segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Presidente Figueiredo: a cidade das cachoeiras amazônicas

Cachoeira da Porteira, em Presidente Figueiredo

Como é possível existir cachoeira numa planície, como a Amazônica? Pois é. Existe. Não uma, nem duas, mas quase uma centena delas, numa cidade bem charmosinha, chamada (tenebrosamente) de Presidente Figueiredo. A cidade foi fundada em 1981, quando o Presidente da República era, coincidência ou não, João Figueiredo, último militar que desgovernou nosso país durante a  ditadura. A historiografia oficial da cidade refere que seu nome é em homenagem a um tal primeiro presidente da província do Amazonas, lá pelos idos de 1800. Isso me cheira a lorota e penso que, passado esse período vexatório da nossa história, era hora de se encarar de frente os fatos e pensar num nome novo para a linda cidade. Sugiro, singelamente, um rebatismo para Chico Mendes (bom, ele não era Amazonense, mas merece a homenagem- e, se colocarmos na balança os dois personagens, João Figueiredo sequer era nortista)
Apesar do nome, a cidade vale a visita. Essa região apresenta várias características geológicas particulares e é possível usufruir de formações bem esquisitas e bem lindas, tais como grutas, cavernas e, evidentemente, cachoeiras. Claro que não são grandes quedas d'água, mas são deliciosas e quentinhas. Passei dois dias fantásticos na região, na companhia dos meus velhos parceiros de viagem, Ju e Arthur, que deixaram a aventura ainda mais divertida.

Chegada em Chico Mendes (ou Presidente Figueiredo)


O dia começou ainda de madrugada. Assim que o Sol nasceu, saí do Porto de Manaus após uma viagem inesquecível de barco de quase 40 horas desde Tefé, que relatei no post anterior. Meu objetivo era encontrar Ju e Arthur no hostel que eles estavam hospedados. Aproveitei a manhã de clima mais ameno (como se isso fosse possível em terras amazonenses) pra fazer o trajeto à pé e, mesmo às 6h da manhã, cheguei inteiramente molhada de suor no meu destino, ainda mais que carregava comigo um mochilão com todas as minhas coisas e ainda a rede que me serviu de cama na viagem que acabara de fazer. Mesmo assim, foi uma caminhada agradável pelo centro de Manaus ainda vazio e pelo Largo de São Sebastião, que só tinha a movimentação dos alunos indo pra escola. 

Porto de Manaus
Porto de Manaus

Cheguei no hostel cedo e, com alguma negociação com o dono da pousada, consegui um banho e um café-da-manhã. Logo vieram me fazer companhia um coreano e um suíco e engatamos numa prosa até a hora dos meus amigos acordarem. O tal suíço está fazendo uma viagem de volta ao mundo, estando  já há três anos na estrada e sem data pra terminar. Claro que aproveitei pra perguntar à ele tudo sobre uma viagem desse porte e sobre o que ele já viu e viveu até agora. Que experiência fantástica ele tem vivenciado, dormindo em aldeias indígenas e viajando sem pressa por onde passa. Que inveja ele me fez.

Quando a Ju e o Arthur acordaram, começamos uma verdadeira saga atrás de um carro pra alugar. Saímos caminhando num Sol abrasador+às 9h da manhã, perambulando de loja em loja. Nossa infrutífera peregrinação acabou no retorno a primeira delas (e ironicamente a mais próxima ao hostel), que tinha o melhor preço, mas que não conseguiu nos atender inicialmente, pois estava sem luz. Depois de termos passado por várias lojas, decidimos arriscar e voltar nela e demos sorte que a energia tinha voltado e conseguimos sair de lá motorizados e prontos pra pegar a estrada.

Deixamos Manaus pra trás, após pegarmos um trânsito de concorrer com o paulistano e, finalmente, chegamos à BR-174. Essa estrada liga Manaus à Boa Vista e um parte do seu asfalto fica bloqueado durante à noite, no trecho que corta a Reserva Indígena Waimiri-Atroari. Eu ingenuamente cometi a gafe de achar que ela era a transamazônica, o que foi motivo de piada por parte dos meus intolerantes amigos durante toda a viagem. Triste de mim, que só queria sentir o gostinho de andar na Transamazônica, uma das obras faraônicas do regime militar. Acabei sofrendo bullying por conta disso, mas ainda realizarei meu sonho de conhecer esse monumento da engenharia moderna.  me vingarei das piadas sofridas. 

A estrada é bem bonita, mas a vegetação ao seu redor nos causou estranhamento inicial. O Arthur falava no seu mineirês:
- Mas isso não é Amazônia. Parece Mata Atlântica, sô.
Só depois aprenderíamos que a Amazônia não é um ecossistema uniforme e que tem suas características regionais. Aquela mata era, sim, amazônica e cheia de belezas. Nós é que precisávamos ter olhos de ver. No caminho de volta, já mais familiarizados com a região, conseguimos curtir mais a estrada, que é, sim, lindíssima.

Floresta Amazônica, na chegada à Presidente Figueiredo
Mata ao redor da estrada
(foto feita no retorno à Manaus)

Chegamos em Presidente Figueiredo na hora do almoço e fomos direto pro centro de informações turísticas da cidade. Já sabíamos que com o tempo apertado que tínhamos, não daríamos conta de conhecer todas as atrações, mas pesquisamos quais se encaixavam melhor com nossas expectativas e seguimos nosso caminho, depois de um rápido almoço.

A Cachoeira da Porteira


Partimos, então, para nosso primeiro destino turístico na cidade: a Cachoeira da Porteira. O lugar é relativamente próximo do centro e fica em uma área particular (como quase todas as cachoeiras de Presidente Figueiredo). Uma pequena trilha leva até o estacionamento e em poucos passos já estávamos dentro da água. A cachoeira é bem cênica e tem pedras riscadas, devido à ação milenar do rio sobre elas, deixando-as uniformes e lindas. Um primor de beleza.

Cachoeira da Porteira, em Presidente Figueiredo
Cachoeira da Porteira

Éramos os únicos visitantes e aproveitamos o máximo que conseguimos do lugar. Com o calor típico amazonense, não foi difícil entrar na água, que tem uma temperatura deliciosamente quente para padrões sulistas. Nenhum de nós tinha pressa de ir embora e curtimos demais nossa tarde naquele frescor.
Uma das coisas que mais me chamou a atenção ali foi a cor da água, que tinha um tom amarelado, quase terroso, mas não era barrenta. Pelo contrário, era límpida e transparente e víamos isso, quando pegávamos um pouco na mão. Penso eu que aquela cor deve ser fruto da reflexão das pedras na água. Bem bonito.
O topo da cachoeira é de fácil acesso e tem uma vista gostosa pra piscina que se forma abaixo da queda e também do rio que corre na região. Naquele momento, eu fiquei me questionando se aquele rio seria algum afluente do Amazonas, mas no dia seguinte descobri que não. Na verdade, a maioria das cachoeiras da cidade tem nascente próprias e são rios independentes. Mas eu imagino que, no fim das contas, todos esse pequenos rios devam fluir pro Amazonas.

Rio da Porteira, em Presidente Figueredo
Rio da Porteira poucos metros antes da queda com suas águas em tom amarelo

Cachoeira da Porteira, em Presidente Figueiredo
A queda e a piscina natural da cachoeira

O Sol começava a baixar e era hora de ir embora. Seguimos pro carro, contornando o rio e foi uma delícia caminhar pelas suas margens, passando por paisagens quase oníricas, ainda mais com a luz do fim de tarde. De repente, começamos a ouvir um grunhido alto e estridente. Procuramos o que era e lá estava um tucano lindo num galho, preparando-se para dormir e chamando seus companheiros. Pelo menos, foi assim que eu interpretei o grito do bicho. Foi um lindo fim de tarde, fechando com chave de ouro o nosso dia.


Voltamos pra cidade e ainda precisávamos achar um lugar pra dormir. Por sorte, encontramos uma pousada bem gostosinha, cujo dono, Roberto, era um figuraça e muito gente boa, o que tornou a estadia ainda mais agradável.

Mas a experiência mais engraçada que tivemos em Presidente Figueiredo foi nosso jantar dessa noite. O Roberto nos indicara um restaurante e seguimos para lá. Ou talvez não, porque até hoje não sabemos se era, de fato, aquele o restaurante indicado, ou se erramos de lugar. Mas o fato é que as instalações eram simples, rústicas, humildes e todos os adjetivos que encaixem numa estrutura de poucos recursos. Até aí, tudo bem, já que nenhum de nós exige luxo e até gostamos bastante da simplicidade. A situação hilária mesmo foi quando a Ju foi ao banheiro. A gentil atendente se dispôs a levá-la e o que aconteceu depois, a Ju nos contou um tanto quanto admirada, quando retornou à mesa. Não havia banheiro e, sim, um buraco numa casinha sem porta e sem luz, em que a Ju precisaria agachar para urinar. Ok, acontece, mas o mais bizarro foi que a garçonete permaneceu ali do lado dela, caso ela precisasse de algo. Eu fico imaginando a Ju de cócoras, no escuro, fazendo xixi de mãozinha dada com a moça e não consigo deixar de pensar que essa poderia ser uma cena fácil de ser encontrada, em algum livro do Gabriel García Márquez com seu realismo fantástico. Situação que eu nunca vou esquecer, nem a Ju, provavelmente.
O resto da noite fluiu bem, mesmo com a farofa azeda e o Tambaqui com forte gosto de terra. Mais tarde, vim a descobrir que o Tambaqui pescado fora de cativeiro tem mesmo esse sabor. Que bom que comemos um peixe livre, mas o difícil é se acostumar com o paladar forte que essa liberdade lhe oferece.

Saímos do estabelecimento mais vivos do que nunca, apesar da experiência antropológica e a única coisa que eu pensava era numa boa noite de sono, em uma cama confortável, depois de dois dias dormindo em rede. Acho que foi uma das melhores noites de sono da minha vida e dormi quase doze horas seguidas e ininterruptas, tamanho era o meu cansaço.

A Caverna Maroaga e Gruta Judéia


Acordamos mais tarde do que o planejado, mas mesmo assim não desistimos de conhecer um dos lugares mais famosos de Presidente Figueiredo: a Caverna Maroaga e a Gruta da Judéia, localizadas numa APA (área de proteção ambiental), justamente pela importância geológica do lugar. Marcamos com nosso guia Eduardo no centro de informações turísticas e de lá partimos para o que foi a melhor descoberta desses dois dias na cidade.
A experiência foi tão intensa, que decidir escrever sobre ela num post separado, pois apesar das poucas horas que passamos na região, fomos invadidos por uma quantidade enorme de novas informações sobre a Amazônia e sobre a própria região de Presidente Figueiredo, assim como ficamos encantados com as belezas naturais do lugar. Foi, de fato, um passeio inesquecível.

Gruta da Judéia, em Presidente Figueiredo
Gruta da Judéia

Depois da intensa imersão na geologia milenar da Amazônia, fomos para o Parque do Urubuí, o local mais popular da cidade. Ali, na época da cheia, é comum o pessoal descer de bóia-cross nas corredeiras do rio, mas nós, que fomos já na seca, não vimos isso. O que vimos foi um rio já urbanizado com um calçadão em suas margens e vários barezinhos por perto e nem animamos de ficar por lá. Nossa intenção no lugar era só almoçar, já que ali é a maior concentração de restaurantes da cidade. Nós escolhemos o Sousa, com vista para o rio e com uma comidinha bem gostosa. Nossa manhã foi comemorada com uma cerveja gelada e um peixinho delicioso. Perfeito.

Parque do Urubuí, em Presidente Figueiredo
Parque do Urubuí

Cachoeira Iracema


Depois da comilança, fomos invadidos por uma melancolia pós-prandial e a única vontade era procurar uma cama. Na falta dela, decidimos tirar uma soneca em alguma das cachoeiras da cidade e escolhemos a Cachoeira Iracema, uma das mais famosas da região. O nome comercial do lugar é Iracema Falls, uma americanização desnecessária e que nos causou uma certa implicância num primeiro momento, mas nosso guia Eduardo tanto falou que o lugar valia a pena que decidimos superar nosso preciosismo com a língua portuguesa e fomos lá conferir. E realmente o lugar é bonito.

Como a maioria das cachoeiras da região, a Iracema fica em propriedade privada e temos que pagar para entrar. Deixamos o carro num estacionamento e descemos por uma trilha rápida até a piscina natural que se forma em frente à queda d'água. O caminho é marcado por rica vegetação e por paredões rochosos com formatos esquisitos e pequenas grutas cheias de morcego. Só essa caminhada incial já tirou nosso sono tamanho interesse que nos causou o lugar.

Trilha para Cachoeira da Iracema, em Presidente Figueiredo
Trilha para Cachoeira da Iracema

Paredões rochosos próximos à cachoeira da Iracema, em Presidente Figueiredo
Paredões rochosos próximos à cachoeira

Depois de uns quinze minutos de caminhada, chegamos na cachoeira, que é mesmo linda, apesar do nosso preconceito com o nome americanizado. Uma queda de oito metros de altura com o volume de água considerável cai com intensidade e forma logo abaixo uma piscina deliciosa. Quando chegamos, o lugar estava cheio, mas rapidamente esvaziou e ficamos com aquela beleza todo só pra nós durante bastante tempo. Conseguimos nadar até a queda e ficamos sentados nas pedras com a água caindo nos ombros. Uma delícia!

Cachoeira da Iracema, em Presidente Figueiredo
Cachoeira da Iracema

Cachoeira da Iracema, em Presidente Figueiredo

Eu, que ainda tinha a ideia de tirar uma soneca, fui deitar numa pedra às margens do rio, mas logo Ju e Arthur vieram com a brilhante ideia de irmos na outra cachoeira que havia na região, uma tal Cachoeira das Araras. Eu ainda resisti, preguiçosa, mas o medo de perder o que poderia ser um tremendo passeio me fez seguir com eles.

Pegamos uma trilha que, inicialmente, margeava o rio e passamos por grutas lindas, mas medonhas (com teias de aranha gigantescas e muitos morcegos). Eu só lembrava da aranha peluda que havíamos encontrado de manhã e torcia pra não encontrar nenhuma ali.

Grutas na Cachoeira da Iracema, em Presidente Figueiredo
Mais grutas

Grutas na Cachoeira da Iracema, em Presidente Figueiredo
Teias de aranha. Muitas e enormes

O caminho foi ficando cada vez menos sinalizado e mais estreito e chegamos a ter que voltar em alguns pontos por não haver mais trilha aberta na mata e, pra piorar, a tarde já estava caindo e dentro da floresta sempre há menos luz, o que fez com que o nosso medo aumentasse ainda mais com a possibilidade de escurecer e nós ficarmos ali perdidos.

Grutas na Cachoeira da Iracema, em Presidente Figueiredo
Mais grutas

Em certo ponto, chegamos numa área mais aberta, onde o rio formava uma corredeira. Aquilo não parecia uma cachoeira e, como não havia sinalização, entendemos que deveríamos continuar caminhando pra chegar. O problema é que a trilha seguia por dois caminhos estreitos. Ficamos receosos de onde aquilo daria e, finalmente, decidimos voltar e combinamos que aquela corredeira seria para nós a Cachoeira das Araras. Se, de fato, é nós não sabemos, mas nos contentamos com essa possibilidade e voltamos apressados para chegar no carro sãos e salvos.

Cachoeira das Araras, em Presidente Figueiredo
Cachoeira das Araras?

Claro que o medo fez com que chegássemos mais rápido do que esperávamos no carro e ainda faltava muito para escurecer, mas a aventura valeu a pena e dali partimos de Presidente Figueiredo satisfeitos com os dias agradáveis que passamos na cidade e encantados com essa Amazônia nova que conhecêramos.
No carro, de volta à Manaus, conseguimos usufruir daquela paisagem com outro olhar, mais maduro e atento e chegamos felizes à capital do estado para enfrentar mais alguns dias de desafios e aprendizados. Era hora de encararmos nosso principal objetivo da viagem: quatro dias de um congresso sobre Saúde Mental.


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3 comentários:

  1. deixa de ser otário e para de falar merda sobre a época em que os militares governaram o Brasil. Período tenebroso foi quando entregaram nosso país para essa cambada de vagabundos seu idiota, com essa constituição ridícula feita por bandidos para bandidos. Você nem sequer viveu aquela seu imbecil, mas quem viveu e não era criminoso vivia em paz. Bandido era tratado como bandido. Havia segurança para as pessoas de bem.

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  2. Deixo aqui algumas sugestões:

    Suas convicções ideológicas a respeito da ditadura poderiam não ser citadas, isso gera conflitos com opiniões contrárias e deixa a leitura cansativa e morosa. Questões polêmicas como política, religião e assuntos afins devem ser evitados para não não criar discussões desnecessárias.

    Pelo que interpretei na sua escrita percebi que você mostra uma certa superioridade por ser do Centro-Sul do Brasil (encontrei em vários trechos como no nome Iracema Falls ou a implicância com o nome Presidente Figueiredo). Na Paulicéia onde o American Way of Life impera e quase tudo é americanizado. Achei bem estranho. Quem pode ler sua publicação pode ser um nordestino ou até mesmo um amazonense e podem não achar legal a superioridade sulista que você insere no texto.

    Não entendo a parte em que você menciona que prefere o rústico e reclama em fazer suas necessidades em uma latrina (e não buraco como você disse). Afinal você prefere o rústico turismo ecológico ou o turismo de massas?

    Minha intenção não é lhe ofender, mas apenas fazer críticas construtivas. Sou um amazonense de coração que vive nesta terra há 10 anos e espero que retorne ao Amazonas para usufruir mais das belezas naturais do Estado.

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    Respostas
    1. Olá! Muito obrigada pelas suas sugestões! Elas são sempre muito bem vindas! :)

      Sobre o uso do termo "Iracema Falls": eu o usei por ser o nome comercial escolhido pelos próprios donos do lugar. Inclusive no texto eu critico essa americanização, que também considero desnecessária. Essa é uma crítica que podemos fazer juntos aos donos da cachoeira! ;)
      Sobre a ditadura: esse não é um blog de política, mas minhas não tenho intenção de esconder minhas convicções políticas! Sou uma defensora da liberdade de opinião e acredito que o posições políticas diferentes possam conviver respeitosamente e sempre tento estimular o bom debate de ideias.
      Sobre o uso do termo "buraco" acho que você tem mesmo razão. Fui infeliz na escolha da palavra e tentarei ficar atenta à isso nos próximos posts! Obrigada pelo alerta!

      Mais uma vez, muito obrigada pelo seu comentário!

      Um grande abraço!

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