domingo, 23 de junho de 2013

Os dois lados do Delta do Parnaíba

Delta do Parnaíba


O Delta do Parnaíba é considerado o único em mar aberto das Américas e o terceiro maior do mundo, ficando atrás apenas do Nilo, no Egito e do Mekong, no sudeste asiático. Apresenta cerca de 80km de extensão e cinco braços que envolvem mais de 70 ilhas fluviais. Apresenta cerca de 20% da sua área no Piauí (dentro do município de Parnaíba) e 80% no Maranhão (dentro dos municípios de Araioses e Tutóia). Na nossa viagem, conhecemos o delta através de duas cidades: Parnaíba e Tutóia.
Parnaíba é a segunda maior cidade do estado do Piauí, perdendo apenas para a capital, Teresina e aqui moram cerca de 150 mil habitantes. O município é considerado a capital do Delta do Parnaíba, por apresentar uma boa estrutura (principalmente de turismo) para acesso à região. A cidade é dividida em duas partes: uma às margens do Rio Igaraçu, onde encontra-se o Porto das Barcas e outros pontos históricos da cidade; e a outra parte que corresponde à ilha grande de Santa Isabel, maior ilha do delta do Parnaíba.
Já Tutóia é uma cidade maranhense pequena, com pouco mais de 50 mil habitantes, ainda com pouca estrutura turística e economia basicamente pesqueira. A despeito disso, sua localização é privilegiada para conhecer o delta, já que encontra-se próximo dos seus pontos mais bonitos: a ilha do caju e o dormitório dos guarás.
É verdadeiramente um espetáculo andar pelos inúmeros desdobramentos do Parnaíba, que formam desde rios caudalosos até igarapés que só passam uma canoa por vez.



Chegada à Parnaíba

Saímos de Cajueiro da Praia na hora do almoço. Pegamos um ônibus ruim, que não sei dizer se era irregular, ou não. Muitas vezes, nessa viagem, nos deparamos com uma tênue fronteira entre a legalidade e a ilegalidade, nos serviços públicos do nordeste, como aconteceu em Camocim, por exemplo, quando pegamos uma van irregular sem saber.
Chegamos em Parnaíba e fomos pra Pousada Porto das Barcas, na região de mesmo nome. Fiquei encantada com a decoração da pousada, que é feita por um artista plástico da cidade.
Delta do Parnaíba
Pousada Porto das Barcas

Usamos esse dia para resolver assuntos extra-oficiais da viagem: lavar roupas, sacar dinheiro, organizar malas e até comprar roupas.
Tivemos a divertida ajuda do recepcionista da pousada, que nos permitiu lavar nossas roupas lá e insistia, falando  baixinho (como se já não estivéssemos sozinhos lá), que ninguém podia saber que ele nos deixara usar a máquina de lavar. Deixamos a roupa lavando e saímos para tentar comprar novas roupas para a travessia dos lençóis maranhenses e fomos pegos no caminho por uma chuva chata,  mas que conseguiu alagar todas as ruas, do centro da cidade.
Após andarmos por várias lojas sem conseguir achar nenhuma roupa adequada para esporte, me dei conta  de que apesar de ser a segunda maior cidade do Piauí, Parnaíba ainda é uma cidade sem muitos recursos. Na volta, ficamos com medo de pendurar as roupas no varal ao ar livre, por causa da chuva e nosso adorável recepcionista abriu um dos quartos vagos e conseguimos pendurar lá as roupas molhadas.
Depois de feita essas obrigações, caminhamos um pouco pelo Porto das Barcas, observando suas construções históricas e coloridas. Ali era um importante porto para a exportação de charque, no século XVIII. É bem interessante passear pelos velhos casarões de estilo colonial.
Porto das Barcas, no Delta do Parnaíba
Ruas do Porto das Barcas

Terminamos o dia, tomando uma cervejinha  bem próximo da pousada, num restaurante de um português, que está no Brasil há apenas dois meses. O lugar chama Boteco do Portuga e nos surpreendeu de tão barato. Acabamos indo lá nas duas noites que passamos em Parnaíba.

Delta do Parnaíba

Acordamos cedo e fomos direto para o Porto dos Tatus, ponto de partida para conhecermos  o Delta do Parnaíba. Lá encontramos o seu Maíca, nosso adorável barqueiro e seguimos em sua lancha rápida em direção ao delta. Minha primeira impressão foi de uma imensidão de água barrenta e muito mangue. Continuamos seguindo e passamos por uma duna. Mas como assim? Uma duna no meio do mato? Sim, e ela está avançando em direção ao rio, ameaçando assoreá-lo e mudar o seu trajeto original. Impressionante.
Delta do Parnaíba
De um lado, mangue; do outro, duna
Seu Maíca nos contou que há um projeto para impedir o avança das dunas, mas na opinião do experiente barqueiro (que nasceu na Ilha do Caju e viveu a vida inteira no delta) essa tentativa é inútil, por que, segundo suas próprias palavras, "o homem pode conseguir muita coisa com a inteligência, mas não consegue enganar a natureza". Concordo com ele, apesar de saber os problemas causados pelo avanço das dunas, em vários locais, como em Tatajuba,  onde uma comunidade inteira foi soterrada e em Paulino Neves, onde as dunas destruíram uma área alagada, que era dormitório de espécies ameaçadas de extinção.

Inicialmente, navegamos pelo rio ainda largo, mas cada vez entravamos mais em caminhos estreitos, os igarapés. Impressionante como o rio vai se ramificando em braços cada vez mais finos. Em alguns momentos, temos que afastar galhos e folhas pra conseguir passar.
Delta do Parnaíba
Igarapé
São nos igarapés que a riqueza natural do delta fica mais evidente: jacarés, cobras, macacos, pássaros e caranguejos, muitos caranguejos. Seu Maíca, com seu olhar clínico, ia nos mostrando cada animal que passava e (pra manter nossa má sorte na observação de animais, como aconteceu em Cajueiro da Praia) não vimos muitas espécies, mas observamos um macaco e um filhotinho de jacaré, o que já me deixou muito feliz. Seu Maíca desceu da lancha e catou dois caranguejos para vermos a diferença entre os machos e as fêmeas. Descobrimos que somente os machos podem ser comercializados para garantir a reprodução dos animais.

Nesse caminho pelos igarapés, passamos por alguns pescadores de camarão, que estacionam suas canoas próximo a algumas plantas nas margens dos igarapés, onde os camarões ficam protegidos e viram alvo fácil. Eles usam uma técnica de pescar com uma espécie de balde de madeira com furos. Bem rústico. Seu Maíca nos contou da ajuda dada pelo governo, na época de defeso dos camarões, quando os pescadores estão proibidos de exercer suas atividades e ganham uma  bolsa, que evita que eles atuem na ilegalidade. Conquista importante.
Nativo do Delta do Parnaíba
Pescador de camarão

Encontramos também catadores de caranguejo, que tem trabalho farto e garantido, nos imensos manguezais da região. Passamos por eles, próximo ao fim do seu expediente, quando a maré começa a subir e os manguezais ficam alagados. Para sinalizar o término de suas atividades, eles se comunicam com gritos e assovios, que ecoam por entre a mata e alcança  grande distância. É curioso vê-los tomando banho após terem literalmente chafurdado na lama. Eles ficam com braços e pernas pretos e para conseguirem se limpar demoram tanto que entramos e saímos de um dos igarapés e um dos rapazes passou todo esse tempo lavando-se no rio. Uma vida difícil, imagino eu.
Nativo do Delta do Parnaíba
Catador de carangueijo
Depois, seguimos para um dos braços do delta, o que separa a Ilha Grande de Santa Isabel da Ilha dos Poldros, onde fizemos uma rápida parada. A Ilha dos Poldros é uma das poucas ilhas particulares do delta (junto com a Ilha do Caju) e ocupa uma área de 1200 hectares, habitada apenas por um morador, que é o caseiro dos donos da ilha. O encontro do rio com o mar é imenso e bonito, mas a praia da ilha não é boa pro banho, pois apresenta a água amarronzada, influência da foz do Parnaíba.
Ilha dos Poldros, no Delta do Parnaíba
Ilha dos Poldros e foz do Rio Parnaíba
Delta do Parnaíba
Foz do  Rio Paraíba
De lá, seguimos para a Ilha das Canárias, a segunda maior ilha do delta e pertencente ao município de Araioses, já em território maranhense. Bastante povoada, principalmente por pescadores, a ilha apresenta estrutura de turismo também. Almoçamos na Pousada das Canárias e comemos um camarão fresquinho, pescado no próprio delta e sem nenhum conservante (coisa rara).
Ilha das Canárias, no Delta do Parnaíba
Ilha das Canárias
Depois do almoço, seguimos por mais alguns igarapés, pois seu Maíca queria que víssemos mais animais, mas a maré já estava alta, escondendo a maioria deles. Como sempre, nosso azar para observação animal imperou.
Terminamos o passeio no Porto dos Tatus e, curioso, os caranguejos que vimos serem catados estavam ali sendo vendidos e foram transportados para Parnaíba no mesmo ônibus que nós pegamos. E mais curioso ainda foi que esse ônibus era da frota da cidade de São Paulo. Tinha até a famosa placa de proibido fumar em locais fechados com o desenho do mapa do estado estilizado. Ele estava em péssimo estado de conservação com vidros trincados e bancos rasgados, então, deduzimos que as empresas de ônibus paulistanas devem vender as latas velhas para o estado do Piauí. Vergonhoso.
Porto dos Tatus, no Delta do Parnaíba
Venda de caranguejo, no Porto dos Tatus

A bela Praia da Pedra do Sal

Voltamos para a pousada e depois de um cochilo merecido, seguimos para conhecer a única praia de Parnaíba, a Praia da Pedra do Sal. Ela fica na Ilha Grande de Santa Isabel, sendo basicamente uma colônia de pescadores. É dividida em parte mansa (à leste) e parte brava (à oeste) pelas pedras do farol localizado na região. Lá assistimos um monumental pôr-do-Sol, que dizem ser o mais bonito do Piauí.
Praia da Pedra do Sal, no Delta do Parnaíba
Praia brava da Pedra do Sal

Praia da Pedra do Sal, no Delta do Parnaíba
Praia mansa da Pedra do Sal

Pôr do Sol na Praia da Pedra do Sal, no Delta do Parnaíba

Voltamos já no escuro e jantamos novamente no Boteco do Portuga. No dia seguinte, enfrentaríamos o pior trecho de viagem: a ida pra Tutóia.


Tutóia

A viagem para Tutóia foi, sem dúvida, a mais bizarra da minha vida. Pra começar, chegamos na rodoviária de Parnaíba e parecia que ela iria cair a qualquer momento com infiltrações por todo lado. Após um atraso (tolerável) de dez minutos, chegou o ônibus da Viação Coimbra e eu me assustei: velho, enferrujado, sem cinto de segurança para os passageiros, MAS com ar-condicionado. Na verdade, era melhor que não tivesse o tal ar-condicionado, pois, além de não funcionar bem, lá dentro fedia demais (principalmente por causa de um senhor que viajou em pé, próximo a nós que não devia tomar banho a semanas). Quando tentávamos abrir a janela, o trocador mandava fechar, "por causa do ar-condicionado". Ver pessoas viajando em pé, numa estrada inter-estadual me impressionou. Mais uma vez, pensei como a fronteira entre a legalidade e a ilegalidade é tênue no nordeste. E, nesse dia, tínhamos certeza que nosso ônibus era legalizado. Pra piorar, atrás de mim, sentou uma menina no colo da mãe. Ela devia ter já uns oito anos, mas para economizar com a passagem, a mãe só comprara um bilhete e foram as duas esmagadas ali. A menina pirraçava, pois queria uma assento só para ela e passou a viagem inteira chorando (alto) e chutando o banco da frente, que no caso era ocupado por mim. Eu passei as três horas de viagem sentindo calor, respirando fedor, sendo chutada e ouvindo os berros da menina. Um terror.

Enfim, chegamos à Tutóia e a primeira impressão foi de uma cidade confusa. A sorte é que seu pequeno tamanho não permite (ainda) que o caos se instale.
O Thiago queria já pegar um transporte para Paulino Neves. Eu queria aproveitar que estávamos lá pra conhecer a cidade. Andamos para colher informações e chegamos na Pousada Tremembé, onde conhecemos o Seu Cacau, dono da pousada, que rapidamente conseguiu um barqueiro para nos levar até o dormitório dos guarás, no delta, pela bagatela de R$100. Foi impossível não aceitar.

O delta de Tutóia

Pegamos o barco por volta das 15h, no porto de Tutóia e antes de seguir pro nosso destino final, passamos pela ilha do cajueiro, onde seu Cacau está construindo um novo restaurante.
Porto de Tutóia, no Delta do Parnaíba
Porto de Tutóia

Tutóia no Delta do Parnaíba
Tutóia observada pelo Rio Parnaíba

Ilha do Cajueiro, em Tutóia no Delta do Parnaíba
Ilha do Cajueiro

Após deixarmos os funcionários do seu Cacau de volta à Tutóia seguimos rumo ao dormitório dos guarás. Navegamos cerca de uma hora para chegar lá. Existem outros dormitórios pelo delta (na Ilha do Caju, por exemplo), mas esse é o mais próximo da cidade. Chegamos por volta das 16h30 e logo em seguida chegou outra lancha com mais um casal. Os dois barcos se posicionaram, desligaram os motores e ficamos lá esperando os guarás chegarem. Por volta das 16h45 eles começaram a vir pela nossa esquerda e pousavam nas árvores a nossa frente. Cada vez, chegavam mais aves e as árvores começaram a ficar todas pintadas de  vermelho. Nosso barqueiro achou estranho elas estarem chegando pela esquerda, pois segundo ele, normalmente elas passam em cima do barco para direcionarem-se ao dormitório. De repente, vimos muitas aves levantarem vôo das árvores e nosso barqueiro deduziu que havia alguém lá tentando caçá-las.Triste. Foi uma pena não conseguirmos vê-las mais de perto, mas o espetáculo foi belíssimo, mesmo assim. É emocionante ver aquelas inúmeras revoadas chegando e procurando seu espaço nas árvores.
Na volta, assistimos um belíssimo pôr-do-sol, de dentro do barco, bem dentro do Delta do Parnaíba. Emocionante.
Revoada dos Guarás, em Tutóia, no Delta do Parnaíba
Revoada dos guarás

Pôr do Sol em Tutóia no Delta do Parnaíba

No dia seguinte, partiríamos para Paulino Neves, nosso primeiro contato com os Lençóis Maranhenses.

Mais fotos:

Nativos do Delta do Parnaíba
No delta, pesca o homem e pesca a mulher

Delta do Parnaíba
Dentro do mangue também tem vida

Delta do Parnaíba


Delta do Parnaíba
Igarapé

Nativos pescam no Delta do Parnaíba
pescadores na foz do Parnaíba

Ilha das Canárias no Delta do Parnaíba
Ilha das Canárias

Igarapé no Delta do Parnaíba
Igarapé

Nativo no Delta do Parnaíba
Pescador na Praia da Pedra do Sal


Pôr do Sol na Praia da Pedra do Sal, no Delta do Parnaíba
Pôr do Sol na Praia da Pedra do Sal

Porto das Barcas, no Delta do Parnaíba
Porto das Barcas
Tutóia no Delta do Parnaíba
Guará solitário, em Tutóia

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8 comentários:

  1. Respostas
    1. Olha, laurolrgdo, acho que depende muito do seu roteiro. Se eu fosse repetir essa viagem hoje, teria contratado o passeio de barco atravessando o Delta desde Parnaíba até Tutóia, apesar do preço um pouco mais salgado. Fazendo isso, passaria apenas de passagem por Tutóia, pois na cidade mesmo não tem muita coisa para fazer e o Delta é o único atrativo. Abraços!

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  2. Oi Ana,
    Estou acompanhando seu blog. Pretendo fazer a rota das emoções de Jeri para Lençóis. Gostaria de saber se vale mais a pena pernoitar 2 noites em Parnaíba, para fazer o passeio do delta e retornar, e daí no dia seguinte seguir para Barreirinha, ou se seria melhor fazer o passeio do delta até Tutóia, pernoitar lá e seguir para Barreirinhas.
    Obrigada!

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    1. Gabriella, sem dúvida que fazer a travessia do delta é a melhor opção pela diversidade do delta e pela possibilidade de ver a revoada dos guarás e a Ilha do Caju. O único problema é que o preço da travessia é bem mais caro, mas eu me arrependo de não ter feito. Tente montar um grupo de 4 pessoas e negociar com um barqueiro, pois vale a pena a experiência! (eu acabei indo de ônibus para Tutóia numa viagem trash e vi a revoada de guarás, mas me arrependo).
      Abraços

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  3. Onde encontro pessoas que farão a rota das emoções em julho?? gostaria de dividir despesas

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    1. Olá, Cíntia! Minha sugestão é a seguinte: entre no fórum do Mochileiros (www.mochileiros.com) e abra um tópico lá perguntando isso. Como é um fórum que reúne milhares de viajantes é mais fácil de encontrar alguém que esteja indo na mesma data que você e que tenha interesse em compartilhar gastos. Abraços!

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    2. Bom dia Cíntia!

      Estarei fazendo o trecho de São Luis a Jeri em julho, pelo meu planejamento irei sair de São Luis no dia 15/7 e minha idéia é chegar em Jeri no dia 20/7.
      vou estar saindo de São Paulo dia 9/7, e vou de carro 4x4.
      estou lendo e estudando os trechos para tirar o máximo de proveito.

      Abraços!

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  4. ola!Muito bom o blog.
    Entao Nao estou conseguindo ninguem para meiar de tutoia a parnaiba pelo delta.
    Vi que tem passeio saindo de tutoia(delta:ilha de caju)
    e saindo por parnaiba(ilha canarias e poldros).
    Qual acha que é mais legal e vale mais a pena?

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