terça-feira, 22 de setembro de 2015

O palácio de Pablo Escobar no Caribe Colombiano

"Inferno Tropical
A guerrilha avança pela floresta
Subsistência criminosa é o que resta
Colheita da santa Coca pra europeu cheirar nas festas
Faz pobre aqui tomar bala na testa"
(Sonhos de Escobar-Cartel MCs)
Porcos e indigentes habitam a mansão abandonada de Pablo Escobar no Caribe Colombiano.
Sim, são porcos 

As décadas de 80 e 90 na Colômbia foram marcadas pela destruidora e implacável presença do narcotráfico internacional. Uma verdadeira guerra civil foi instaurada no país com conflitos entre os diferentes cartéis que concorriam pelo ávido mercado norte-americano na comercialização da cocaína, ao mesmo tempo que esses mesmos cartéis eram perseguidos por alguns políticos colombianos (os poucos que não estavam também envolvidos com o tráfico). 
No centro desses embates, sempre esteve presente o maior e mais poderoso narcotraficantes de todos os tempos, o mítico Pablo Escobar. Amado por uns, odiado pela maioria, esse homem dominou a cena política, econômica e social do país deixando sua marca de excentricidades espalhadas por todo território colombiano. Nos tempos áureos, El Patrón (como era chamado por seus sicários) ganhou tanto dinheiro que precisava enterrá-lo por simplesmente não ter onde gastar. Era conhecido como Hobin Hood por doar dinheiro aos pobres, pelo que era idolatrado pela população carente de Medellín, que em troca acobertava seus crimes e ainda o ajudava nos negócios, mas me parece evidente que essa foi uma das formas que ele encontrou de "dar vazão" a tanta grana, apesar das boas intenções ao se eleger deputado e vereador. Chegou a ter quinze aviões e seis helicópteros ao mesmo tempo e uma das maneiras que encontrou de lavar o dinheiro era construindo casas e mansões por todo o país. A mais famosa delas era a Hacienda Nápolis, onde ele construiu um jardim zoológico, lago e grandes áreas de recreação para a família.
Mas outras tantas casas foram sendo construídas pelo narcotráfico em toda Colômbia durante essa época e eis que, na isolada Isla Grande, sem energia elétrica e com poucos recursos de captação de água, mas em pleno caribe colombiano e rodeado de um mar azul celeste, uma linda mansão com mais de trezentos quartos foi erguida para servir de casa de praia aos narcotraficantes e seus convidados. O isolamento e as condições precárias da pequena ilha acabaram sendo favoráveis para proteção dos bandidos, que ali faziam grandes festas e encontros.

A entrada da mansão abandonada de Pablo Escobar, no CAribe Colombiano.

O dia que invadimos a mansão de Pablo Escobar

Conhecemos essa mansão fabulosa, que atualmente encontra-se em completa ruína e invadida por indigentes, quando pedalávamos pela Isla Grande, desbravando a bela Comunidade de Orika
Estávamos a procura do Centro Comunitário da ilha e vimos um jovem senhor entrando num terreno baldio, passando por cima de alguns escombros. Resolvemos olhar o que era ali e entendemos na hora que se tratava de uma casa abandonada. Minutos antes, havíamos conversado com um simpático senhor que havia nos falado desse lugar de forma despretenciosa e não mencionara em nada seu passado comprometedor ligado ao narcotráfico. 

A bem da verdade é que essa informação parece ser delicada em Orika. Em conversa com nossa amiga e nativa da Isla Grande, a Eika, ela nos disse que é certo que a casa era de um narcotraficante ligado à política, mas não se comprometeu em dizer nomes. Por outro lado, encontrei um artigo publicado pelo fotógrafo Luke Spencer que também esteve na casa, afirmando que ela pertencia mesmo à Pablo Escobar. Texto esse, aliás, que foi republicado em vários canais, inclusive na Casa Vogue. Pelo suntuosidade do lugar, ficamos mesmo com a impressão que só alguém com muito dinheiro poderia ter construído aquilo num lugar tão remoto.

Ainda sem saber de nada disso, resolvemos dar uma espiada pelo muro da casa e logo me chamou atenção a arquitetura suntuosa, que contrastava com o completo estado de abandono do lugar. Curiosa que eu estava para ver onde iria aquele homem que entrara lá, resolvi o seguir, a contra-gosto do Thiago que ia atrás de mim reclamando que era perigoso fazermos aquilo. Perigoso, ou não, foi graças a essa minha curiosidade que descobrimos um dos lugares mais bizarros que já visitamos.  Naquele momento, ainda não sabíamos, mas estávamos prestes a invadir a casa de ninguém mais, ninguém menos do que o próprio Pablo Escobar. Quem diria...

O dia em que conhecemos a mansão abandonada de Pablo Escobar no Caribe Colombiano.
Minha bicicleta estacionada nos jardins de Escobar

Caminhamos pelos jardins de mato e seguimos o tal moço até que nos deparamos com a cena da foto que abre esse post: uma rede estendida, uma vassoura caída e, sim, dois lindos e enormes porcos descansando tranquilamente por ali. Saíram os narcos, chegaram os porcos. Até que a mudança não foi tão grande assim.


Os atuais moradores do palácio caribenho de Escobar

Mas além dos animais, ouvíamos uma musiquinha vinda do radio de pilha que tocava ao fundo. Foi o sinal que o Thiago precisava para imediatamente recuar.
-Ana, vamos embora. Moram pessoas aqui.
E, eu em seguida:
- Sim, moram. Vamos lá conversar com eles. 

Caminhando pelas ruínas do casarão e Pablo Escobar, na Isla Grande.
Ruínas

Atravessamos o salão e seguimos para o que seria uma área de lazer do hotel, onde uma gigantesca piscina vazia servia como uma espécie de depósito para os moradores do lugar e aonde estendiam roupas molhadas. Num cômodo ao lado, a parede foi até mesmo pintada de um verde escuro e flores artificiais, além de um espelho faziam a decoração. Esse cômodo, que interpretei ser o quarto da família, não tive coragem de fotografar, já que me pareceu a parte mais pessoal e íntima da residência. Sentados ao lado da piscina e olhando pro mar, estava o homem o qual seguimos e uma pequena menina de, no máximo, uns três aninhos. Chamamos por eles, mas o homem não nos ouvia, ou não queria nos ouvir. A menina, sim, nos ouviu e foi só depois que ela nos olhou que ele também se virou para nós. Não mostraram surpresa, nem incômodo com a nossa presença. Apenas nos olharam e após isso voltaram-se novamente em direção ao mar. Ainda tentamos puxar assunto, perguntamos se havia algum problema de estar ali e com a mesma indiferença, o senhor nos disse que não havia problemas. Passada a situação, me pareceu evidente que uma família que mora numa construção invadida não se sentiria à vontade de expulsar dois turistas dali, já que eles mesmos devem se sentir continuamente ameaçados, até mais do que nós naquele momento.

Indigentes habitam a cada que foi do mais poderoso traficante de todos os tempos.
Pai e filha parecem nos ignorar

Pedimos permissão para andar por ali e o homem ainda nos apontou uma entrada para o mar, por onde poderíamos ir até os corais. Aquela foi a deixa para eu já me sentir íntima da família. E era só o começo do que viria pela frente. Caminhamos pela área externa da construção e a dimensão daquele lugar realmente nos surpreendeu. Pra onde olhávamos, um novo cômodo surgia, ou uma escada. Ao mesmo tempo que a sensação era de que a qualquer instante o teto poderia desabar tamanho o abandono de tudo por ali.

O dia em que conhecemos a mansão abandonada de Pablo Escobar no Caribe Colombiano.

O dia em que conhecemos a mansão abandonada de Pablo Escobar no Caribe Colombiano.

Seguimos o caminho que ele nos indicou e descemos pela escada que dava para uma espécie de cais, onde dois meninos pescavam sem grande alegria. Provavelmente, eram também filhos do mesmo homem que vimos caminhando pela construção. Crianças de uma tristeza contida, de olhar duro e pouco vívido. Resolvemos sentar um pouco ali com eles, mas num silêncio sepulcral, pois todos eles eram de poucas palavras. O Thiago abriu a mochila e deu à eles algumas galhetas que tínhamos. Eles comeram avidamente e continuaram na empreitada da pescaria. Não tinham vara, nem material apropriado. Pescavam com um fio de náilon amarrado numa pequena isca, mas conseguiam chamar a atenção dos peixes com o movimento que faziam com o fio e, enquanto estávamos lá, conseguiram pescar alguns.


Indigentes habitam a mansão de Pablo Escobar no Caribe Colombiano.
Pescaria na mansão de Escobar


Guri me mostra seu almoço, recém pescado por ele mesmo

A melancolia desses meninos era evidente

O Mar do Caribe particular de Pablo Escobar

Depois de um tempo ali com os meninos, o calor começou a nos escaldar e Thiago insistiu para que mergulhássemos naquele mar lindo ali na nossa frente. Estávamos no Caño Ratón, um canal que separa a Isla Grande da Isla Pescadito, localizada logo em frente. A cor da água que separa as duas ilhas é simplesmente indescritível e, sem dúvida, que esse foi o trecho de praia mais bonito que conhecemos na região. Praia não é bem o termo apropriado, já que não há faixas de areias branquinhas, como esperamos, afinal essa é uma área de corais. Mas nosso anfitrião na casa abandonada nos orientou a ir numa pequena enseada logo ali do lado, onde poderíamos cair no mar com mais tranquilidade.

O mar do caribe colombiano.
Caño Ratón
O mar do caribe colmbiano.

Seguimos pelas pedras em direção ao local onde mergulharíamos, mas fomos interceptados por algo que simplesmente nos deixou fascinados. A mansão não tinha apenas aquela estrutura que havíamos visto na parte alta da construção. Também ali embaixo, praticamente dentro d´água, um conjunto de pequenos apartamentos cada um deles com dois quartos, sala, cozinha e quintal a alguns passos do mar, compunham a estrutura do lugar. O fato de estarem completamente abandonados e invadidos pelo mofo e umidade, assim como pelo mato, deixava tudo com ares de uma decadência esplendorosa, difícil de descrever.

Ruínas da casa de Pablo Escobar em frente ao mar do caribe colombiano.
Apartamentos de frente pro mar do caribe

Grafites na parede da casa abandonada de Pablo Escobar.
Saem traficantes, entram grafiteiros

Foi só depois de explorar cada cômodo, fotografar e nos impressionar cada vez mais, que seguimos para a pequena praia que fica exatamente ao lado desses apartamentos. Ali, uma pequena canoa nos serviu de suporte para nossos pertences e conseguimos dar o primeiro mergulho no mar colombiano, ironicamente numa praia outrora pertencente ao narcotráfico. Um mar de águas translúcidas e com infinitas tonalidades de azul e verde, que me fez sentir novamente nas praias cubanas, que ainda estão pra mim entre as preferidas do Caribe.

A praia do narcotráfico, onde tomamos nosso primeiro banho de mar na Colômbia.
A praia do narcotráfico, onde ironicamente tomamos nosso primeiro banho de mar na Colômbia

Enquanto estávamos ali, dezenas de lanchas lotadas de turistas passavam bem devagarinho em frente à construção e todos sacavam suas câmeras para fotografar a casa. Eles podem ter a foto, mas não sentirão a dimensão que é estar ali naquele lugar com os porcos, os mendigos e o mofo. Vantagens que só usufrui quem se arrisca a desbravar os lugares para além do turismo de massa.

Primeiro mergulho no mar colombiano, na praia de Escobar.
Primeiro mergulho em mar colombiano
Nativos da Isla Grande em frente à casa de Pablo Escobar, no Caribe Colombiano.


Apenas quando já estávamos aqui no Brasil, poucos dias depois de termos assistido a série Narcos com o ator brasileiro Wagner Moura, que descobri, por puro acaso, que aquele lugar decadente e, ao mesmo tempo, fascinante era vinculado ao narcotráfico. Foi quando me vi questionando que mundo incongruente esse que vivemos, onde a criminalização do uso de drogas gera tanto caos e morte. O filho do Pablo Escobar, Juan Pablo Escobar, que recentemente lançou aqui no Brasil um livro sobre seu pai, traz em sua fala algo a se pensar. Segundo ele, o que cria os traficantes é a criminalização das drogas e esta serve a interesses dos grandes produtores de armas, que estão fora da América Latina. Reproduzo um trecho de sua entrevista ao El Pais:


"A América Latina é a vítima da proibição. Os países que propõem essa ideia são os mais beneficiados. A proibição garante os altos preços, o que garante o financiamento da corrupção e a compra de armas. A América Latina não é um grande produtor de armas. Nós sabemos quem são os grandes fabricantes de armas. Os maiores produtores dos precursores químicos [produtos usados no refino da pasta base da cocaína], que permitem que a droga exista, não estão aqui. Estão na Alemanha e nos Estados Unidos. Como eles perdem esse produtos químicos em uma época em que existe rastreamento por chip, códigos de barras, etiquetas inteligentes... Mas mesmo assim ninguém sabe como eles desaparecem e depois aparecem nas drogas nas ruas. Quem quer a proibição prospera. Eles estão felizes, é um grande negócio." (entrevista completa aqui)."

Quando vemos, nas favelas e periferias brasileiras tantos jovens, em sua maioria negros, sendo mortos todos os dias, sejam por policiais, sejam pelos próprios traficantes (os pequenos, pois grandes narcos aprenderam com Escobar e hoje tratam de se esconder da mídia), me questiono até quando permitiremos isso. Até quando deixaremos que os dependentes de crack e cocaína sejam tratados como bandidos e não como doentes que necessitam tratamento. Até quando a dependência química será um caso de polícia e não um caso de saúde pública? 



4 comentários:

  1. Que história demais! Gente, adorei! :)

    E quem diria, Ana, invasora de mansões alheias, rs...

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    1. A verdade é que não tem nenhum respeito à propriedade privada, Camila! hahahaha
      Beijos

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  2. Respostas
    1. Oi, João Vitor! Não é difícil de achar, não. É só perguntar aos nativos onde fica a mansão (ou hotel) abandonado! ;)
      Um abraço

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