terça-feira, 16 de junho de 2015

"O Salar de Uyuni não pode ser um novo Cerro Rico"

Salar de Uyuni, na Bolívia

A frase que intitula esse post é do atual presidente da Bolívia, Evo Morales. Seu contexto histórico e econômico não é difícil de se compreender. O Cerro Rico de Potosí foi, durante o período colonial, o maior produtor de prata do mundo. Prata essa que ia direto pra Espanha, deixando na cidade (e na colônia da época) um rastro de pobreza e falta de estrutura marcantes na história do país, que é até hoje um dos mais pobres da América do Sul. Cerro Rico corre risco de desabamento, devido ao emaranhado de túneis que corroem seu interior, mas uma nova riqueza está prestes a substitui-lo: as reservas de lítio do Salar de Uyuni, grande suficiente para impulsionar a produção de aparelhos celulares, TVs e, principalmente, dos promissores carros elétricos (menos poluentes do que os atuais que usam derivados do petróleo). Foi nesse contexto, que Evo proferiu a tal frase acima, deixando claro que seu governo não aceitaria ser novamente espoliado por indústrias estrangeiras, chegando mesmo a declarar que a Bolívia teria sua própria fábrica de carros elétricos. Difícil imaginar isso num país onde parece faltar até o básico, como papel higiênico. Mas, por outro lado, não duvido que seja possível, principalmente depois de conhecer o povo boliviano, lutadores e resistentes que são. Basta observar como conseguiram manter sua identidade cultural, mesmo com toda a influência espanhola tentando impor seus costumes e tradições. Pelas ruas do país, ouvimos quéchua e aymara com a mesma fluência do castellano. Quem de nós, no Brasil, aprende tupi-guarani na escola?

O Estado Plurinacional da Bolívia tenta, assim, reescrever sua história e conhecer o Salar de Uyuni, sem dúvida, me ajudou a entender a dimensão que isso tem, além de ainda me proporcionar uma das mais exóticas paisagens que vi na vida. Isso tudo ainda somado aos perrengues inerentes a uma viagem para um país pobre como a Bolívia e com pouca estrutura para o turismo, além de um tanto de azar que particularmente me assolou nesses dias, tornou nossa visita ao Salar uma experiência única (e não necessariamente apenas boa), que relato nesse post.

Salar de Uyuni, na Bolívia
Sal coletado para construção de casas

A melhor descrição do caminho entre Potosí e Uyuni, encontrei numa belíssima reportagem de Lawrence Wright, traduzido para o português pela Piauí, onde ele escreve:

"Chega-se ao Salar por uma estrada de terra suja e estreita, que desce os Andes e serpenteia, em zigue-zague, cânions ensolarados e planícies secas. Lhamas e vicunhas pastam, flamingos chapinham em charcos rasos. Até há pouco, geleiras cobriam o topo das montanhas, mas o aquecimento global vem provocando um considerável recuo do gelo, reduzindo o suprimento de água da Bolívia. Às portas de Uyuni, uma cidade de casas de argila erguida à beira da planície de sal, a paisagem mirrada está cheia de lixo, e sacolas de plástico colorido agitam-se nos ramos das árvores queñua."
No meu caso, fiz esse trajeto após uma noite tenebrosa em Potosí e as belíssimas paisagens da estrada me deram um impulso à mais de ânimo e energia, exceto pela humilhante cena em que tive que urinar de pé atrás de uma casa e de frente para a estrada, tendo como única barreira de privacidade o casaco que Thiago segurava próximo às minhas pernas, pois não há baños no trajeto de mais de três horas de ônibus entre as duas cidades.

Estrada entre Potosí e Uyuni
Estrada entre Potosí e Uyuni

Ao chegar em Uyuni, nossa primeira tarefa era contratar uma agência para o passeio de três dias pelo Salar e altiplano boliviano, que nos levasse até nosso destino final, a cidade de San Pedro do Atacama, já no Chile. Por mais que não gostemos de passeios padronizados, a verdade é que não há outra forma além dessa para conhecer a região. Bem, na verdade poderíamos contratar um serviço particular, mas o preço não caberia no nosso bolso, então só nos restava entrar na onda e nos agregar à horda de turistas que fariam exatamente o mesmo roteiro, parando nos mesmos lugares e fazendo as mesmas atividades. Havíamos lido barbaridades sobre algumas agências, desde queixas sobre a qualidade da comida oferecida até sobre relatos de motoristas bêbados, então decidimos pela empresa sugerida no Lonely Planet e nem discutimos muito o preço.
Seriam três dias intensos e que eu jamais vou esquecer, cuja principal característica foi o azar. Nos menores detalhes aos maiores perrengues, como fraturar o punho, causo que eu já contei no post anterior. Optei por dividir o relato desses dias em dois: nesse, que me aterei ao Salar de Uyuni propriamente dito e o próximo, que deixarei para as lindíssimas lagunas altiplânicas.

Isla Incahuasi, no Salar de Uyuni
Uma ilha de cactos no meio do Salar

Enfim, o Salar de Uyuni

Agência contratada e barriga cheia, consegui, finalmente, descansar depois da noite infernal em Potosí e na manhã seguinte, estávamos na hora marcada em frente à agência, de onde partimos com o nosso jeep para buscar os outros quatro turistas que iriam dividir o carro conosco, no hotel onde estavam. O primeiro incômodo já se deu aí (afinal, porque nós tivemos que caminhar com os mochilões até a agência e eles tiveram a regalia de serem buscados no hotel?), mas nada se comparou com a impaciência com o atraso dos nossos colegas (que se repetiria ao longo de todo passeio) e uma falta de empatia imediata que senti, quando eles chegaram. Era um grupo de quatro amigos israelenses, que insistiam em ignorar à mim e ao Thiago e que só às custas de muito esforço conseguimos interagir minimamente.

Vulcão Tunupa e Isla Incahuasi, no Salar de Uyuni
Vulcão Tunupa e cactos

Nosso motorista inicialmente até tentou ser simpático e interagir com o grupo, mas vendo que a maioria (composta pelos quatro israelenses) não estava interessada e ainda reclamava de tudo, logo parou de conversar e se limitou a dirigir. A experiência teria sido melhor se tivéssemos tido sorte com o grupo, mas mesmo com isso valeu a pena ter ido e, sem dúvida, que vi nesses dias as mais belas paisagens da minha vida.

Isla Incahuasi no Salar de Uyuni, na Bolívia

Nossa primeira parada, onde dezenas de jeeps também pararam e centenas de turistas fotografavam foi no cemitério de trens, onde um mundo de locomotivas enferrujadas estão completamente abandonadas, tendo em vista que ali passa a ferrovia mais antiga do país, construída em 1873, ligando Uyuni ao porto de Antofagasta. Após a Guerra do Pacífico (que tirou da Bolívia sua saída para o mar, já que o Chile incorporou ao seu território a região do Deserto do Atacama e Antofagasta), empresas de ambos os países fizeram um acordo para continuar o transporte de minérios pela ferrovia, que hoje acontece de maneira insipiente e ainda gera um grande desconforto entre os dois países. Tanto que em 2003, Evo Morales chegou a interpor um pedido de julgamento da questão no Tribunal Internacional de Justiça da ONU, que estará em julgamento ao longo de 2015. O argumento de Evo é que a Bolívia tem o direito histórico de ter um acesso soberano ao mar sem ter que pagar taxas ao governo chileno para usar o porto de Antofagasta. O assunto é delicado e fiquemos no aguardo das cenas dos próximos capítulos.

Salar de Uyuni, na Bolívia
Thiago caminha em direção à Antofagasta, justamente a saída para o mar requerida pela Bolívia

Cemitério de trens no Salar de Uyuni, na Bolívia
Cemitério de trens 

Saímos do cemitério e fomos todos os jeeps para Colchani, uma comunidade próxima de Uyuni, onde um verdadeiro shopping ao ar livre recepciona os turistas e onde as gurias israelenses ficaram por horas. Eu e Thiago preferimos visitar um simpático Museu de Sal com esculturas de animais típicos da região, todas feitas, como o nome sugeri, em sal. As próprias casas são construídas em sal, extraídos do Salar, como numa das fotos que postei acima.

Tunupa no Museu de Sal do Salar de Uyuni, na Bolívia
Escultura de sal de Tunupa, cujo leite originou o Salar de Uyuni, segundo a tradição aymara

Museu de Sal do Salar de Uyuni, na Bolívia
La Vicuña Enojada

Aprendi no museu, que pela tradição aymara, o Salar de Uyuni tem uma origem triste, passada oralmente dos avós aos seus netos. A lenda é a seguinte: havia uma bela mulher de nome Tunupa, que era disputada ferozmente pelos vulcões (considerados divindades pelos povos antigos). Um certo dia, ela se apaixona por um deles, Cosuña, com quem tem um lindo filho. Porém esse amor gera uma enorme guerra entre os vulcões, fazendo com que Cosuña fuja levando consigo seu herdeiro e abandonando Tunupa. O sofrimento da índia é tamanho que suas lágrimas somadas ao leite que jorravam de seus seios fez surgir o Salar e até hoje podemos vê-la na imagem do belo vulcão que domina a paisagem ao redor do deserto.

Vulcão Tunupa e o Salar de Uyuni, na Bolívia
O mar de sal com o Vulcão Tunipa ao fundo, paisagem que vemos por quilômetros ao longo do Salar de Uyuni

Hoje sabemos que a origem geológica da região foi a partir de um lago pré-histórico, que ao secar deixou o remanescente de sais depositados numa área de mais de 10mil km² com profundidade entre dois e dez quilômetros pra baixo de sua superfície, tornando Uyuni o maior deserto de sal do mundo. O lugar é tão imenso, que pode ser visto do espaço e dizem as más línguas que Neil Armstrong chegou a confundi-lo com uma geleira gigante, quando o avistou da lua.
Se da lua já é impressionante, imagine pessoalmente. É simplesmente de tirar o fôlego.

Salar de Uyuni, na Bolívia
Pequeno trecho do salar ainda molhado e com borbulhas de água salgada 

O Salar tem duas estações bem definidas: o de chuvas (entre dezembro e fevereiro) e o período seco (entre abril e novembro). Nós fomos em maio, portanto na secura total e foi bacana, já que assim conseguimos observar o mar de hexágonos que forma o seu chão. Depois de muito pesquisar na internet, o Thiago descobriu algumas explicações físicas para esse fenômeno dos hexágonos, que passa pelas condições da superfície perfeitamente plana do Salar e pela evaporação da água, mas eu nem me atrevo a estender esse assunto, porque na verdade não entendi muita coisa. Tentei xavecar o Thiago para ele escrever um post sobre o assunto e vamos ver se sai.
Apesar de ter gostado de ir no período seco,  confesso que ao ver as imagens daquele deserto branco todo molhado durante as chuvas, fiquei com muita vontade de fazer fotos naquela paisagem que espelha perfeitamente o entorno e chega até mesmo a confundir os incautos sobre onde termina o horizonte e começa o céu. Mais um motivo, pra voltar lá, não tenho dúvidas.

Formação hexagonal do Salar de Uyuni, na Bolívia.
Formação hexagonal dos cristais de sal

Almoçamos num antigo hotel de sal desativado, onde nosso guia montou uma simpática mesinha e nos ofereceu um frango com arroz e salada bem digno. Foi um dos poucos momentos de entrosamento com nossos colegas israelenses e logo depois já nos dispersamos novamente, quando paramos num dos pontos famosos para fazer aquelas tradicionais fotos em perspectiva que TODOS os turistas querem fazer. Eu e Thiago fizemos algumas e logo já nos demos por satisfeitos, afinal fazer aquelas fotos é até divertido, mas tínhamos um deserto de sal inteiro pela frente para desbravar e era essa nossa prioridade.

Salar de Uyuni, na Bolívia
Nossas fotos "criativas"

Até tivemos bastante paciência (afinal, viajar em grupo requer certa dose de ajustes de expectativas) e ajudamos os israelenses nas poses e ângulos, mas depois de mais de uma hora naquilo comecei a ficar entediada e incomodada, quando finalmente eles se deram por satisfeitos e pudemos seguir adiante para o que foi, na minha opinião, o ponto alto do dia: a Isla Incahuasi. Os quatro israelense não quiseram pagar os 30 bolivianos para subir na ilha e Thiago e eu, minoria que éramos, tivemos apenas trinta minutos para fazer o trajeto que mereceria, pelo menos, uma hora para aproveitarmos toda a beleza do lugar. Mais um desentendimento com nossos companheiros de viagem  e ainda estávamos no primeiro dia. Apesar disso, valeu demais ter entrado na ilha e ter dado a volta completa nela.

Isla Incahuasi no Salar de Uyuni, na Bolívia
Isla Incahuasi

Sem dúvida que uma ilha cercada de sal por todos os lados é uma visão absolutamente impressionante e Incahuasi é apenas uma entre tantas ilhas que ficam dentro do deserto branco. Além da paisagem impressionante do alto da ilha, seus gigantescos cactos também chamam a atenção. Essa planta enorme é o mais importante ser vivo do Salar, já que são uma das poucas adaptadas às condições extremas de vida desse ecossistema. Os nativos dessa região a chamam de Cardón de Pasacana, ou ainda jach'a q'iru (em quéchua) e wanq'ara (em aymara) e são espécies endêmicas do altiplano andino, distribuídas entre Argentina, Chile e Bolívia. Algumas chegam a dez metros de altura e podem ter raízes de até dois metros de profundidade que buscam água nas profundezas do deserto. Foi muito emocionante vê-las de perto, pois são essas as plantas que sempre povoaram meu imaginário de como seria um deserto.

Isla Incahuasi no Salar de Uyuni, na Bolívia
Cardón de Pasacana

Isla Incahuasi no Salar de Uyuni, na Bolívia

Isla Incahuasi no Salar de Uyuni, na Bolívia

Foi uma caminhada rápida, mas espetacular, que fez valer a pena à ida ao Salar, mesmo com todos os perrengues da viagem. No ponto mais alto da ilha, um vento forte e delicioso soprava nos nossos rostos e a visão daquele mar branco abaixo de nós com lindas montanhas ao fundo foi indescritível. E pensar que aquela imensidão branca foi um lago maior que o próprio Titicaca, algum dia...

Isla Incahuasi no Salar de Uyuni, na Bolívia
Isla Incahuasi

Voltamos pro carro até mais pacientes com nossos coleguinhas israelenses, mas foi difícil mantê-la após vê-los discutindo com os funcionários do abrigo que nos hospedamos, pois não queriam pagar pelo papel higiênico (sendo que todos os turistas que fazem esse passeio são orientados a levar itens básicos de higiene). Meu limite chegou ao fim ao ouvi-los chamar os bolivianos de preguiçosos o que também pensavam dos brasileiros, segundo contaram pro Thiago no dia seguinte) e ainda disseram que era "por essas coisas que ninguém gostava dos bolivianos".  Ninguém uma ova, cara pálida. Eu gosto e muito. Nosso guia mesmo contou-nos que quando não estava trabalhando com turismo, trabalhava sem descanso como agricultor, plantando quinoa no povoado que morava, próximo de Uyuni. Chamar essa gente de preguiçosa é pra mim inaceitável.
Claro que depois disso, o clima com o guia ficou péssimo e ele passou a apenas fazer seu trabalho de motorista  sem qualquer empenho. O Thi bem observou que, durante o jantar no abrigo, todos os outros grupos de turistas receberam vinho chileno, enquanto nós ficamos com um boliviano bem ruinzinho. Isso até foi bom, pois eu queria mesmo ter ido à Tupiza conhecer as vínicolas do país. Mas, quando no café da manhã, todos comeram ovos e nós não, eu me dei conta que, sim, tínhamos dado azar com nosso grupo.
Isso sem contar com a bronca homérica que o Thiago deu neles, quando à noite todos os hóspedes do abrigo já estavam dormindo e os quatro mosqueteiros de Davi gargalhavam alto no quarto ao nosso lado. É difícil tirar o Thi do sério e os israelenses conseguiram. Na manhã seguinte, ouvi os constrangidos pedidos de desculpas de ambas as partes e a convivência com eles no segundo dia até que melhorou um pouco, mas isso e outros perrengues eu conto no próximo post.





2 comentários:

  1. issa ai viva o Evo !! e a Bolívia !!

    esses israelenses são realmente insuportáveis!!!!!!!

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    1. Torço mesmo pelo Evo e pra que a Bolívia se desenvolva. Aquele povo merece uma vida melhor!
      Bom, não conheço muitos israelenses e sei que tem gente mala em qualquer país, mas esses que conhecemos não foram bacanas, não! rsrs

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