domingo, 4 de maio de 2014

Boca de Yumurí, um Cânion em Cuba

Boca de Yumurí, um cânion em Cuba.

Baracoa é conhecida por ser a região mais natural de Cuba. Aqui a mata tropical prevalece com seus muitos rios, fauna e flora, que deixa uma beleza deslumbrante para onde se olha. O nosso imaginário de um paraíso tropical, sem dúvida, se faz realidade aqui. Não é à toa que a região apresenta a maior bacia hidrográfica do país e num rápido passeio de carro pela região é possível passar por inúmeros rios: Toa, Duaba, Miel, etc. O mais famoso deles, o Yumurí fica distante 30km de Baracoa e percorre 54km desde sua nascente nas montanhas até chegar numa linda região de cânions, por onde abre caminho até desembocar esplendorosamente no mar. Foi esse lugar cheio de encantos que fomos conhecer no nosso segundo dia em Baracoa, além de passar por alguns outros lugares menos badalados, como a Playa Manglito que nos encantou enormemente.
Segue o relato desse dia, que complementa o que já escrevi no post anterior sobre a cidade.

Baracoa: a Boca de Yumurí


Pontualmente, nosso motorista e futuro amigo Otávio nos pegou em casa para começarmos o dia. Em sua estilosa caminhonete Ford azul metálica da década de 50, seguimos para nosso destino.
No caminho, percorremos vários vilarejos e muitas pessoas iam pedindo carona, cena que já estávamos acostumados na ilha. Passamos por uma vila bem rente ao mar e Otávio nos contou que aquele lugar havia sido completamente destruído num tornado em 2008 e que o governo reconstruiu todas as casas depois da catástrofe.

No caminho, paramos numa pequena propriedade produtora de cacau, um dos principais produtos agrícolas de Baracoa (junto com o coco e banana). Uma senhora com fácies de cansaço nos falou um pouco do processo de extração do cacau para produção de chocolate e compramos uma barra 100% cacau (sem açúcar, nem leite) para experimentar depois. Um passeio interessante, mas nada que nunca tenhamos visto no Brasil.

Plantação de cacau no caminho para a Boca de Yumurí, em Cuba.
Plantação de cacau, um dos principais produtos agrícolas da região

O chocolate de Baracoa é bem famoso e, no centro da cidade, vários cafés e lojinhas vendem o produto. Uma tradicional fábrica, inaugurada por Che Guevara em 1963 (quando era Ministro da Indústria) e ainda hoje em funcionamento é um dos orgulhos do lugar. Passaríamos por ela, no dia seguinte, no caminho para a Playa Maguana.

Caminho para a Boca de Yumurí, um cânion em Cuba.
Junto com o cacau e a banana, o coco é um dos principais produtos agrícolas de Baracoa.
No exemplar da foto, o raro coqueiro de duas "cabeças"

Nosso roteiro pela produção agrícola terminava ali e seguimos para nosso ponto principal do dia: o Rio Yumurí. Logo chegamos e fomos imediatamente surpreendidos pelo impacto da paisagem. A água de um verde-musgo impressionante, cercada por paredões imensos de pedras vermelhas e marrons coberto por vegetação tropical. Na beira do rio, barquinhos coloridos esperando turistas e nativos para a travessia.

Boca de Yumurí, um cânion em Cuba.
A chegada à Yumurí

O próprio Otávio fez a negociação com o barqueiro e nos acompanhou, junto com alguns nativos, rio acima para uma região em que o rio tem trechos mais rasos, por onde é possível caminhar e nadar tranquilamente, numa espécie de praia no meio do rio.

Boca de Yumurí, um cânion em Cuba.
Porto de Yumurí

Boca de Yumurí, um cânion em Cuba.
Atravessando o Rio Yumurí com seus paredões de pedra, ao fundo

A viagem é bem tranquila e até o Thiago deu uma de barqueiro e remou (para desespero dos nativos, que achavam que ele ia virar o barco). Mas, entre mortos e feridos, salvaram-se todos e em pouco mais de cinco minutos havíamos chegado.

 Dali partimos numa agradável caminhada pelo solo de pedras que na maré alta fica coberto pelo rio, mas na baré baixa, podemos caminhar tranquilamente por uma paisagem deslumbrante, composta pela solo pedregoso, os fabulosos cânions e o próprio rio, que vai serpenteando pelas partes mais fundas do terreno. Deslumbrante.

Boca de Yumurí, um cânion em Cuba.
Início da caminhada

Os cânions da região se estendem por quatro quilômetros ao longo do rio e chegam a alcançar, em suas partes mais altas, 220m de altura a partir do nível do mar. Ali há uma comunidade nativa, descendente de índios taínos que vivem basicamente da pesca (e, mais recentemente, do turismo). A origem do nome do rio se deve justamente à esse povo. Conta a lenda que ao serem perseguidos pelos espanhóis, os bravos aborígenes preferiam se jogar do alto dos cânions, gritando "yo moríííííí" durante a queda. A pergunta que fica no ar é se esses índios já falavam espanhol, nessa época. Mas isso é uma outra história...

Boca de Yumurí, um cânion em Cuba.
"Lava roupa todo dia
Que agonia..."

Seguimos nosso caminhada rumo acima, passando por nativos que lavavam suas roupas nas águas do rio. Encontramos um grupo de turistas e logo fugimos deles, como sempre fazemos. Mas a verdade é que o Yumurí, assim como Baracoa de forma geral, não é muito visitado e passamos por poucos turistas. Pudemos aproveitar o dia ali tranquilos e sem grandes incômodos. O Otávio, nesse sentido, nos ajudou muito, porque nos protegeu do assédio do povo que costuma pedir dinheiro por ali. O ruim é que tivemos um contato superficial com a população local, que sempre é algo que nos agrada fazer.
Mas verdadeiramente passamos por paisagens deslumbrantes e a vontade era de andar eternamente.

Boca de Yumurí, um cânion em Cuba.
Caminhando pelo rio

Boca de Yumurí, um cânion em Cuba.
Lindas rochas avermelhadas que compõe o cânion

Logo chegamos uma parte que a praia acaba e precisamos entrar no rio para seguir a caminhada. Nada muito complicado pra quem atravessou as lagos dos Lençóis Maranhenses. E seguimos adiante.

Nativa na Boca de Yumurí, um cânion em Cuba.
Rio populoso

Logo chegamos numa área que nos parecia ideal para tomar banho. Era praticamente um lago de águas cristalinas com uma rocha no meio do rio, que formava uma espécie de ilha. Nas margens, uma sombrinha faceira oferecida pelas inúmeras árvores do lugar. Escolhemos ali pra montar acampamento e passamos quase todo o dia lá, curtindo aquele visual incrível e a água deliciosa do rio.

Boca de Yumurí, um cânion em Cuba.
Nossa ilha particular no Yumurí

Boca de Yumurí, um cânion em Cuba.
Merecido mergulho depois da caminhada

O Thiago, como sempre, havia levado sua máscara de mergulho e foi a diversão do Otávio e dele verem o movimento sub-aquático, mas não haviam muitos peixes por ali. O mais engraçado foi o Otávio dando aula de natação pro Thiago, que insistia em dizer que não sabia nadar (apesar de sabê-lo). O cubano, cheio de técnica, nadava ao lado do Thiago que se debatia na água. Eu, de fora, ri demais com aquilo. 
Ali ficamos a tarde quase toda e conseguimos observar a rica fauna e flora da região. Cheguei a ver o tocororo, pássaro típico de Cuba e que empresta suas cores para a bandeira do país.
Logo chegou um casal de gringos acompanhados por um nativo, que queria se mostrar e subiu rapidamente num coqueiro e catou um coco. O bom foi que ganhamos um pedaço pra matar a fome que começava a apertar.

Boca de Yumurí, um cânion em Cuba.

De repente, o tempo começou a virar. De repente mesmo. Quando chegamos, o céu estava azul e sem nenhuma nuvem e de uma hora pra outra, começou a ventar e o tempo fechou. Eu me preocupei, achando que choveria, mas o Otávio logo me acalmou: Baracoa é mesmo assim. O tempo muda toda hora e se chovesse seria rápido. E foi mesmo assim durante nossa estadia na cidade: chuva e Sol lado a lado todo o tempo.
Mas com o vento, começamos a sentir frio e decidimos fazer o caminho de volta. A paisagem não parava de me encantar e, dessa vez, tivemos a sorte de encontrar um grupo pescando, o que me deixou ainda mais apaixonada pelo lugar. Ver aquela pulsação num lugar tão ermo e belo me fez ter a noção do que é ser um cubano.

Boca de Yumurí, um cânion em Cuba.
Hora de trabalho

Chegamos no local onde havíamos desembarcado mais cedo, mas ali não havia nenhum barco. Tínhamos combinado um horário de retorno, mas ficamos bem mais tempo que o combinado e tivemos que esperar pra conseguir voltar. O Otávio começou a gritar o nome do barqueiro e com a ajuda do eco produzido pelos cânions, ele logo nos ouviu e veio nos buscar.

Boca de Yumurí, um cânion em Cuba.
Esperando o resgate

Boca de Yumurí, um cânion em Cuba.
Hora de voltar

O retorno foi um pouco mais tenso, por causa do vento que soprava na direção contrária ao nosso destino, mas chegamos bem até o nosso porto. Aproveitei pra caminhar até onde exatamente o rio encontra o mar, a Boca de Yumurí, que afinal é o nome do lugar. Ali, algumas crianças brincavam de soltar pipa e foi encantador vê-las. Pertinho delas, suas roupinhas secavam estendidas nas pedras do rio.

Boca de Yumurí, um cânion em Cuba.
Crianças brincam às margens do Yumurí

Boca de Yumurí, um cânion em Cuba.
Boca de Yumurí

Antes de ir embora, mas uma emoção: o carro do Otávio atolou nas pedras e foi necessário recrutar vários homens pra desatolar o bichano. Carro livre, seguimos viagem.

Carro atolado na Boca de Yumurí, um cânion em Cuba.
Carro atolado no Yumurí

Playa Manglito


Nossa próxima parada foi uma das mais inesperadas e inesquecíveis de toda a viagem por Cuba: a Playa Manglito. A praia, em si, não é lá nenhuma maravilha, ainda mais pra quem tinha conhecido a Península Ancón poucos dias antes. Mas o charme de Manglito está justamente na simplicidade, num clima descontraído e sem grandes pretensões turísticas e com o que nós gostamos mais, que é o contato com os nativos.

Playa Manglito, próximo à Baracoa, em Cuba.
A simplicidade de Manglito

Playa Manglito, próximo à Baracoa, em Cuba.
Playa Manglito

Foi aqui nesse lugar mágico, que vivemos uma das melhores experiências da viagem. O Otávio nos levou até uma barraca simples, em frente ao mar, onde haviam apenas nativos. Assim que chegamos, vi um violão em cima de uma mesa e comentei com o Thiago, já que ele vinha reclamando constantemente que deveria ter levado o seu violão na bagagem. Falei que ali ele poderia tocar, mas não esperava o que aconteceria em seguida. Ao me verem apontar pro instrumento, várias pessoas surgiram com outros instrumentos (maracas, outros violões, tambores, etc) e começaram a tocar. Imagino que a ideia inicial deles era ganhar um trocado conosco, claro, mas qual não foi a surpresa de todos, quando o Thiago pegou um dos violões e começou a tocar junto com eles, de improviso. todos se animaram e ficamos o resto da tarde tocando e dançando com eles. Foi emocionante ver o Thi cheio de intimidade com os ritmos cubanos, ainda mais que estávamos no lugar que deu origem ao son, principal ritmo caribenho. Um dos violeiros até deu uma aulinha pra ele ali na hora e a música fluiu muito bem. Aos poucos, foi juntando gente e ficamos famosos na pequena vila.
Filmei quase todas as músicas que eles tocaram e ainda pretendo fazer um post sobre os ritmos cubanos, mas por enquanto deixo aqui apenas dois vídeos: da primeira música que eles tocaram e da música que mais gostei de ter ouvido.




O que me impressionou naqueles rapazes é que não eram músicos profissionais. Muitos trabalhavam ali mesmo na barraca, como cozinheiro, ou garçon. Moravam por ali e com sua simplicidade levavam a vida tranquilamente. Como disse o Otávio, eles apenas querem um trago de rum e nada mais.
Os instrumentos eram muito simples e um dos violões tinha cordas de arame tortas. Fiquei impressionada de ver como o violeiro conseguia tirar algum som daquilo.

Nativo de Cuba, tocando na Playa Manglito, próximo à Baracoa
Son com cordas de arame

Uma das cenas mais lindas do dia aconteceu ali também. Um casal de estrangeiros passeava com sua filhinha pela região e um dos nativos, um pretinho de no máximo uns quatro aninhos, abordou a família e começou a brincar com a guria. Não sei como ambos se entenderam com a língua, mas em minutos já pulavam, corriam e se divertiam. A brancura da gringuinha com a negritude do cubaninho foi de uma plasticidade única e não resisti de fazer uma foto dos dois. Claro que ali também se evidenciou a realidade de cada criança: a menina com um lindo vestidinho, enquanto o guri estava com uma cuequinha velha e surrada.

Crianças brincando na Playa Manglito, próximo de Baracoa, em Cuba.
Quem é o cubano e quem é estrangeiro? 

Foi maravilhoso passar a tarde ali e, sem dúvida, guardarei comigo a lembrança daquele povo amigo e caloroso, que nos recebeu de forma tão gentil e honesta.
Voltamos emocionados e felizes, já super amigos do Otávio e agradecidos a ele por ter nos levado naqueles lugares. Aproveito pra compartilhar a foto no nosso motorista e parceiro, na sua super máquina.

Otávio, nativo de Baracoa, em Cuba.
Otávio e seu possante

Voltamos pra Baracoa e, dessa vez, o Otávio deu carona pras pessoas que pediam, como sempre ocorre nas estradas do país. Achei bacana a atitude, mas me incomodou um pouco, quando vi que ele estava cobrando das pessoas, afinal a viagem já estava paga (por nós). Acabei não tendo coragem de reclamar, mas confesso que ficou engasgado e esse foi meu único incômodo o dia inteiro. De qualquer maneira, não dá pra criticar uma cultura diferente, ainda mais com tantas dificuldades, quanto passam os cubanos.

Depois de tantas aventuras, o dia ainda não tinha acabado e muita coisa ainda nos esperava na noite baraconesa. O bom é que isso eu já contei no post anterior.


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