segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Comunidade afro-colombiana nas Islas del Rosário: Orika

Orika, uma comunidade afro-colombiana no Caribe Colombiano

O Caribe Colombiano é frequentado há séculos por exploradores de todos os tipos. Sua população inicialmente indígena foi praticamente dizimada pelos espanhóis e passou a ser frequentada também por piratas e corsários que tinham grande interesse na região pela proximidade com a rica e cobiçada Cartagena das Índias, de onde partiam todas as riquezas espoliadas das colônias espanholas da época. Mais tarde, algumas dessas ilhas foram ocupadas por comunidades negras provenientes da península (hoje, ilha) de Barú, provavelmente fugidos da escravidão a que eram submetidos no continente. Esses afro-colombianos mantiveram-se praticamente isolados até a década de 50, quando novamente os brancos aportaram por ali, dessa vez, interessados no imenso potencial turístico da região de beleza paradisíaca. Dessa maneira, teve início um intenso processo de miscigenação e exploração dos locais que, perdendo sua identidade cultural, passaram a sofrer risco de desapropriação, quando suas terras (já bastante restritas após a construção de inúmeros resorts e hotéis de luxo) foram consideradas propriedades da União. Vendo sua história e tradições ameaçadas, os nativos da maior de todas as ilhas do arquipélago, a Isla Grande, passaram a se organizar politicamente e fundaram em 2001 a Comunidade Afro-colombiana de Orika com intuito de formalizar a luta pela regularização de seus direitos. Foram muitos anos de batalha e a primeira grande vitória veio em 2013, quando ganharam na justiça o direito de propriedade coletiva das terras da ilha.

Orika, uma comunidade afro-colombiana no Caribe Colombiano. Experiência de turismo comunitário.
Crianças brincando (enquanto o pai pescava na beira da praia)

Uma experiência de turismo comunitário em Orika, a comunidade afro-colombiana no Caribe Colombiano
Pequena nativa de Orika

Turismo de Base Comunitária em Orika

Nesses anos de organização interna, uma das grandes armas de resistência da comunidade foi o turismo de base comunitária, iniciado por uma das mais ativas moradoras da ilha, Doña Ana Rosa, que fundou o Eco-hotel las Palmeras, com o objetivo de fazer um turismo mais sustentável e que permitisse maior visibilidade das questões locais, assim como maior independência econômica dos nativos, que em grande parte já trabalhavam com o turismo, como empregados dos hotéis da ilha. Foi uma forma de fazer algo que sabiam que lhes daria retorno financeiro sem perderem suas características e autonomia. O projeto deu tão certo que outros moradores se inspiraram para também criarem outros eco-hotéis nos mesmos moldes e objetivos do de Ana Rosa.

Turismo Comunitário em Orika, uma comunidade afro-colombiana no Caribe.
Nosso quarto no Eco-Hotel Las Palmeras

E foi justamente no Las Palmeras que nos hospedamos nos quatro dias que passamos nas Isla Grande. Mas não foi fácil descobrir esse lugar que ainda é pouco conhecido e divulgado.
Planejando a viagem, tínhamos certeza que queríamos conhecer, pelo menos uma das 27 famosas ilhas que compõe o fabuloso Archipielago del Rosario, numa área de formação coralina, banhada pelo Mar do Caribe. O arquipélago fica dentro do Parque Nacional Natural Corales del Rosario e de San Bernardo, área que supostamente deveria ser de proteção ambiental, mas que vem sofrendo uma enorme pressão para exploração do turismo de massa. São centenas (ou milhares, dependendo da época do ano) de turistas que diariamente são levados num famoso day-trip que sai de Cartagena e passa por praias e corais sem nenhuma preocupação ambiental. Como não se bastasse, a Isla Grande teve grande parte do seu território arrendado pelo Estado para grandes empresários, que construíram vários resorts a beira-mar, fechando acesso à praia, explorando os arrecifes e os nativos da ilha.

Turismo Comunitário em Orika, uma comunidade afro-colombiana no Caribe.
Quase toda a costa da ilha e ocupada por grandes hotéis e resorts

Era certo que não queríamos fazer esse tipo de turismo, mas não sabíamos quais eram as alternativas possíveis para fugir dele. Pesquisa daqui e dali e eis que descobrimos na internet a existência da Comunidade de Orika e, mais ainda, que lá havia turismo comunitário. A alegria nos invadiu, mas ainda havia uma dificuldade: como entrar em contato com os responsáveis pelo projeto? Não havia uma página oficial e as únicas informações que conseguimos era de uma fanpage no Facebook que não era atualizada há anos e não tinha nenhuma contato telefônico. Continuamos nossa saga cibernética atrás de alguém que pudesse nos ajudar e eis que, finalmente, vendo um vídeo no Youtube sobre Orika descobrimos uma das mais jovens e ativas líderes comunitárias da ilha, a adorável Eika de la Rosa. Imediatamente, a adicionamos no Facebook e eis que ela nos aceitou e não só nos deu todas as informações que buscávamos, como nos recepcionou no nosso primeiro dia na ilha após termos alguns problemas e que ela nos ajudou a resolver imediatamente.

Turismo Comunitário na Isla Grande, uma ilha do arquipélago de Rosário, no Caribe Colombiano.
Thiago com nossa anfitriã na ilha, a simpática Eika

Dias caribenhos na Comunidade Afro-colombiana de Orika

Os mais de 700 habitantes de Orika vem se organizando desde 2000 para proteger seu território e suas tradições ancestrais, tanto que conseguiram em 2013 o título de propriedade coletiva das terras da ilha, reconhecida pela Corte Constitucional da Colômbia. Esse foi só o começo da luta desses bravos guerreiros que agora pelejam pela preservação dos corais, essenciais para sua cultura e sobrevivência. Nos nossos dias na ilha, observamos que ainda há muito a ser feito, desde investimento em educação (pois muitas crianças ainda estão fora da escola e nitidamente falta estrutura para que os professores possam trabalhar), assim como na preservação ambiental (ainda há muito lixo pelas trilhas da ilha, assim como na praia) e em itens básicos como acesso a água potável (a chuva continua sendo a única fonte hídrica, já que não há rios na ilha) e energia solar (sim, não há fornecimento de energia elétrica e muitas famílias vivem ainda a base de luz de velas).

Turismo Sustentável na Isla Grande, uma das ilhas do Arquipélago de Rosário no Caribe Colombiano.
A ocupação humana se dá em cada pedacinho de terra

Mas as dificuldades não parecem desanimar esse povo batalhador e a verdade é que passamos quatro fabulosos dias nesse paraíso tropical, cercados de uma natureza que ainda resiste, apesar do nítido caos ambiental que a rodeia. O calor esbaforante era esquecido nas horas em que nos banhávamos no mar de águas calmas, mornas e translúcidas, na companhia dos coloridos peixinhos vistos a olho nu e dos pequerruchos peixinhos humanos, as tantas crianças da ilha, nascidas e criadas no mar e com imensa intimidade com essas águas, como se ali fosse alguma espécie de líquido amniótico materno. Nossos dias por essas bandas se passaram entre passeios pela ilha, ricas e afetuosas conversas com nativos e turistas e longos banhos de mar que mais parecia uma piscina de água salgada, ou no balançar da rede do hotel, quando o ócio era reinante. Descobrimos nosso lugar preferido na ilha, numa pequena faixa de areia distante três minutos de caminhada do hotel, onde um charmoso muelle com uma cabana de telhado construído com folhas de coqueiro nos dava abrigo do Sol e nos ventilava deliciosamente. Ali passamos momentos de profunda reflexão, mas também de pura vagabundagem desavergonhada. E eis que só de lembrar já fico saudosa.

Turismo Sustentável na Isla Grande, uma das ilhas do Arquipélago de Rosário, no Caribe Colombiano.
Nosso cantinho preferido na Isla Grande

Inesquecível será também a música constante, sonora e (excessivamente) alta vinda de todos os lados e produzida por potentes aparelhos de som, movidos a gerador. O ritmo colombiano da costa caribenha, a champeta é tão popular  na ilha que todos ali parecem não cansar de ouvir esse ritmo sensual e a batida constante com fortes e perscrutantes sons graves. Somente nosso último dia passou sem música alguma, quando, confesso, usufrui ainda mais da tranquilidade da ilha e pude ouvir com mais riquezas de detalhes os tantos pássaros que frequentam aquele lugar. E, sim, são tantas e tão sonoras as aves, que era impossível não olhar pro céu em meio ao seu burburinho sonoro durante todo o dia.

Turismo Comunitário em Orika, uma comunidade afro-colombiana no Caribe.
Pelicanos pescando no fim de tarde

Nossas noites eram de prosa com os demais hóspedes do hotel, seguido de uma caminhada rápida até beira-mar para fugir do calor (e dos mosquitos), além de podermos sentir a brisa gostosa do mar e o barulho das ondas. O sono depois desse ritual era mais intenso e profundo, mesmo no calor que fazia todos os dias embaixo do mosquiteiro baforento do quarto.
Foram quatro dias despretensiosos de pedaladas e caminhadas pelas trilhas da ilha entre conversas e banhos de mar. Longe da internet e da energia elétrica (o hotel tinha energia solar, mas para caminhar pela ilha à noite não havia iluminação e a única fonte de luz era nossa própria lanterna), tomando deliciosos banhos de balde (e, realmente, me surpreendi como apenas um único balde de água pode lavar bem todo o meu corpo, incluindo o cabelo, numa economia fundamental pra uma comunidade carente de recursos hídricos) e de calorosas noites de sono no quarto sem ventilador, mas com parede de palha, que permitiam uma benfazeja e aliviante entrada de ar.
A única lembrança da civilização eram mesmo as inúmeras lanchas que passavam todos os dias rumo à barreira de corais, levando dezenas de turistas em cada uma delas, numa velocidade assustadoramente barulhenta. Bom, confesso que também a música alta ouvida diariamente pelos nativos me lembrava insistentemente um certo caos civilizatório, apesar de já ter se transformado na rotina local. Sem embargo, me pego pensando em como o silêncio foi se desnaturalizando nas sociedades modernas e fico abismada quando ouço que a ausência de barulho causa angústia em muitos que vivem nas grandes cidades. Uma tristeza sem fim e um marco, na minha opinião, da perda de um dos nossos mais sensíveis e delicados contatos com a natureza e conosco mesmos: a audição apurada.

Turismo Comunitário em Orika, uma comunidade afro-colombiana no Caribe.
Nosso último entardecer na ilha, visto da casa de Seu Neco, um dos nativos da ilha

E assim, entre reflexões e vadiagem, passamos dias mágicos nessa ilha cheia de surpresas e descobertas. Foram muitos os aprendizados que tivemos com as pessoas que conhecemos, além das belezas que apreciamos e que nos deslumbrava a todo instante, desde ricos mangues transpassados por túneis naturalmente construídos pelas árvores, até plânctons bioluminescentes que brilham e colorem as águas nas noites de lua nova e que nos motivaram a nadar na deliciosa Laguna Encantada sozinhos à noite. Mas essas e outras riquezas da Isla Grande, contarei no próximo post.

Turismo Sustentável na Isla Grande, uma das ilhas do arquipélago de Rosário no Caribe Colombiano.
Túnel natural entre os mangues 

Para concluir, compartilho abaixo o vídeo que descobrimos ao pesquisar sobre a Isla Grande e que nos permitiu conhecer Eika, nossa jovem e simpática anfitriã em Orika. Aliás, coincidência ou não, Orika era o nome da filha do primeiro grande herói afro-descendente a resistir à escravidão na América. Impossível não traçar um paralelo com a jovem Eika, filha de um dos primeiros líderes de sua comunidade, Ever de la Rosa e que teve (e ainda tem) um papel fundamental na luta e resistência de seu povo. Vida longa à Comunidade de Orika!


Informações Práticas

Como chegar?
A única maneira de chegar em Orika é de barco e são duas as opções possíveis que conhecemos para isso.
A forma mais barata é com a Lancha Comunitária, que faz o transporte dos nativos e turistas para a Isla Grande. Ela sai do Mercado de Bazurto (avenida el lago s/n), em Cartagena das Índias diariamente (exceto aos domingos e feriados) às 9h da manhã. Só há um barco disponível, o que limita o número de passageiros.
Outra maneira é contratando o tradicional Passeio Turístico para o Arquipélago de Rosário que sai diariamente às 9h do Muelle Turístico de la Bodeguita, localizado bem próximo à ciudad amurallada.  Ali, várias empresas oferecem um roteiro padrão (que incluirá a Isla Baru, a visita ao aquário, entre outros pontos turísticos). A parada na Isla Grande não está no roteiro, mas a ilha é passagem obrigatória para chegar ao aquário, então eles poderão lhe deixar lá no caminho. Mas prepare o bolso, pois as empresas cobrarão o passeio completo (ida-e-volta) tanto para lhe levar, quanto para lhe buscar de Orika. Essa é uma alternativa BEM mais cara, mas como são muitos os barcos disponíveis é uma alternativa que não tem risco de dar errado. É importante comunicar ao barqueiro sobre sua descida na Isla Grande, caso contrário, eles farão o passeio padrão que não inclui a parada na ilha.

Onde ficar?
Os nativos da Isla Grande tem se organizado para oferecer uma opção sustentável e que valorize a cultural local dos habitantes da ilha, num belo trabalho de Turismo Comunitário. Eles chamaram sua oferta de hospedagem de Eco-Hotel e atualmente existem vários deles espalhados na ilha. Nós ficamos no mais antigo deles, que foi o pioneiro nesse tipo de trabalho: o Eco-hotel las Palmeras, fundado e mantido até hoje pela adorável Ana Rosa. Mas não espere encontrar aqui grandes luxos. Os quartos são confortáveis, mas sem grandes regalias e você tomará banho de balde, que aliás é uma delícia, pois alivia o calor que é uma beleza...

Reservas: +57 31 4584-7358


O que levar?
-Repeletente é essencial, acredite. A ilha tem muitos insetos e você será atacado sem repelente! Nós gastamos um vidro inteiro em quatro dias.
-Roupas leves, pois o calor é sufocante. Pense numa muda por dia, porque seu suor não lhe permitirá usar a mesma roupa mais de uma vez.
-Água é uma boa, pois esse é um item que é quase ouro na ilha. Um garrafão de 5l por pessoa vai lhe possibilitar uma boa economia de grana.
-Equipamento de mergulho, nem que seja um snorkel básico, pois os corais da ilha merecem ser vistos em detalhes e em qualquer praia é possível mergulhar sem grandes estruturas.


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8 comentários:

  1. Gostei muito deste relato, fiquei muito interessado nesta experiência. Espero apenas encontrar vaga no hotel. Seguirei as dicas de vocês. Abraços

    Daniel

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    1. Olá, Daniel! A experiência na Isla Grande é mesmo muito interessante! Você vai curtir!
      Não é difícil encontrar vaga no hotel, mas deixei o telefone no post e você pode ligar pra Dona Ana Rosa e já deixar reservado pra garantir! :)
      Quando você vai? Depois, me conta como foi!
      Abraços!

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  2. Olá, achei fantástico o relato e a história desse lugar lindo. Vou para a Colombia agora em Abril, e estava a procura de uma experiência desse jeito. Uma dúvida,você acha que é possível acampar nesta ilha? Ou só pode ficar nos hostels? Fico no aguardo. Muito obrigada!

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    1. Olá! Onde ficamos hospedados tinha espaço pra camping, mas não faço ideia do preço que era cobrado. Teria que ligar lá pra perguntar (tem o número no post e eu sugiro ligar do skype, que fica mais barato! rs). Também vi outro camping, um pouco mais distante de onde ficamos. Camping selvagem não sei vi ninguém fazendo e nem sei se é permitido, pois lá é área de preservação ambiental. Espero ter ajudado! Qualquer coisa, só perguntar! :)
      Você vai adorar a Isla Grande!
      Abraços,
      Ana

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  3. Oi Ana,

    Como você conseguiu o Jesus para fazer o passeio dos planctons?
    Esse passeio é comum na Ilha? Estarei lá mas em 1 hotel e só ficarei 1 noite. Queria aproveitar para fazer este passeio.

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    1. Oi, Andrezildo! O Jesus é guia do eco-hotel que me hospedei. O passeio dos plânctons é bem comum, pois é o mais famoso na ilha! Com certeza, no seu hotel poderão indicar um guia, mas se quiser fazer com o Jesus, eu recomendo! É só procurá-lo no Eco-hotel Las Palmeras (a ilha é pequena e não será difícil achar, mas leve lanterna, pois não há energia elétrica no caminho). Ele aceita fazer o passeio com pessoas de outros hotéis, pois vi isso acontecer, quando estava lá! Você não vai se arrepender! É incrível!!!! Depois, me conte como foi! :)
      Abraços

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  4. olá! eu reservei 1 dia para ficar no hotel, mas ainda me faltam algumas infos.... queria saber se dá pra ir de bike (e como alugar bikes) até os hoteis mar del gente e San Pedro de Majagua, que acho que são legais. não entendi se é facil e legal andar por toda a ilha assim. também fiquei na dúvida se a ilha é tão bonita quanto san andres, pois estou considerando talvez ficar 1 dia a mais em san andres uma vez que estou entendo que talvez cartagena seja muito cheio. obrigada!

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    1. A ilha é pequena é dá pra andar facilmente por toda ela de bike.
      Não fui à San Andres, então não sei comparar!
      Um abraço

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