domingo, 20 de setembro de 2015

No Caribe Colombiano: pedalando pela Isla Grande

Passei de bicicleta pela Isla Grande e pela comunidade afro-colombiana de Orika.

Apesar de ser a maior ilha do Archipelago del Rosario, a  Isla Grande é facilmente percorrida de ponta a ponta numa caminhada tranquila. Não há carros, ou motos e o meio de transporte mais comum entre os ilhotas é mesmo a bicicleta. Resolvemos aderir ao hábito local e alugamos uma bike no nosso segundo dia na ilha, quando pedalamos por vários cantinhos inexplorados e conhecemos pessoas adoráveis, de dentro e de fora de Orika. Não tenho dúvidas de que esse foi o dia mais divertido, movimentado  e especial de todos os que passamos na região e também o mais inesquecível, ainda mais depois de um primeiro dia tenso e complicado, como o que havíamos enfrentado na véspera.

Passeio de bicicleta pela Isla Grande, no Caribe Colombiano.

Uma volta completa pela Isla Grande de bicicleta 

Nossos dias na ilha, começavam quase junto com o Sol, afinal o calor já nos invadia assim que o dia raiava e não nos permitia ficar muito tempo na cama. Nenhum problema nisso, tendo em vista que queríamos aproveitar o máximo que podíamos e era fato inquestionável que qualquer atividade era mais aprazível de ser realizada antes do sol abrasador que fazia entre 11h e 15h.
Assim foi que nesse segundo dia, partimos cedo com nossas duas bikes para explorar a ilha, pouco depois das 7h da manhã e já com muito calor na cabeça. Seguimos a única trilha que circunda a ilha e resolvemos nos permitir viver simplesmente o que aquela manhã nos traria, sem grandes planejamentos, ou expectativas no caminho. Se alguma trilha acessória nos causasse curiosidade, por lá seguíamos. Quando o calor nos tirava o fôlego, parávamos e descansávamos. Foi assim que passamos boa parte da manhã, pedalando por um bocado de hotéis e elegantes casas de veraneio, assim como casas simples de madeira dos nativos.

Casa típica da comunidade afro-colombiana de Orika, num passeio de bike pela ilha.
Casa típica de Orika

E assim, sem grandes esforços, chegamos no ponto efervescente da ilha, justamente onde fica o Centro Comunitário, a escola e onde moram a maioria dos habitantes. Confesso que minha primeira reação ali foi de estranhamento, isso porque uma das casas estava com um som extremamente alto (de fazer inveja a qualquer carro de som das quebradas de São Paulo, ou das praias brasileiras no verão) e achei que aquilo não combinava com a tranquilidade daquele lugar. A música até era boa, mas aquela altura inviabilizava a fruição de qualquer melodia e só causava desconforto. O pior foi descobrir que aquela não era a única casa que tinha esse hábito, isso porque ouvir música alta é o costume de todos em Orika, ou melhor dizendo, de todos que tem condição de pagar o querosene do gerador. Afinal, não há energia elétrica e a energia solar não dá conta de tanta potência para fazer um som desses funcionar. Fiquei com a impressão de que esse hábito dá um certo status para o dono do aparelho de som, como se possibilidade de ouvir a música alta ostentasse algo ali. 

Nativa da Comunidade afro-colombiana de Orika.
A senhora sem palavras e seu gatinho de estimação

Fomos conhecer a escola, mas ela estava fechada, devido ao feriado colombiano. Já estávamos de saída do lugar, quando encontramos outra pequena tienda, onde uma moça gesticulava energicamente para nós e emitia grunhidos que não sabíamos o que significava. Interpretamos que ela era muda e,  mesmo com toda dificuldade, ela nos mostrou seu gatinho e nos fez brincar com ele, quase que colocando minha mão na cabeça do bicho. Pedi permissão e fiz algumas fotos suas, mas logo depois ela novamente gesticulava com energia, no que entendemos que ela queria que fôssemos embora. Foram, no máximo, cinco minutos de interação e até hoje não entendo o que aquela moça gentil e rude ao mesmo tempo queria ao nos chamar. Talvez, apenas mostrar o gatinho mesmo. E não teve melindres para, depois de tarefa concluída, nos expulsar sem constrangimentos. Sinceridade genuína e sem precedentes...


Seguimos, então, nosso caminho e decidimos ir até o Centro Comunitário, quando vimos um senhor entrando num terreno baldio, passando por cima de alguns escombros. Resolvemos olhar o que era ali e entendemos que se tratava de uma casa abandonada. A arquitetura suntuosa contrastava com o completo estado de abandono do lugar e, curiosa que eu estava para ver onde iria aquele homem que entrara lá, resolvi o seguir, a contra-gosto do Thiago que ia atrás de mim reclamando que era perigoso fazermos aquilo. Mas foi graças a minha perigosa curiosidade que descobrimos um dos lugares mais bizarros que já visitamos na vida e que só depois que voltamos ao Brasil, viemos a descobrir que se tratava de uma mansão vinculado ao narcotráfico e, mais especificamente, ao maior de todos os narcotraficantes: o poderoso Pablo Escobar. Nossa amiga Eika nos confirmou que a casa era mesmo de um narco vinculado à política, mas não se comprometeu em dizer de qual exatamente. Em todo caso, a experiência naquele lugar foi tão incomum que deixarei para relatá-la num post separado.

A mansão em ruínas antes pertencente ao narcotráfico e hoje moradia de porcos e indigentes

Depois da experiência inacreditável nas ruínas dos narcotraficantes com direito até a banho de mar na suposta praia do Escobar, voltamos ao nosso foco anterior que era encontrar o Centro Comunitário. Seguimos pelas trilhas da ilha e até passamos pela casa de Sixto Silgado, o Paíto, um dos maiores gaiteiros colombianos e maestro dos Gaiteros de Punta Brava. No vídeo abaixo, gravada na própria Isla Grande dá pra ter ideia da maravilha que é sua música.


Casa de Paíto

Já estávamos quase desistindo da empreitada, quando paramos pra tomar algo numa das tantas tiendas com música insuportavelmente alta e crianças brincando peladas, quando informalmente perguntamos sobre a casa do pai de Eika, que é o responsável pelo Centro Comunitário e, por pura coincidência, nós estávamos exatamente na frente dela.
Resolvemos ir até lá e a porta estava aberta. Logo, a mãe de Eika veio ao nosso encontro e nos disse que o presidente do Centro Comunitário não se encontrava, mas que sua filha e nossa querida amiga estava na tienda da família. Pra lá seguimos e pra nossa alegria encontramos Eika novamente, já que havíamos estado com ela na véspera. Nossa anfitriã esperava a lancha que a levaria até Cartagena de onde seguiria para um congresso de líderes comunitários.
A tienda da família de Eika fica num belo lugar, na entrada do Caño Ratón, aquele mesmo canal onde fica a mansão dos narcos. Numa rápida caminhada pelo lugar, cheguei num pequeno cais e me deparei com uma cena divertidíssima. Quatro guris, cuja média de idade não passava dos sete anos, navegavam desastradamente uma canoa. A pequena embarcação balançava pra lá e pra cá e o menino mais velho era quem dava a direção de onde iriam. Os adultos não pareciam se preocupar com a cena, já que para eles aquilo era normal e rotineiro. Para mim, foram momentos de apreensão pelo temor da canoa tombar e de encantamento com o modo de vida ali que se dá desde sempre no mar. Evidentemente, que todos chegaram bem, já que os pequenos eram canoeiros natos.

Aqui já se nasce marinheiro

Encontros de bike pela Isla Grande

Não nos demoramos muito por lá, afinal não queríamos atrapalhar Eika e a fome começava a bater. Ela mesmo nos indicou um restaurante, mas quando lá chegamos descobrimos que não estava aberto naquele dia e já estávamos voltando para o hotel, quando uma moça nos gritou perguntando se ainda queríamos almoçar e nos apontou umas árvores, dizendo que ali haveria comida.
Sim, o lugar era mesmo embaixo das árvores. Não chegava a ser nem uma barraca e o fogareiro era ao ar livre, assim como as mesas, apenas protegidas pelas árvores. Ali já estava um casal nitidamente de fora da ilha pela brancura da pele, mas que eram também colombianos de Medellín. Logo sentamos e iniciamos uma gostosa prosa, intercalada com as brincadeiras com o filho da cozinheira, um gurizinho mirrado e com uma proeminente barriga d´água, mas de uma vivacidade tremenda e cheio de malemolência.

Uma figurinha

Enquanto estávamos ali conversando, chegou outro casal de uma brancura láctea e ingenuamente interpretei que eram turistas também, mas logo estranhei a intimidade com que conversavam com os pequeno guri e a cozinheira. Simpáticos e sociáveis, logo engatamos numa longa e produtiva prosa e descobrimos que os dois eram americanos, mas moravam na ilha há quase um ano, trabalhando como voluntários, ensinando inglês aos nativos. O almoço foi se estendendo por toda a tarde e logo descobrimos que Alex e Kaleb eram muito populares entre as crianças, pois várias os rodeavam querendo brincar. No meio da bagunça, surgiu um baralho de UNO e os americanos tentavam ensinar as crianças, que pareciam não ter muito paciência com as regras rígidas do jogo.


Alexsandra e Kaleb ensinam os dois pimpolhos a jogar UNO

Foi uma tarde deliciosa e agradabilíssima, em que esquecemos o tempo e nos entregamos a viver aquele momento sem pensarmos em mais nada. Depois de um bom tempo ali, Kaleb nos convidou para tomar um café verdadeiramente colombiano em sua casa, logo ali do lado. Nessa altura, mais duas turistas alemães também tinham se juntado a nós, assim como a própria cozinheira e seguimos todos juntos (e mais algumas crianças) para a casa do casal. Sentamos embaixo de uma árvore e ali ficamos até que começamos a ouvir trovoadas. Ainda tínhamos um caminho de retorno ao hotel e decidimos que era hora de nos despedirmos de todos. Despedidas calorosas e sinceras por aquela tarde inesquecível, que significou para mim tudo que espero de uma viagem e, talvez, até da vida toda: viver cada momento, ouvir todas as histórias, sentar embaixo de uma árvore e tomar uma cerveja com pessoas queridas.



Chegamos no nosso eco-hotel poucos minutos antes de uma chuva prazeirosa que ajudou a refrescar um pouco aquele calor esbaforante que fez durante o dia. Descansamos um pouco, jantamos e resolvemos curtir a noite num dos nossos lugares preferidos na ilha: uma espécie de varanda (acho que propriedade do Parque Nacional) bem em frente ao mar, onde podíamos deitar refastelados no chão olhando para as estrelas com uma brisa deliciosa nos refrescando. Era o fim ideal para um dia perfeito.


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4 comentários:

  1. Oi Ana, bom dia!
    Gostei muito do seu relato, e me interessei em fazer a volta de bike pela ilha. Chego em Cartagena no inicio de novembro, e Isla grande está no meu roteiro. Gostaria de algumas dicas, como o tempo que leva pra fazer a volta, pontos que valem a pena conhecer, a segurança do local pois pretendo pedalar só...

    Grato!

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    1. A ilha é pequena e, sem parar, você não leva mais que uma hora pra fazer a volta completa. Mas é claro que aconselho a parar em alguns pontos, como descrevi nesse post (principalmente na mansão abandonada que dizem ter sido de Pablo Escobar). Quanto à segurança, não há com que se preocupar! A ilha é uma tranquilidade absoluta! Só recomendo que leve lanterna, pois não há iluminação pública e, caso você volte à noite, pegará o caminho no escuro.
      Espero ter ajudado! E depois me conta como foi!
      Abraços
      ps: prepare-se pra sentir calor! MUITO calor!

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  2. Obrigado, Ana! Ajudou muito. Ainda estou em dúvida se faço o bate e volta na ilha ou se fico pelo menos um dia pra pegar o por do sol.

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  3. Muito obrigada pelas dicas preciosas! Esse também é exatamente o tipo de experiência que eu quero ter! Estou indo pra Colombia semana que vem, e irei para esse lugar com certeza <3

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