segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Núcleo Picinguaba: onde Ubatuba encontra o céu


Praia da Fazenda, no Núcleo Picinguaba do Parque Estadual da Serra do Mar, em Ubatuba.

Tenho verdadeiro encanto pelas infinitas e quentes praias do nordeste, mas os nordestinos que me perdoem, porque é aqui no sudeste, entre Paraty e Ubatuba na Serra do Mar que considero estar localizada o mais lindo trecho de todo nosso litoral brasileiro. Talvez, eu tenha um viés de seleção nessa escolha, já que cresci em Angra dos Reis e tenho em mim um coração caiçara, mas as inúmeras pequenas prainhas entrecortadas por morros e pedras e a geografia sinuosa dessa região dá a impressão de que a cada nova visita, descobrimos um lugarzinho novo.  E não foi diferente na nossa última estada na cidade, num fim de semana sem destino e de escapada de São Paulo, quando descobrimos um novo tesouro no litoral norte de Ubatuba, o espetacular Núcleo Picinguaba do Parque Estadual da Serra do Mar.

Praia de Puruba, vista na estrada rumo ao Núcleo Picinguaba, em Ubatuba
Praia de Puruba, vista da estrada

Saímos de São Paulo no meio da manhã e fizemos nossa tradicional paradinha em  São Luiz do Paraitinga (para matar a saudade da cidade que amamos e reabastecer nosso estoque da cachaça preferida do Thiago, a Mato Dentro). Descemos a serra e fomos direto para a Cachoeira do Prumirim recarregar as energias. Ainda não sabíamos onde nos hospedaríamos e chegamos a cogitar em ficar em Puruba, a nossa praia preferida na cidade, mas decididos a ver o pôr do Sol, demos uma pesquisada rápida do mapa e rumamos para onde supostamente o astro-rei se esconderia no mar. O plano acabou dando errado, pois erramos os cálculos, mas por outro lado, descobrimos a magia do lugar que viria nos servir de abrigo por todo o fim de semana, justamente o Núcleo Picinguaba.

Núcleo Picinguaba

O Parque Estadual da Serra do Mar existe desde 1977 e protege uma importante área de mata atlântica, que vai de Ubatuba até o município de Pedro de Toledo. O Núcleo Picinguaba é uma pequena fatia de seu território e compõe o parque desde 1979, tendo a importante característica de ser o único trecho que chega ao nível do mar, ocupando uma região que no período colonial fazia parte de uma enorme fazenda produtora de açúcar, justamente de nome Picinguaba. 
E foi justamente na Praia da Fazenda, onde fica a sede do núcleo que chegamos ingenuamente para assistir o pôr do Sol. Achávamos que ali poderíamos ver o Sol se pondo no mar, mas estávamos enganados e o entardecer acabou sendo atrás de uma das montanhas. Nada que diminuísse a beleza do espetáculo que assistimos, ainda mais diante da surpresa de ter descoberto aquele lugar incrível.

Praia da Fazenda, no Núcleo Picinguaba do Parque Estadual da Serra do Mar, em Ubatuba.
Praia da Fazenda

A Praia da Fazenda tem uma grande faixa de areia (se compararmos com outros trechos do litoral recortado dessas bandas) e é delimitada do lado esquerdo pela desembocadura dos rios da Fazenda e Picinguaba, que se encontram quase que ao mesmo tempo que encontram o mar, num belo espetáculo da natureza. Mas nesse primeiro dia apenas ficamos na região central da praia, onde é o acesso principal, pela sede do núcleo. Apenas alguns dias depois, conhecemos a tal boca dos rios, numa caminhada desde a Vila de Picinguaba, mas nessa ocasião não atravessamos, pois chegamos na maré alta e fomos informados por dois caiçaras que a travessia poderia ser perigosa, devido à maré. Evidente que os dois atravessaram à nado sem nenhuma dificuldade, mas nós realmente ficamos com medo e decidimos dar a volta pela estrada até o outro lado.

Boca dos rios Picinguaba e da Fazenda, no Núcleo Picinguaga do Parque Estadual da Serra do Mar, em Ubatuba.
Boca dos rios, na Praia da Fazenda
(foto do celular)

 Vila de Picinguaba

Descobrimos naquele primeiro dia, que na Praia da Fazenda só havia uma possibilidade de hospedagem: o camping do caracol, que tem uma autorização especial para funcionamento, já que o lugar existia antes mesmo da fundação da área de proteção ambiental. Mas não tínhamos barracas e o camping não era uma possibilidade viábel, então decidimos procurar hospedagem na parte mais habitada do núcleo, a Vila de Picinguaba, uma comunidade caiçara, que cresceu literalmente na encosta de uma montanha.
Foi difícil conseguir um lugar para pousarmos, mas depois de conversar com vários nativos, conhecemos a Binha, caiçara que aluga casas para turistas e tinha uma disponível ao lado da sua própria, no alto do morro. Foi uma canseira para levar as malas (e o violão), já que ela era uma das mais altas da vila, mas no fim valeu todo o esforço para chegar até lá. A casa tinha uma varanda enorme e deliciosa com uma vista privilegiada para a Praia da Fazenda e pra Vila de Picinguaba. Passamos ali boa parte do fim de semana, já que no sábado à tarde começou uma chuvinha fina que perdurou até o domingo, o que nos obrigou a ficar horas e horas ouvindo o barulhinho da chuva nas árvores e o cheiro da terra molhada, sentados naquela varanda de frente pro mar. E era tudo o que precisávamos para esquecer os problemas da cidade grande.

Vila de Picinguaba, vista do alto, próximo à casa que alugamos, em Ubatuba
Vila de Picinguaba
(vista das proximidades da casa que alugamos)

Na manhã seguinte à nossa chegada, enquanto descíamos as escadas até a praia, foi impossível não lembrar dos nossos dias em Calhaus, na Ponta da Joatinga de Paraty, quando ficamos numa vila caiçara muito semelhante à Picinguaba, mas com a diferença de lá o único acesso ser por barco, ou trilha. Aqui, a situação é bem diferente, já que uma multidão de carros chega na vila todos os dias para dali pegar um barco até a uma tal Ilha das Couves. Poucos turistas ficam efetivamente na pequena praia de Picinguaba, mas a quantidade de carros estacionados não deixa dúvidas: o turismo ali precisa ser repensado.

A Praia de Picinguaba, em Ubatiba com suas traineiras de pescadores
A pequena Praia de Picinguaba com suas traineiras de pescadores
Praia da Fazenda, no Núcleo Picinguaba do Parque Estadual da Serra do Mar, em Ubatuba.

Conversando com um funcionário do Parque Estadual (que também é nativo da região), descobrimos que há uma forte especulação na Vila de Picinguaba por parte de forasteiros que tem interesse econômico nas belezas do lugar. Por lei, apenas os nativos caiçaras que já habitavam a região antes da criação da área de proteção ambiental podem viver dentro do território do parque, mas mesmo sabendo disso, alguns caiçaras com dificuldades econômicas venderam ilegalmente suas propriedades e hoje quase todas as casas na parte baixa da vila são de turistas. Isso tem gerado um grande conflito com o parque, mas até agora nenhuma solução foi encontrada para o problema.

Nativos caiçaras em canoas, na Praia de Picinguaba, em Ubatuba.
Caiçaras em canoa

Quilombo da Fazenda de Picinguaba

Situação bem diferente dessa, vive o Quilombo da Fazenda, também dentro dos limites do Núcleo Picinguaba, mas localizado do outro lado da Rodovia Rio-Santos, portanto, longe da especulação desse turismo predatório. Ali, os nativos quilombolas conseguiram organizar-se de tal maneira a reivindicar melhorias do Parque, como a instalação da energia elétrica, que só chegou em 2007. Ali, houve também uma preocupação na preservação da cultura e tradição quilombola com o incentivo a projetos relacionado às danças ancestrais, principalmente o Jongo e o Fandango e da culinária típica da região.
Outro ponto importante dentro do quilombo é a Casa da Farinha, onde impreterivelmente está Seu Zé Pedro, mestre quilombola que recebe os visitantes acompanhado de sua fiel cadelinha. Ali, ele ensina a antiga técnica de preparo da mandioca até virar a farinha, usando um maquinário de engrenagens curiosíssimas. A prosa com o velho quilombola rendeu e ainda saímos de lá com seu livro de pequenos contos aprendidos durante sua juventude. Uma pena que a bateria da minha câmera tenha acabado e eu não consegui fazer nenhum retrato decente de Seu Zé Pedro. Quem sabe um dia não voltamos lá de novo pra corrigir isso...

Casa da Farinha do Quilombo da Fazenda de Picinguaba
Casa da Farinha do Quilombo da Fazenda
(foto do celular)

Existem ainda mais duas comunidades dentro do Núcleo Picinguaba, que não tivemos tempo de conhecer: um quilombo em Cambury e uma vila caiçara em Ubatumirim. Além disso, ainda na área do parque há a Praia Brava da Almada, considerada uma das mais lindas de Ubatuba, mas que só é possível chegar por trilha. E é claro que já estamos programando de voltar pra conhecer cada lugarzinho desses.


Informações Práticas

Como chegar?
Para chegar a Vila de Picinguaba é preciso sair no km 11 da Rodovia Rio-Santos e entrar numa estradinha de asfalto ruim, cujo fim já é a própria vila. A Praia da Fazenda também fica no km 11 da Rodovia, mas a saída é diferente da vila, portanto é necessário ficar atento às placas. 
Já a entrada do Quilombo da Fazenda fica no km 12 da mesma estrada, só que na direção do sertão e não do mar. 
De quem vem do centro de Ubatuba, a primeira entrada é a do quilombo, depois da Fazenda e por último da Vila de Picinguaba, todas pela Rodovia Rio-Santos.

Onde ficar?
Por ser uma área de preservação ambiental, não há muitas opções de hospedagem e mesmo as pousadas e hotéis da região funcionam de forma ilícita. 
O único camping autorizado é o Caracol, localizado na Praia da Fazenda. 
E há casas de nativos na Vila de Picinguaba para alugar, que foi a opção que escolhemos. Ficamos numa casa deliciosa com preço justo e o único senão foi ter que subir um morro pra chegar, mas nada que atrapalhasse. Alugamos com a Binha, que além dessa casa em cima do morro, tem outras disponíveis de pessoas de sua família.
Binha: (12) 98113-5513

Mas lembre-se que está indo para uma área de proteção ambiental, onde apenas nativos caiçaras podem viver. Respeite isso!

O que levar?
-Repelente é item de primeira necessidade! E mesmo usando bastante, ainda voltei toda picada.
- Guarda-chuva. Sim, Ubatuba não tem o apelido de Uba-chuva à toa e o risco de chover é sempre alto. E como a ideia por lá é largar o carro, ter uma sombrinha vai ajudar durante as pancadas de chuva.
- Em caso de hospedagem é bom programar refeições e, de preferência, levar comida e bebida. Há uma vendinha na vila, mas ela é bem mais cara que qualquer mercado. Há um bom restaurante na vila também, onde é possível almoçar e jantar com preço justo.


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2 comentários:

  1. Maravilha pessoal! Parabens pela reportagem! Eu gostaria de saber se e' permitido pescar neste local.

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    1. Puxa, Daniel! Agora você me pegou, porque não entendo muito de pescaria. Picinguaba é uma comunidade de pescadores e é comum ver os barquinhos saindo pescar, mas não sei se há alguma restrição, ou manejo...
      Talvez, na página do Parque Estadual você encontre alguma informação, ou o contato pra ligar e perguntar: http://www.parqueestadualserradomar.sp.gov.br/pesm/nucleos/picinguaba/
      Abraços

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