sábado, 11 de outubro de 2014

Navegando pelo Rio Solimões, entre Tefé e Manaus

"Rema faz o remo leve
sente o remo da nascente
silêncio absoluto no rio
viajar ao universo
na estrada pelas águas
há uma nave do interior...'"
Viagem em barco comunitário pelo Rio Solimões, entre Tefé e Manaus.

Um das experiências mais autênticas que se pode ter na Amazônia é navegar pelos seus rios. Não só pelas belezas que vamos encontrando no caminho, mas também e, principalmente, porque são eles, os rios, as verdadeiras estradas amazônicas. Há muitas cidades (me arrisco mesmo a dizer que a maioria) na região, cujo único acesso é fluvial. Em algumas outras, como Manaus e Tefé existem aeroportos, mas com os preços das passagens ainda muito caros, a população amazonense tem nas longas viagens em barcos de recreio seu principal meio de transporte entre cidades. Os mais abastados viajam de lancha rápida, que diminui em algumas horas a viagem, mas encarece sobremaneira a empreitada.
Quando descobri que havia uma linha fluvial entre Tefé (cidade onde se encerrou nossa estadia na Reserva Mamirauá) e Manaus, eu logo me interessei. Seriam cerca de 40 horas de viagem, dormindo em rede junto com os outros passageiros, sem muito conforto, nem privacidade. Pra "piorar", eu estaria sozinha, já que o Thiago teria que voltar logo pra São Paulo e faria o trecho entre Tefé e Manaus de avião. Pesquisei na internet, li relatos de viajantes que embarcaram nessa aventura e tirei todas as dúvidas (aliás, agradeço carinhosamente à Ana e o Rodrigo do blog 1000 dias que me ajudaram incansavelmente, respondendo com incrível gentileza às minhas tantas perguntas). Já com todas as precauções na manga, tomei a decisão de ir e não me arrependi. Vivi momentos intensos e inesquecíveis e conheci pessoas formidáveis, que me fizeram apaixonar ainda mais pelo povo amazonense. Passei também alguns perrengues complicados, principalmente na primeira noite. E somando tudo isso, o resultado foi transformador pra mim. O exercício de adaptação, de relativização dos problemas, de abdicação do luxo e do conforto e, principalmente, o convívio com as diferenças, tudo isso me modificou definitivamente e posso mesmo dizer que não sou a mesma pessoa de antes de embarcar nessa aventura.

Conhecendo Tefé e, finalmente, embarcando rumo à Manaus

Chegamos em Tefé no começo da tarde e eu teria bastante tempo até o início da viagem de barco, que só começaria no final do dia.

Mas antes do embarque, ainda na companhia do Thiago, fomos conhecer um pouco de Tefé. Confesso que após a tranquilidade de Mamirauá foi bem difícil me adaptar ao barulho das centenas de motos que passavam desvairadas pelas apertadas ruas da cidade, sem nenhuma educação no trânsito. Fomos, então, conhecer o Mercado Municipal, numa balbúrdia sem fim, com direito até a sermão de um pastor numa caixa de som altíssima. Pessoas dormiam embaixo das bancas dee frutas e foi difícil entender o modus operandi do lugar. Fomos caminhando pelos corredores apertados e, aos poucos, conseguíamos perceber os pequenos detalhes que aqueles caos guardava: latões de açaí, cachos de banana, peixes e mais peixes aguardando comprador. Uma lógica diferente da nossa regia o lugar e o tornava único.

Frutas em exposições no mercado de Tefé.
Açaí, guardiã...

Frutas em exposição no mercado de Tefé.
Yes, nós temos bananas...

Chegamos numa sacada e ali haviam pessoas almoçando peixes com cheiros deliciosos, mas de aspecto duvidoso. Vi até um Tatu sendo escaldado ali mesmo para a refeição (fiz uma foto, mas o aspecto do bicho não era palatável aos olhos e preferi não postá-la aqui). 
O mais emblemático era a vista da sacada, que dava de frente pro rio com dezenas de canoas e barquinhos parados, descarregando suas mercadorias, que viriam direto pras bancas do mercado.

Mercado Municipal de Tefé, no Rio Solimões.
Intensa movimentação em frente ao Mercado deTefé

Depois da visita inebriante ao mercado, cheia de cheiros e cores, fomos almoçar com o Sarney da Pousada Uacari e depois era hora de me despedir do Thiago. Foi a primeira vez, desde que nos conhecemos, que eu ficaria sem ele numa viagem, o que me trouxe um aperto no peito difícil de descrever. Ele, preocupado por eu ter optado pela viagem de barco sozinha, não se cansava de me fazer recomendações e pedia que eu me mantivesse em contato sempre que possível (mas a verdade é que fiquei sem sinal de celular quase toda a viagem, exceto nas paradas em cidades maiores). Ele ficou no aeroporto e eu segui para o escritório da pousada, onde fiquei até a hora do meu embarque. O Sarney gentilmente se propôs para me ajudar na compra da rede e das cordas para amarrá-la, que me serviria de cama nos próximos dias e, tarefa concluída, segui para o porto da cidade, iniciando uma das experiências mais intensas da minha vida.

Viagem em barco comunitário pelo Rio Solimões, entre Tefé e Manaus.
Embarcando...

Cheguei no porto por volta das 15h30 para conseguir comprar passagem pro barco que eu queria, pois tinham duas embarcações disponíveis, mas eu havia recebido a recomendação de ir no Severino Ferreira, que todos me diziam ter a melhor comida e limpeza. A chegada antecipada também foi boa para escolher um lugar bom, dentre as tantas redes que se instalariam ao meu redor. Havia também recebido uma recomendação quanto à isso: a de que eu me instalasse no segundo andar do navio, pois o primeiro era área de carga e o terceiro era área do bar, ambos supostamente mais barulhentos.
Assim que entrei no barco, tratei de procurar um lugar que me aprouvesse e teria escolhido com perfeição, se ao longo da tarde, não houvessem entrado mais centenas de pessoas, amarrando redes pra todos os lados.

Viagem em barco comunitário, dormindo em redes, pelo Rio Solimões, entre Tefé e Manaus.
Mar de redes

Fiz amizade com o comandante do barco, um senhor simpático e gentil, que tratava todos os passageiros com um carinho admirável. Ele me contou de sua vida, enquanto anotava os dados do pessoal que embarcava e com essa prosa boa, o tempo passou rápido.
Logo começava a entardecer e o céu amazônico já se pintava em tons de rosa e amarelo.

Viagem pelo Rio Solimões, entre Tefé e Manaus.
Fim de tarde no Porto de Tefé

O navio partiu exatamente com o pôr do Sol e os primeiros momentos de viagem já serviram pra me tirar o fôlego.

Primeiro dia de viagem de barco comunitário pelo Rio Solimões.
Pôr do Sol no Rio Solimões

Aos poucos, a noite ia caindo e logo o barco estava completamente no escuro. As únicas luzes eram da própria embarcação e não víamos sequer uma luz em volta. Estávamos, verdadeiramente, no meio da Amazônia.

Primeira noite de viagem pelo Rio Solimões, entre Tefé e Manaus.
And the day is done...

Logo o comandante convocou a todos para o jantar, que seria servido em instantes e uma fila quilométrica se formou em frente à cozinha. Eu, que já havia sido orientada pelas tantas informações que busquei antes do embarque, sabia que o melhor era esperar o fim da fila para comer tranquila. Decidi, então, tomar banho, algo essencial na Amazônia, pelo menos duas vezes ao dia, já que a camada de suor que se forma na pele habita seu corpo e só sai com água. Arrumei meus pertences e segui pro banheiro. A primeira impressão foi das piores: era um cubículo sem ventilação e extremamente abafado. O vaso sanitário não tinha descarga e, pra piorar, o chuveiro ficava quase em cima dele, o que significava que pra tomar banho eu precisava fazer um malabarismo tosco pra não me sujar no vaso. Fui me acostumando e no fim já estava acostumada e nem achava mais tão ruim aquilo. Nossos padrões de exigência e até de higiene vão se adaptando às condições e isso é algo que me surpreende sempre e, por isso, gosto de testar meus limites e ampliá-los.

Viagem em barco comunitário, dormindo em redes, pelo Rio Solimões, entre Tefé e Manaus.

De banho tomado e vestida comportadamente com uma calça (descobri rapidamente que andar de shorts seria dar margens pra ouvir algumas piadinhas indelicadas, principalmente de passageiros mais velhos), fui conhecer o 3o andar do navio e me enturmei imediatamente. O bar tinha até TV e uma galera já se amontoava ali pra ver a novela. Esse era o lugar mais agradável pra se ficar à noite, pois ficava à céu aberto e, por isso, circulava uma brisa agradável. Acabei ficando por ali e pedi um lanche, que era bem gostosinho e dei-me por satisfeita quanto à alimentação naquela noite. Não fiz questão de jantar. Logo engatei uma conversa animada com uma senhora católica fervorosa, que também viajava sozinha. Ela era divertidíssima e contava histórias religiosas de um jeito cômico e até picante. Rimos muito e ela até esqueceu da novela e me culpou por isso, já que não perdia nenhum capítulo.

Foi um começo de viagem bem agradável, mas eu havia acordado muito cedo naquele dia, quando ainda estava em Mamirauá e o cansaço me fez ir pra cama (lê-se rede) cedo. Eu tinha me preparado com tampões de ouvido e tapa-olho para possíveis dificuldades durante a noite, mas nenhuma das minhas ferramentas foi suficiente pra me ajudar a dormir, no contexto que se seguiria.

Vou me permitir detalhar todas as dificuldades que enfrentei naquela noite, porque foi algo que me marcou e que me levou ao limite físico (pelo cansaço acumulado) e mental (pelo desgaste de tentar dormir e não conseguir).

Ao deitar em minha rede, já comecei a enfrentar a primeira dificuldade: um grupo de amigos de cerca de dez pessoas viajavam juntas e estavam exatamente do meu lado. E, como todo grupo de amigos que se preze, estavam animados e felizes, conversando alto, rindo e brincando entre si. Eu observava o resto do salão e todos já estavam deitados, mas meus vizinhos não cansavam. Eu ainda não os conhecia direito e fiquei com medo de reclamar e eles ficarem bravos comigo, o que poderia me gerar problemas futuros (eu só pensava na minha mochila que estava embaixo da rede e que eu tinha medo de que alguém mexesse). No dia seguinte, fiz amizade com eles e vi que a turma era muito bacana, o que facilitou bastante minha segunda noite, mas nessa primeira eles não deram trégua na bagunça.

Quando a turma estava se preparando pra dormir, o segundo perrengue começou: ninguém havia me contado isso, mas o barco fazia várias paradas em casas flutuantes, localizadas no meio do rio, onde um verdadeiro reboliço acontecia, ao longo da madrugada: sacos enormes de farinha eram embarcados com destino à Manaus e a cada saco que eles jogavam pra dentro do barco era um estrondo de acordar defunto. Cada parada durava cerca de trinta minutos, intervalo que eu tentava dormir, mas logo era acordada com novo estrondo vindo de novos sacos de mandioca, em nova parada para embarque. Comecei a tentar me informar com as pessoas sobre quantas paradas seriam no total e ninguém sabia me informar. Algumas diziam duas, outras diziam cinco e o total foi mesmo de quatro paradas, ao longo de toda a noite.

Casas flutuantes ao longo do rio, entre Tefé e Manaus.
Casa flutuante no meio do rio, que são depósitos de farinha de mandioca a ser embarcada nos navios que passam na região
(foto tirada na manhã seguinte às inúmeras paradas do barco em várias dessas casas)

Só consegui retomar o sono, depois de todos os sacos de mandioca carregados, mas minha tranquilidade durou pouco tempo. Logo, meu vizinho de rede (um dos mais animados do grupo e que, inclusive, havia ajudado a embarcar a mandioca) veio dormir e daí novo perrengue recaiu sobre mim. Esprimida entre dois homens espaçosos e que pareciam confortáveis, eu não conseguia me mexer e quando o fazia, gerava uma onda de movimento em todas as redes próximas de mim, tal o nível de proximidade de todos. E o oposto era verdadeiro: se alguém se mexia em sua rede, todos mexiam juntos.

Em meu desespero, cheguei em pensar de alugar uma das cabines reservadas, que eram bem mais caras, mas que me daria um pouco mais de conforto. Por outro lado, não tinha nada que eu pudesse fazer até a manhã seguinte. Era relaxar e me deixar embalar pelo movimento coletivo das redes até o dia clarear.

Segundo dia no embalo do Rio Solimões


Obviamente que acordei antes do Sol, acabada e desmilinguida, mas ao olhar pra fora do barco, me deparei com um nascer do Sol fabuloso e logo meu mau humor passou. Em seguida, o comandante nos chamou pro café da manhã e eu acabei sendo privilegiada, porque sem querer já estava perto da cozinha, fotografando aquela beleza de manhã. Enquanto a fila se formava atrás de mim, consegui usufruir daquela maravilha solar matutina, bem à minha frente e ainda fui uma das primeira a tomar café.

Se a noite tinha sido um inferno, o novo dia começava mais favorável. Ufa...

Nascer do Sol no Rio Solimões.
Mais um dia começa, no Rio Solimões

Atrás de mim, na fila, estavam meus vizinhos de rede e, inicialmente, foi difícil ser simpática com eles, pois confesso que era raiva que eu sentia por eles terem atrapalhado meu sono. Mas, simpáticos como eram, eles logo puxaram assunto e de mansinho foram conquistando minha atenção. Um dos integrantes do grupo, um gurizinho de seus dez anos, logo se agarrou à mim e virou meu fiel escudeiro no barco. Aonde eu ia, Emanuel ia atrás. Uma graça. O grupo ia pra Manaus em missão religiosa, pois faziam parte da seita União do Vegetal, que usa o chá do Santo Daime em suas cerimônias. Ao longo do dia, conversamos bastante sobre as ideias deles e eu aprendi bastante.

Amizades que fiz na viagem de barco comunitário.
Meus vizinhos de rede

Logo depois do café da manhã, aportamos em Coari, cidade de pouco mais de 70 mil habitantes, conhecida por ser local de uma das plataformas de petróleo e gás da Petrobrás, tendo ainda na região um gasoduto que segue até Manaus.

O barco ficaria várias horas parado no porto de Coari, enquanto embarcavam mais mercadorias e passageiros e, nesse ínterim, teríamos tempo livre pra descer do navio e conhecer a cidade. Confesso que cheguei a pensar de ficar e dormir, mas logo me dei conta de que, talvez, eu nunca mais tivesse a oportunidade de conhecer aquele lugar e, então, decidi juntar todas as minhas forças e caminhar pela cidade.

Parada do barco comunitário, na cidade de Coari
Chegando em Coari

Aliás, impossível não falar de Coari sem lembrar uma das mais deliciosas músicas que aprendi, nesse período amazonense. Ela é do Raízes Caboclas e se chama Amazônico:

"Quero pro café, Tucumã
Quero pra almoçar, Tambaqui
Sobremesa vai Jatobá
Rede pra embalar e dormir
Coari."

Deixei meus pertences aos cuidados dos novos amigos do navio e segui pra conhecer Coari. De imediato, já a achei mais simpática do que a caótica Tefé. Como todas as pequenas cidades do interior do Brasil pós-Lula, havia uma balbúrdia de motos nas ruas, mas aqui parece que já há uma preocupação maior com trânsito, ao menos. Logo fui recebida por um protótipo de Cristo Redentor (bem feio, na verdade) com uma simpática praça à frente e com uma espécie de estátua , homenageando a Petrobrás.

Passeio por Coari.
Cristo Redentor

Passeio por Coari.
Praça de Coari

Mas o mais interessante de Coari foi mesmo conhecer seu Mercado Municipal. De todos os que eu fui nesses dias na Amazônia, esse foi disparado o mais autêntico e simpático. Na entrada, ficavam as frutas e verduras, além dos benditos sacos de farinha (vendida à granel), que tinham me feito companhia durante a madrugada.  A parte lateral do mercado era a mais legal, com as bancas de frutas típicas da época. Experimentei várias e a maioria eu nunca tinha visto na vida. Um experiência bem amazônica.

Viagem em barco comunitário, dormindo em redes, pelo Rio Solimões, entre Tefé e Manaus.
Mercado Municipal de Coari

Na parte de trás do mercado era o local da venda dos peixes. Muitas espécies e muitos tamanhos desse animal se amontoavam nas bancas e cada pescador tentava me convencer de que o seu era o mais fresquinho.

Passeio por Coari, às margens do Rio Solimões.
Mercado Municipal de Coari

Caminhei por aquele mundo mágico e me permiti sentir os fortes cheiros com voracidade. Foi intenso e quase entorpecente, ainda mais com o déficit de sono que me acometia já cronicamente. Aproveitei pra conhecer o pequeno porto do mercado, por aonde as mercadorias chegavam. Dezenas de pessoas se acotovelavam no desembarque de pencas de frutas, verduras e peixes e eu fiquei algum tempo ali extasiada vendo a movimentação caótica, mas ao mesmo tempo harmônica dos barquinhos que iam e vinham.

Porto do Mercado de Coari.
Movimentação no porto do mercado

Porto do Mercado de Coari

Antes de voltar ao meu barco, ainda consegui carregar as baterias do celular e da câmera fotográfica, numa farmácia, onde a gentil atendente me cedeu as tomadas. Aproveitei pra dar notícias ao Thiago e à família e voltei, finalmente, à minha casa flutuante pouco antes de voltarmos pra estrada.

Meu único pensamento era de tentar dormir um pouco na tentativa de recuperar as energias perdidas durante a noite. Já com mais intimidade com meus vizinhos, consegui negociar de aumentarmos o espaço entre as redes e isso me ajudou enormemente. Enfim, me refastelei na rede e caí num sono profundo em questão de segundos. Não sei quanto tempo dormi, mas acordei com meu fiel escudeiro, Emanuel, olhando curioso pra mim. Foi eu abrir os olhos e ele perguntou:
- Por que você é tão branca?
Ainda no meu torpor onírico, respondi qualquer coisa sem lógica e me pus a dormir de novo.
Mas meu amigo não desistiu e resolveu que não era hora de pegar no sono. O danado me cutucou até que eu desistisse da ideia de ficar na rede e saímos pra brincar pelo barco.

Foi quando conhecemos um filhotinho de cachorro, que ia junto com sua dona para Manaus. O coitado tinha uma cara assustada, mas Emanuel se apaixonou por ele e lá ficamos brincando com o peludinho até a hora do almoço.

Meu vizinho de rede, no barco comunitário.
Meu fiel escudeiro

Depois do almoço, como de costume na região, foi unânime a soneca vespertina e, finalmente, consegui dormir algumas horinhas benfazejas. E dessa vez com mais espaço entre eu e as outras redes. Que maravilha de tarde com aquele ventinho soprando e balançando levemente minha rede. Agora, sim, eu estava começando a gostar daquela aventura.

No fim da tarde, chegamos à cidade de Codajás e nosso barco parou rapidamente para embarque de passageiros, mas não tivemos tempo de descer dessa vez. Fiquei observando a cidade de longe e me lembrei de mais uma música que aprendi com o Raízes Caboclas:

"As imagens refletidas
Solimões incendiou
Cor cajá de luz acesa
Codajás iluminou..."

Queria aproveitar aquele momento pra contemplar um pouco da imensidão ao meu redor e foi curioso, porque, apesar de estar sem companhia naquela viagem, eu não conseguia estar sozinha em momento nenhum. Toda hora vinha alguém puxar assunto, ou perguntar se eu estava bem, ou se precisava de algo e eu, simplesmente, não conseguia sossego. Acabei fugindo do novos amigos e fui pra proa do barco, onde consegui me conectar com o rio e suas águas. Fiquei por lá até o dia terminar e só depois voltei ao intenso convívio social.

Viagem em barco comunitário, dormindo em redes, pelo Rio Solimões, entre Tefé e Manaus.
Pelas águas calmas do Solimões

Com o cair da noite, segui, como na véspera, para o terceiro andar e lá travei uma longa prosa com uma mocinha de 17 anos, que na verdade já era um mulherão. Um dos rapazes que era meu vizinho de rede se encantara por ela e, ao nos ver juntas, logo tentou se aproximar. Ela inicialmente não deu muita bola e acabei me envolvendo no flerte dos dois, pois ele me pediu que o ajudasse e ela vinha me contar as coisas que ele falava. Acabei virando o cupido do casal e voltei a me sentir na adolescência. Foi muito gostoso ver a inocência dos dois ali e o máximo da conquista foi ela ter dado o número do celular pra ele.
O mais curioso foi conversar com o pai dessa moça (que, aliás, nem imaginava o que estava rolando com sua filha e o meu vizinho). Ele me contava sobre suas namoradas e todas eram da idade da filha, sendo que algumas eram mesmo amigas dela. Ele chegava a disputar as moças com o filho, pouco mais velho que a irmã. Pai e filha agiam  como um casal de namorados e isso me chamou atenção.
Pontualmente, na hora da novela, minha amiga católica apareeu e logo engatamos novamente em mais uma gostosa prosa cheia de risadas e boas trocas.

Mais uma vez, lanchei por ali e ainda com o corpo sentindo falta de uma boa noite de sono, fui dormir cedo, mas dessa vez o ambiente me favorecia e, além de ter mais espaço pra mim, não houve nenhuma parada naquela noite e dormi feito um anjo e só acordei, quando já nos acercávamos de Manaus, na madrugada seguinte.

A chegada em Manaus e as despedidas


O barco chegou na capital do estado ainda no escuro e logo começaram os preparativos para o desembarque na cidade. Redes era desamarradas, malas arrumadas e as despedidas já se iniciavam entre todos. Eu não tinha pressa, pois pretendia sair do barco apenas com o dia claro. Conversei um pouco mais com meus novos amigos, dei uma última caminhada pelo imenso navio e, enfim, segui meu destino.
As despedidas foram delicadas e gentis e toda a turma que me acompanhara naqueles dias fraternos ficou lá do alto do barco me dando adeus até eu sair do cais do porto e seguir para a cidade, onde encontraria outros amigos (esses já de longa data) para iniciarmos mais uma aventura, dessa vez em Presidente Figueiredo.

O navio ficou pra trás, mas as lembranças ficarão pra sempre. Passei momentos marcantes e de grande aprendizado, que não tem como serem esquecidos. Jamais.


Informações Práticas:

Como navegar pelo Rio Solimões, entre Tefé e Manaus?
Existem lanchas rápidas que fazem o percurso em 12 horas com um custo bem mais alto. Penso que se há pressa no deslocamento, o transporte aéreo é o mais recomendado, já que a Azul tem vôos que duram meia hora entre as duas cidades.
Mas se a ideia é sentir a Amazônia e viver uma experiência autenticamente brasileira, os barcos de passeio são a opção mais bacanas.  É uma viagem que dura 36 horas com poucos pontos de parada, então é preciso estar preparado para uma longa convivência com todos. Eu escolhi dormir em rede junto aos nativos, mas é possível alugar cabines privadas, que tem cama, banheiro e ar condicionado, além de mais privacidade, obviamente.
Não são todos os dias que saem barcos e há muitas mudanças de horário, então o mais confiável é se informar no Porto de Manaus, ou de Tefé. Nesse link, é possível obter mais informações.

Como são as refeições no barco?
No preço do barco está incluso as 3 refeições do dia (café da manhã, almoço e janta) e ainda há no barco uma lanchonete que vende salgados, lanches e aperitivos. 

O que levar?
-Quem opta pela rede, precisa levar a sua própria. E duas cordas pequenas para amarrá-las no teto (que são vendidas facilmente nas proximidades dos portos amazônicos). 
- Protetor de ouvido é essencial, assim como protetor de olho para garantir uma noite minimamente decente de sono, principalmente pra quem opta pela rede.
- Importante levar pouca bagagem e nada de valor, já que quem fica em rede não tem guarda-volumes e os pertences ficam embaixo da rede. Em geral, há um sentimento forte de cooperação mútua, mas quanto menos risco, melhor.
- Papel higiênico, toalha e material de limpeza pessoal não serão oferecidos pelo barco, ou se forem não será numa condição ideal (papel higiênico, por exemplo, estava sempre molhado, já que o chuveiro era colado ao vaso sanitário).
- Roupas leves!!!! A Amazônia é quente em qualquer época do ano e, apesar de sempre ter uma brisa deliciosa no barco, ao meio-dia o calor não é brincadeira.



Mais fotos:

Movimentação no Porto de Coari
Porto de Coari

Navio Comandante Severino Ferreira, minha casa no Rio Solimões entre Tefé e Manaus.
Navio Comandante Severino Ferreira, minha casa pelo Rio Solimões

Mercadorias carregadas no primeiro andar do barco comunitário.
O 1o andar do barco

Rio Solimões
Rio Solimões



Mais sobre a Amazônia:


4 comentários:

  1. Este comentário foi removido por um administrador do blog.

    ResponderExcluir
  2. Só complementando, farei também o trajeto Belém x Manaus---Manaus x Parintins---Parintins x Belém....e por fim Belém x Rio de Janeiro(esse de carro)....estarei realizando um antigo sonho.

    ResponderExcluir
  3. Boa Noite, Por ser Militar da Marinha, fiz muito esse trajeto(a trabalho) viário entre Manaus x Tefé(vice-versa), mas ano que vem irei repetir como turista o ler a sua história foi de grande valia para reforçar a minha opinião que o melhor será ir de camarote...li toda a sua história e que me fez voltar a um passado recente, do qual conheci tais lugares. e como uma diferença, e ao contrario da sua opção, eu Amo e prefiro Tefé, ja pela sua forma diferenciada de pitoresco...obg pelos relatos...Miguel Braga

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Miguel, imagino que voltar à essas regiões lhe trará muitas lembranças!
      Eu fiz o trajeto na rede e passei uns perrengues! rs Se quer mais conforto, é melhor mesmo o camarote!
      Adorei o seu roteiro de carro também! Que viagem incrível essa que você fará! Aproveite bastante e depois volta aqui pra me contar como foi!!! Já estou curiosa!!! rs
      Beijos

      Excluir