segunda-feira, 10 de abril de 2017

A Semana Santa na Andaluzia

"Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.
Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.
Ele é o humano que é natural.
Ele é o divino que sorri e que brinca.
E por isso é que eu sei com toda a certeza
Que ele é o Menino Jesus verdadeiro."
(Alberto Caeiro)
Semana Santa na Andaluzia

Sou uma apaixonada pelas festas populares e religiosas. Fico encantada com as manifestações de fé que surgem das mais genuínas expressões de alegria. Não me considero uma religiosa, apesar de acreditar em Deus, mas minha ligação com Ele se dá pela festa, pelo sorriso e pela leveza. Por isso, me encantam as religiões de matriz africanas com seus tambores, danças e cantos. Por isso, me encanta a Folia de Reis, a Festa do Divino com suas histórias e lendas. Meu Deus é de festa, é de alegria e não me coloca culpas, nem medos.
Mas há, sim,  uma (única e exclusiva) festa religiosa, que me impressiona e emociona, mesmo não sendo alegre. Aliás, não só não é alegre, como é a mais triste e pesada das manifestações religiosas do cristianismo: a Semana Santa. Não à toa, essa é a mais importante data do catolicismo (esqueça Natal, isso é bobagem), afinal sem ser crucificado e ressuscitar não haveria Cristo. E sem Cristo não haveria Cristianismo. Jesus seria só mais um marceneiro judeu com ideias diferentes dos seus iguais. Talvez, tivesse sido considerado apenas mais um louco. Mas ao ser traído, condenado, crucificado e ressuscitado, morre o homem e nasce o Cristo e, com ele, uma nova religião. Tenho pra mim que a Semana Santa simboliza isso que os homens procuram na fé: o recomeço após a dor. Sempre me impressionou o fato de todo o clima sorumbático e fúnebre das missas da Semana Santa serem seguidos do Domingo de Páscoa, cheio de alegria pela ressureição. E acho que também é esse contraste que me fascina na festa. Impossível negar a condição humana carregada de sofrimento e dor, mas a ressureição vem nos lembrar que um recomeço sempre é possível. No fim, apesar de toda a tristeza, a Semana Santa é carregada de um sentimento de esperança, de possibilidades, de recomeços e de que um mundo novo e melhor é possível...


Semana Santa na Andaluzia
Semana Santa na Andaluzia

Por esses motivos, me interesso bastante pelos festejos da Paixão de Cristo e lembro de ter feito uma trilha com o Thiago, por esculturas em madeira, representando as paixões, na linda Treze Tílias, em Santa Catarina, assim como já participei de algumas procissões da Semana Santa, que são pra mim as mais pesadas do calendário religioso, ao menos, cristão. Sempre me impressionou o cantar triste e sofrido de Verônica, que na tradição oral, enxuga o rosto de Cristo durante o calvário e no pano que ela usa, fica gravada a Sua face. Em geral, ela é representada, nas procissões, por uma mulher vestida toda em negra, com um véu também negro tapando o rosto e o canto é de puro sofrimento e dor. Não ouvi na Andaluzia nenhum cantar que se assemelhasse aos que já ouvi aqui no Brasil e, pelo que entendi, lá eles não tem essa tradição.

Semana Santa na Andaluzia

Sabíamos desde o começo do nosso mochilão pela Europa, que estaríamos próximo da Andaluzia na Semana Santa, mas não tínhamos planejado nada muito concreto, então deixamos o destino decidir e eis que ele quis que chegássemos em Cádiz exatamente na Sexta-feira da Paixão, com a cidade lotada e toda preparada para as procissões, que são muitas e enormes por todo o casco histórico. Tivemos também a oportunidade de participar dos festejos de Arcos de la Frontera, uma cidade menor, mas que mantém tradições ainda bem marcadas, como uma brincadeira com o touro (que não é tourada, mas não me pareceu muito amigável com o bicho), além das procissões.

Semana Santa na Andaluzia
Uma das imagens carregadas durante a procissão

As procissões são, aliás, o mais importante acontecimento da Semana Santa na Andaluzia. Seja durante a manhã, a tarde, ou à noite, as confrarias caminham pelas ruas das cidades, carregando suas imagens, representando a paixão de Cristo e também da Virgem Maria. As músicas são sempre em tom fúnebre, em ritmo marcial, carregado do sofrimento e da intenção de penitência dos integrantes da confraria. Muitos pagam suas promessas ao longo da procissão, caminhando descalços, ou até mesmo carregando as pesadas imagens barrocas. Quanto maior a imagem, maior a quantidade de costaleros (como são chamados as pessoas que carregam as imagem, já que o fazem nas costas). Em Sevilha, onde acontece a maior festa de todas, algumas imagens precisam de centenas deles. Eu, particularmente, me impressionei muito com essas pessoas, que passam quase despercebidas, já que o foco é todo pra imagem que está acima deles. Enquanto a multidão que acompanha o cortejo, fica atenta apenas às belas imagens, acaba não se dando conta da força e do esforço que é feito pra carregá-las. Essas pessoas foram os que mais me emocionaram e me mostraram o real sentido da devoção.

Semana Santa na Andaluzia
Costaleros carregam as imagens da procissão
Outra figura importante na festa são os nazarenos, como são chamados os devotos que se vestem tipicamente com túnicas da cor da confrarias as quais pertencem,  com longos e pontiagudos chapéus (um pouco assustadores pra quem os associa a ku klux klan, mas aqui- ainda bem- o contexto é bem diferente). Eles levam cajados, ou velas e, em geral, vão à frente da procissão, antes da passagem das imagens.

Semana Santa na Andaluzia
Nazarenos de Arcos de la Frontera

Semana Santa na Andaluzia

Outro ponto que me chamou atenção, mas que também é comum ver aqui no Brasil, principalmente nas cidades do interior são os panos roxos pendurados nas sacadas das casas. Tradicionalmente, os panos roxos cobrem imagens sacras desde o Domingo de Ramos até a Sexta-feira Santa, dentro de todas as Igrejas Católicas do mundo e representam o luto pela morte do Cristo. Os devotos, então, reproduzem o gesto colocando os mesmos panos em suas casas, demonstrando também seu luto. Algumas casas o fazem de maneira mais pomposa, outras apenas hasteiam um pequeno pano roxo com algumas flores, mas o que importa mesmo é a intenção e o respeito por aquele momento, tão importante pra todos que professam essa fé.

Semana Santa na Andaluzia
Panos roxos nas sacadas da cidade

E termino esse post com o poema de Alberto Caeiro (meu heterônimo preferido de Fernando Pessoa), que representa o que sinto sobre Jesus e que já transcrevi um pequeno trechinho no início desse post. Não sou católica e sequer saberia dizer hoje se tenho religião, mas tenho um profundo respeito por TODAS as manifestações de fé, devoção, esperança, ou a palavra que for e que conforte essa nossa condição humana tão frágil e passageira. Apesar da forte crítica, não há desrespeito algum ao cristianismo nesse poema, nem a religião alguma. É apenas uma forma de sentir a fé: aquela que vem das experiências humanas e da natureza. O poema é grande, mas vale a leitura...

Poema do Menino Jesus

"Num meio-dia de fim de Primavera
Tive um sonho como uma fotografia.
Vi Jesus Cristo descer à terra.
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se de longe.

Tinha fugido do céu.
Era nosso demais para fingir
De segunda pessoa da Trindade.
No céu tudo era falso, tudo em desacordo
Com flores e árvores e pedras.
No céu tinha que estar sempre sério
E de vez em quando de se tornar outra vez homem
E subir para a cruz, e estar sempre a morrer
Com uma coroa toda à roda de espinhos
E os pés espetados por um prego com cabeça,
E até com um trapo à roda da cintura
Como os pretos nas ilustrações.
Nem sequer o deixavam ter pai e mãe
Como as outras crianças.
O seu pai era duas pessoas -
Um velho chamado José, que era carpinteiro,
E que não era pai dele;
E o outro pai era uma pomba estúpida,
A única pomba feia do mundo
Porque nem era do mundo nem era pomba.
E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.
Não era mulher: era uma mala
Em que ele tinha vindo do céu.
E queriam que ele, que só nascera da mãe,
E que nunca tivera pai para amar com respeito,
Pregasse a bondade e a justiça!

Um dia que Deus estava a dormir
E o Espírito Santo andava a voar,
Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.
Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido.
Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.
Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz
E deixou-o pregado na cruz que há no céu
E serve de modelo às outras.
Depois fugiu para o Sol
E desceu no primeiro raio que apanhou.
Hoje vive na minha aldeia comigo.
É uma criança bonita de riso e natural.
Limpa o nariz ao braço direito,
Chapinha nas poças de água,
Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.
Atira pedras aos burros,
Rouba a fruta dos pomares
E foge a chorar e a gritar dos cães.
E, porque sabe que elas não gostam
E que toda a gente acha graça,
Corre atrás das raparigas
Que vão em ranchos pelas estradas
Com as bilhas às cabeças
E levanta-lhes as saias.

A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as coisas.
Aponta-me todas as coisas que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando a gente as tem na mão 
E olha devagar para elas.

Diz-me muito mal de Deus.
Diz que ele é um velho estúpido e doente,
Sempre a escarrar para o chão
E a dizer indecências.
A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia.
E o Espírito Santo coça-se com o bico
E empoleira-se nas cadeiras e suja-as.
Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica.
Diz-me que Deus não percebe nada
Das coisas que criou -
"Se é que ele as criou, do que duvido." -
"Ele diz por exemplo, que os seres cantam a sua glória,
Mas os seres não cantam nada.
Se cantassem seriam cantores.
Os seres existem e mais nada,
E por isso se chamam seres."
E depois, cansado de dizer mal de Deus,
O Menino Jesus adormece nos meus braços
E eu levo-o ao colo para casa.

Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.
Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.
Ele é o humano que é natural.
Ele é o divino que sorri e que brinca.
E por isso é que eu sei com toda a certeza
Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.

E a criança tão humana que é divina
É esta minha quotidiana vida de poeta,
E é por que ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre.
E que o meu mínimo olhar
Me enche de sensação,
E o mais pequeno som, seja do que for,
Parece falar comigo.

A Criança Nova que habita onde vivo
Dá-me uma mão a mim
E outra a tudo que existe
E assim vamos os três pelo caminho que houver,
Saltando e cantando e rindo
E gozando o nosso segredo comum
Que é saber por toda a parte
Que não há mistério no mundo
E que tudo vale a pena.

A Criança Eterna acompanha-me sempre.
A direcção do meu olhar é o seu dedo apontado.
O meu ouvido atento alegremente a todos os sons
São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.

Damo-nos tão bem um com o outro
Na companhia de tudo
Que nunca pensamos um no outro,
Mas vivemos juntos e dois
Com um acordo íntimo
Como a mão direita e a esquerda.

Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas
No degrau da porta de casa,
Graves como convém a um deus e a um poeta,
E como se cada pedra
Fosse todo o universo
E fosse por isso um grande perigo para ela
Deixá-la cair no chão.

Depois eu conto-lhe histórias das coisas só dos homens
E ele sorri porque tudo é incrível.
Ri dos reis e dos que não são reis,
E tem pena de ouvir falar das guerras,
E dos comércios, e dos navios
Que ficam fumo no ar dos altos mares.
Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdade
Que uma flor tem ao florescer
E que anda com a luz do Sol
A variar os montes e os vales
E a fazer doer aos olhos dos muros caiados.

Depois ele adormece e eu deito-o.
Levo-o ao colo para dentro de casa
E deito-o, despindo-o lentamente
E como seguindo um ritual muito limpo
E todo materno até ele estar nu.

Ele dorme dentro da minha alma
E às vezes acorda de noite
E brinca com os meus sonhos.
Vira uns de pernas para o ar,
Põe uns em cima dos outros
E bate palmas sozinho
Sorrindo para o meu sono.


Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu ao colo
E leva-me para dentro da tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar
Até que nasça qualquer dia
Que tu sabes qual é.

Esta é a história do meu Menino Jesus.
Por que razão que se perceba
Não há-de ser ela mais verdadeira
Que tudo quanto os filósofos pensam
E tudo quanto as religiões ensinam ?"

                          Alberto Caeiro

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5 comentários:

  1. Jamais me passaria pela cabeça associar Alberto Caeiro - mestre das coisas simples, naturais - à Semana Santa dos espanhóis, plena de simbolismo mas com um cenho demasiado carregado, herança, digo eu, com laivos da Inquisição. O que é certo é que o resultado é muito bom, com as palavras do poeta a limar arestas demasiado acentuadas.
    Parabéns!

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    1. Alberto Caeiro veio justamente pra amenizar o peso da Semana Santa na Andaluzia! Obrigada pela visita, amigo! Sempre uma honra...
      Beijos

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  2. Ana, eu tb aprecio as festas religiosas. E a Espanha eu acho um país tão interessante e forte, nas suas manifestações. Eu gosto.
    Agora, digo aqui, que as tuas fotos, os teus 'tiros' me arrebatam, sabe? São diferentes, surpreendem! A foto com a legenda 'Costaleros carregam as imagens da procissão' eu adorei! E a foto com os panos roxos e as arandelas?
    Deliciosa postagem, querida! Bjux!

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    1. Ah, Maria Glária! Eu seria capaz de ter um blog apenas sobre manifestações culturais e religiosas de tanto que elas me encantam e emocionam...
      Enqto isso não acontece, vou escrevendo aqui mesmo, do jeito que elas me tocam! :)
      Beijo!

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    2. Pois vida longa ao seu "jeito que elas me tocam" !!!

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