sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Turismo Comunitário na Amazônia: Reserva Mamirauá



Turismo de Base Comunitária na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá

Existem várias maneiras de se conhecer a Amazônia. Até porque existem várias Amazônias. E cada parte desse ecossistema tem sua peculiaridade, o que me faz pensar que é quase impossível conhecer completamente a região (talvez, um dos poucos que alcançou essa proeza tenha sido Marechal Rondon em suas inúmeras expedições pela selva, levando telégrafos e mantendo boas relações com as tribos indígenas). Com tamanha diversidade, torna-se uma tarefa hercúlea decidir de onde partir para um mergulho na maior floresta tropical do mundo. Pará? Amazonas? Acre? E mesmo nesses estados teríamos inúmeras cidades, rios e caminhos a percorrer. Uma decisão deliciosamente difícil de se tomar: por onde começar?
Para mim, essa pergunta foi respondida, quando comecei a ler, já há algum tempo atrás, sobre a Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, localizada no meio da selva e com um projeto de turismo de base comunitária, o qual sempre fomos grandes entusiastas. Desde que descobri aquele lugar, eu sabia que algum dia o conheceria. Só não sabia quando.
A oportunidade surgiu no final de agosto, na ocasião de um congresso que eu participaria em Manaus. Aproveitei a chance de que já iria pro Amazonas pra dar um pulinho em Mamirauá (como se não houvesse uma distância de quase 600km entre a reserva e a capital do estado). Ficamos três dias na região e, apesar do pouco tempo, vivemos dias intensos e emocionantes, que relato no próximo post. Aqui, me aterei a falar um pouco sobre a proposta da reserva e sua história, assim como algumas de suas características fundamentais.

Nativos da Amazônia, durante experiência de Turismo de Base Comunitária na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá
Canoas são o meio de transporte mais comum na várzea

Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá

Esse santuário ecológico localiza-se entre os Rios Solimões, Japurá e Auati-Paraná, ocupando uma área de 1.124.000 hectares de terra (equivalente a sete vezes o tamanho da cidade de São Paulo), mas ocupando apenas 0,3% da Amazônia. Mamirauá foi a primeira Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Brasil, caracterizando-se por uma área de proteção ambiental num espaço onde há ocupação humana . Isso é o contrário do que acontece nos Parques Nacionais (como as Cataratas do Iguaçu, por exemplo), onde há proibição da ocupação humana na área protegida.
Conhecemos as dificuldades que essa proibição gera para as comunidades locais, como no caso da Baixa Grande, ou da Queimada dos Britos, nos Lençóis Maranhenses, em que a população tem sérias restrições para conseguir viver por lá e não é permitido a presença de novos moradores, dificultando a permanência das novas gerações, quando começam a estudar, ou namorar. O que ocorre é uma  tendência dessas comunidades irem se extinguindo aos poucos, perdendo sua história e suas raízes. Apesar disso, eles continuam lutando e resistindo contra essa legislação abusiva de suas vidas, tentando manter-se firme em suas terras, onde vivem há gerações. Nenhuma dessas pessoas foi solicitada a opinar sobre seu próprio futuro, quando decidiu-se proteger a natureza às custas da perda de seus direitos.

Turismo de Base Comunitária na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá
Mamirauá


Em Mamirauá, a história foi outra e, desde o princípio, José Márcio Ayres (biólogo e idealizador da reserva), pensou em como manter a vida dos ribeirinhos com dignidade e, principalmente, dando autonomia para que eles decidissem sobre suas próprias vidas. O que antes seria apenas uma Estação Ecológica para proteger o macaco uacari-branco (que só existe na área de várzea e em nenhum outro lugar do mundo), tornou-se um projeto pioneiro e inovador de comunhão sustentável entre a natureza e a vida humana. Atualmente, existem inúmeros projetos de pesquisa encabeçados pelo Instituto Mamirauá (fomentados pelo Ministério da Ciência,Tecnologia e Inovação), que atua na Reserva Mamirauá e Amanã, além do turismo de base comunitária, que foi onde nos encaixamos para conhecer a reserva.

Comunidades ribeirinhas da Reserva Mamirauá
Uma das comunidades ribeirinhas da reserva


Turismo Comunitário em Mamirauá


Em Mamirauá, moram cerca de onze mil pessoas, divididas em comunidades. Cada comunidade tem sua área de abrangência, sua organização própria e suas assembleias. Os caboclos da região vivem basicamente da pesca e da agricultura de subsistência e, desde 1998 com a criação da Pousada Uacari (por enquanto, único local de recepção de turistas em toda a reserva), o turismo passou a fazer parte da economia local. Os trabalhadores da pousada são todos ribeirinhos, ou familiares de ribeirinhos e há uma associação de guias locais, chamada AAGEMAM, que organiza a atividade. O plano é que em breve toda a gestão da pousada seja realizada pelas comunidades e não pelo Instituto Mamirauá, como é feito atualmente. Torcemos para que esse dia chegue logo e que os comunitários façam bom uso de seus recursos.

Turismo de Base Comunitária na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá
Pousada Uacari


A Várzea Amazônica em Mamirauá

Mamirauá também apresenta característica ecológicas muito particulares, já que se encontra na área de várzea (alagável), que ocupa todo o território da reserva, mas apenas 3% de todo território amazônico. Durante seis meses do ano,a região fica completamente embaixo d'água, período que é chamado de cheia e acontece no inverno amazônico (entre novembro e maio), quando chove muito e várias vezes ao dia. Já na seca, as chuvas são ocasionais e o nível do rio desce até seus patamares mais baixos. A diferença no nível do rio entre esses dois períodos pode chegar a até doze metros e é incrível caminhar pela mata, durante a seca, e ver as árvores marcadas pela água que chegou até lá em cima.
Todos que vivem nessas condições precisam se adaptar a essas mudanças sazonais no clima e é, por isso, que a reserva apresenta tantas espécies próprias daqui, chamadas endêmicas, como o Uacari, que já citei anteriormente. Mesmo a atividade humana é influenciada e a vida dos ribeirinhos muda completamente, ao longo do ano. No post anterior, comentei sobre as suas casas (palafitas, ou flutuantes) que se adaptam às variações do rio e sobre a agricultura, que só pode ser desenvolvida nos meses de seca, quando plantam mandioca, feijão e outros mantimentos, que guardam para a cheia.

Turismo de Base Comunitária na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá
No tronco da árvore, conseguimos observar a parte mais escura,
marca deixada pela água, durante a última cheia
(essa foto foi tirada no início da seca, ou seja, a água vai baixar mais ainda)

Em Mamirauá, conhecemos uma Amazônia visceral, preservada, selvagem. Conhecemos também pessoas admiráveis e encantadoras, que conseguem manter suas raízes caboclas e orgulham-se disso. Guerreiros que vivem em harmonia com a natureza, tentando aprender a tirar dela o que precisam para sobreviver, sem destruí-la. Conhecemos, assim, a Amazônia dos meus sonhos e arrisco mesmo a dizer, que conhecemos um mundo bem parecido com o meu ideal, com todos os problemas embutidos nisso.

No próximo post, me empenharei na deliciosa tarefa de relatar nossos três mágicos e inesquecíveis dias na reserva.

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