quinta-feira, 13 de junho de 2013

Pela Rota das Emoções: desbravando Camocim

Camocim, na Rota das Emoções

Camocim acabou ganhando o título de ovelha negra da viagem. Isso porque, apesar de ser uma cidade de porte médio e ter um imenso potencial, a cidade ainda está longe de ter uma boa estrutura de turismo. A prefeitura nitidamente está envolvida com brigas partidárias e corrupção e, infelizmente, isso faz com que o investimento em outros setores seja deixado de lado. Na única noite que dormimos lá, fomos tirados da cama de madrugada, pelo foguetório e comício da prefeita, que havia se reempossado após ter sido cassada por denúncia de campanha eleitoral irregular. Esse fato deixa transparecer o clima politicamente tenso da cidade, que ainda precisa amadurecer politicamente para poder crescer  sócio, econômica e culturalmente.
Mesmo assim, valeu a pena a estadia lá para conhecermos uma parte do litoral cearense ainda pouco explorada e muito preservada. Camocim tem lindas praias, dunas e lagoas, que nos deixaram encantados. Fica a esperança de que o turismo floresça de forma sustentável, não repetindo os erros de outros lugares que se deixaram degradar pela invasão do turismo de massa, como Jericoacoara.

Saída de Tatajuba e chegada em Camocim

Acordamos cedo e pela janela estava um céu azul e um Sol lindo, depois de dois dias de tempo nublado e chuvoso. Deu ainda mais vontade de ficar em Tatajuba pra ver a vila com cores mais vivas, mas precisávamos seguir viagem e seu Pedro nos esperava para nos levar até Camocim.
O  horário de partida depende da maré, já que Tatajuba fica inacessível para carro quando a maré está alta. Naquele dia, o horário seria às 6h. Entramos no buggy do seu Pedro e tivemos a companhia do seu Manoel e da Mariazinha, que também tinham compromissos na cidade grande.
No caminho, entendi o motivo da preocupação com o horário certo pra sair: seguimos na beira da praia e em alguns pontos, o mar avança muito na faixa de areia e mesmo na maré baixa, precisamos passar com o buggy na água. Passamos por trechos isolados e frequentado apenas por pescadores (vimos muitos fazendo arrastão de camarão e outras jangadas bem longe, em alto-mar). Um lindo passeio.
Chegamos na Ilha do Amor (que, aliás, não é uma ilha, mas Mariazinha nos explicou, que antigamente a maré deixava aquele trecho isolado) e para entrar em Camocim, precisaríamos cruzar de balsa o Rio Coreaú, que deságua nas margens da cidade. Naquele começo de manhã e o tempo aberto, o passeio foi delicioso.

Ilha do Amor, em Camocim, na Rota das Emoções
Ilha do Amor

Camocim, na Rota das Emoções
Camocim vista do Rio Coreaú
Chegando na cidade, nos despedimos de nossos novos amigos e ficamos tristes de deixar pessoas tão especiais sem saber quando as  veríamos novamente.
Fomos pro hotel e já começamos a sentir as dificuldades que teríamos em Camocim pela falta de estrutura para turismo. O hotel era tenebroso: sujo, feio, sem circulação de ar e não muito barato. Não era voltado para turismo e o foco eram  viajantes à trabalho.
Na pressa pra passear, decidimos ficar por lá mesmo e saímos em busca de alguma agência de turismo. Passamos por uma que estava fechada e depois encontramos a Associação dos Buggueiros de Camocim e lá havia um único buggueiro, Wagner, que nos ofereceu um passeio completo pelas praias do litoral leste de Camocim (já que as praias do oeste nós já conhecíamos, incluindo Guriú e Tatajuba). Negociamos um passeio até Barra dos Remédios, o lugar que mais queríamos conhecer, na região. Curioso que nosso buggueiro de Jeri, o Roberto, havia nos dito que lá tinham peixes-prego, que machucavam quem entrasse na água. Falamos isso pro Wagner e ele riu alto. Percebi que há uma certa concorrência entre os buggueiros de Jeri e os de Camocim, como se um quisesse diminuir o outro em termos de belezas e atrativos.
Entramos no buggy e a primeira impressão já não foi boa: ele não tinha  banco de carona e o carro estava em péssimo estado de conservação. Pensei até em desistir, mas minha vontade de conhecer as praias falou mais alto e me enchi de coragem pra ir. Minha má impressão inicial se mostrou justa: tivemos vários problemas com o buggy, durante todo o passeio.

Passeio pelas praias de Camocim

Saímos de Camocim por volta das 9h e seguimos por diversas praias belíssimas. O litoral ali é  verdadeiramente de tirar o fôlego. A primeira praia é das barreiras (que tem esse nome, pela grande quantidade de pedras na areia), seguida da praia do farol, onde encontra-se o Farol de Trapiá, bem na foz do Rio Coreaú e ainda na área urbana da cidade.
Farol de Trapiá, em Camocim, na Rota das Emoções
Farol de Trapiá
Seguimos quase sem paradas, passando por praias mais movimentadas (como a de Maceió) e por extensas faixas de areia inabitadas e desertas, sempre acompanhados de um mar de cor azul anil.
Camocim, na Rota das Emoções
Caminho entre Camocim e Barra dos Remédios
Nossa única parada foi na usina eólica de  Camocim, na Praia de Xavier, atualmente a maior do Ceará, onde nosso buggueiro aproveitou pra fumar um cigarrinho (provavelmente, o real motivo da parada) e reparou, sem grandes preocupações, que o pneu do buggy estava murchando.
Usina eólica em Camocim, na Rota das Emoções
Usina eólica de Camocim

Enfim, a Barra dos Remédios

Finalmente, chegamos na Barra dos Remédios e todas as nossas expectativas foram atendidas: o lugar é fantástico. Há 34km do centro de Camocim e fazendo divisa com o município de Barroquinha, a Barra dos Remédios é o encontro do Rio dos Remédios com o mar.
Ali, ficamos absolutamente isolados do mundo e durante todo o tempo que passamos nas calmas águas do rio, não encontramos ninguém (nem sequer os tais peixes-prego, tão falados pelo buggueiro de Jeri).
Barra dos Remédios, em Camocim, na Rota das Emoções
Barra dos Remédios

Barra dos Remédios, em Camocim, na Rota das Emoções

Ficamos um bom tempo lá e depois seguimos pelo mesmo caminho da vinda e a ideia, dessa vez, seria ir parando em alguns pontos mais importantes.
Na Praia do Xavier, entramos pela comunidade (que me lembrou muito Tatajuba) e seguimos pra uma duna. Nessa hora, o Wagner parou o buggy e resolveu trocar o pneu, já que ele estava murcho demais. Ficamos uns bons 15 minutos parados e o Thiago teve que ajudá-lo para acelerar o processo. Pra piorar, o step era de carro de passeio, bem menor que o pneu necessário, e o buggy ficou torto, pendendo pro lado do pneu menor.
Mesmo assim, ele subiu a duna e fiquei muito incomodada, já que é uma prática proibida. Perguntei  sobre isso e  ele me disse: "sei que é proibido, mas não tem fiscalização, então eu subo". Típica frase de quem não tem nenhuma preocupação ambiental. Uma pena.

De lá, fomos para a Praia de Maceió, a mais estruturada da região com barracas e casas, mas longe de ser a mais bonita.
Praia de Maceió, em Camocim, na Rota das Emoções
Praia de Maceió
Almoçamos na  barraca do seu Osmar, um senhor distante e de pouco assunto. Aliás, notei essa característica em quase todos de Camocim: povo de poucos amigos e muitos parecem nóias: acelerados, falando rápido e cheios de trejeitos no corpo e na fala (cheguei mesmo a pensar que alguns estariam drogados). São até solícitos, mas não são simpáticos. Um contato muito estranho.

De onde estávamos, ouvimos uma conversa entre o Wagner, seu Osmar e mais dois italianos (que falavam um português carregado) sobre a necessidade de investimento no turismo. O tom da conversa era que se a prefeitura não faz, eles fariam. A ideia era deixar um banner em Guriú, vila pertencente a Camocim e passagem obrigatória pro tradicional passeio por Tatajuba (que, aliás, também pertence a Camocim). Nesse banner, eles fariam propaganda das praias do lado oeste, tentando atrair os turistas de Jeri, que passam por Camocim sem nem saber disso. Achei a ideia válida, mas me questionei se eles teriam estrutura para receber esses turistas. Minha opinião é que, por enquanto, ainda não. E fica aquela preocupação de que na ausência do Estado, a exploração seja predatória e sem grandes preocupações ambientais e com a população local.

A comidinha estava boa e foi barata. Precisamos ficar ali esperando a maré baixar pra seguir viagem e observei que o Wagner estava tirando um cochilo, numa das rede.

Lagoa do Boqueirão

Depois do almoço, seguimos para a Lagoa do Boqueirão, atrás da Praia do Maceió. Uma lagoa bonita e bem parecida com as de Jeri, só que deserta.

Lagoa do Boqueirão, em Camocim, na Rota das Emoções
Lagoa do Boqueirão
Ficamos um bom tempo na água, brincando com os peixinhos que mordiscavam (forte) nossa perna e quando voltamos, uma surpresa: nosso buggueiro estava dormindo, deitado na areia e usando a almofada do buggy de travesseiro. O sono estava tão pesado que foi difícil acordá-lo.

Na volta, passamos pela Lagoa Seca, já na área urbana de Camocim e muito frequentada pelos locais, principalmente nos finais de semana.
Lagoa seca, em Camocim, na Rota das Emoções
Lagoa Seca
E, pra acabar definitivamente com nossa paciência com a falta de profissionalismo do nosso buggueiro, a gasolina do carro acabou. Nossa sorte foi que estávamos numa área movimentada (fico imaginando se isso tivesse acontecido na Barra dos Remédios) e rapidamente conseguimos quem emprestasse gasolina, mas foram uns bons 20 minutos perdidos ali.
Normalmente, gostamos de  passeios mais despojados e sem formalidades, mas dessa vez, nossa tolerância foi ao limite. Poderíamos ter tido problemas graves, pela imprudência do condutor do buggy.

Chegamos de volta a Camocim, já no fim da tarde e nosso plano era atravessar o rio Coreaú e assistir o pôr do sol, na Ilha do Amor, mas fomos impedidos pelos funcionários da balsa, que disseram que não haveria mais travessia depois das 18h e acabaríamos ficando presos lá. Depois, descobrimos que isso não era verdade, pois uma lancha poderia nos trazer de volta, mas nessa altura do campeonato, o Sol já se fora embora.

Num misto de decepção e surpresa com tudo que acontecera aquele dia, caminhamos pela margem do rio e passamos mais  um incômodo: na calçada completamente esburacada, acabei tropeçando duas vezes e parti minha unha quase no meio. Foi uma dor dos infernos.
Pra desanuviar as ideias, resolvi fazer algumas fotos do rio, pois a luz do fim de tarde estava linda e Camocim, apesar de todos os problemas, é um encanto de tão bonita.

Rio Coreaú, em Camocim, na Rota das Emoções
Margens do Rio Coreaú

Camocim, na Rota das Emoções

Camocim, na Rota das Emoções


Chegamos no hotel e duas baratas nos esperavam no quarto. Pra piorar, de madrugada, fomos acordados com o comício da prefeita, conforme escrevi no começo desse relato.

Saída de Camocim e partindo para Cajueiro da Praia

Na saída do hotel, uma agradável surpresa: Mariazinha estava passando ali na hora e foi ótimo revê-la, mesmo que rapidamente. Após a despedida, seguimos para o local onde pegaríamos a van do Junior, um dos poucos transportes disponíveis de Camocim para Cajueiro da Praia (nosso próximo destino) e Parnaíba, já em território piauiense.
Não posso chamar aquele lugar de rodoviária, pois não havia onde se sentar, nem se abrigar do tempo (apenas árvores que, ainda bem, faziam uma benfazeja sombrinha). Como chegamos cedo e teríamos mais de uma hora de espera até a partida, estendi minha canga no chão (de terra) e lá fiquei.
Entramos na van e me assustei ao ver que iriam pessoas em pé, numa estrada interestadual. Além disso, o motorista não usava cinto de segurança. Achei que fosse por falta de informação, mas logo percebi que não: chegando em Chaval (cidade que faz fronteira entre Ceará e Piauí) havia uma fiscalização da polícia rodoviária e rapidamente, ele colocou o cinto. Concluí que era, de fato, imprudência. E muito me assustei quando vi que ele mudou o caminho, entrando no meio do mato pra fugir da polícia. Logo nos demos conta que a van deveria ser irregular e não deveria ter autorização para transportar passageiros. Na hora, me senti ingênua de não ter atentado para isso antes da viagem. Conversando com o Thiago concluimos que a falta de organização do Estado faz com que a informalidade ocupe essa ausência. Em muitos momentos, no nordeste, a fronteira entre o legal e o ilegal é tão tênue que fica difícil pro cidadão comum não praticar algum ato fora da lei, mesmo que de gaiato, ou por absoluta falta de opção dentro da legalidade.

A conclusão que cheguei sobre Camocim foi: um lugar lindo, mas mal cuidado (em todos os aspectos). Penso que vale a pena a visita, desde que se pesquise bem antes onde ficar e com quem fazer os passeios pra não cair em nenhuma furada.

Mais fotos:

Camocim, na Rota das Emoções
Entre a Praia do Farol e a Praia de Maceió

Nativos pescando camarão, em Camocim, na Rota das Emoções
Arrastão de camarão


Praia do Xavier, em Camocim, na Rota das Emoções
Praia do Xavier

Dunas da Lagoa do Boqueirão, em Camocim, na Rota das Emoções
Dunas da Lagoa do Boqueirão

Mais sobre a Rota das Emoções:


6 comentários:

  1. Caramba, post completinho, cheio de dicas incríveis e fotos sensacionais... Parabéns!

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    1. Poxa! Muito me honra um elogio vindo de especialistas em terras cearenses! Muito obrigada mesmo! Bjos!

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  2. Sou piauiense e atualmente moro em MG. Estou tirando umas férias e vou pro Piauí semana que vem e encontrei vocês no fórum do Mochileiros. Estou amando os relatos! Uma riqueza de detalhes!

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    1. Fico muito feliz em saber! Mesmo! Comentários assim só nos estimulam a continuar! :)
      Boas férias e curta bastante, que o Piauí é bom demais da conta!!!

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  3. Parabéns pelo post, dicas como estas ajudam no momento de definir o destino das férias e nos previne quanto a possíveis episódios indesejados.

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    1. É mesmo essa a ideia do blog: compartilhar experiências!
      Obrigada mesmo pela visita! :)

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