma, com muito para desbravar. Difícil está em acreditar, em um país como o nosso Brasil.
    Mais beijinhos amiga, abraços e uma ótima semana.

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  2. Acerca do 25 de Abril...

    Há uma luz que refulge, sulcando as trevas
    Há um gesto que renasce, fazendo o dia
    Há um canto que se ouve, quase em murmúrio
    Há um despontar de vozes, quase melodia.

    Boas andanças, Ana Christ :)

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  3. Que perspectiva interessante sobre a nossa história em comum. Nunca tinha lido um post sobre o 25 de Abril sob o ponto de vista brasileiro. Vc é maravilhosa.
    Grata pelas melodias, desconhecidas para mim.

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