quinta-feira, 26 de novembro de 2015

O Jongo Tamandaré de Guaratinguetá

"Saravá jongueiro velho,
que veio pra ensinar.
Que Deus dê a proteção
Pro jongueiro novo
Pro jongo não se acabar..."
Jongo Tamandaré de Guaratinguetá

Aqui nos meus pensamentos parecia estranho que eu escrevesse sobre minha experiência com o Jongo Tamandaré num blog de viagem. Se ainda fosse o jongo de alguma cidade turística ou num lugar famoso, eu ainda teria um motivo, mas Guaratinguetá não é assim tão conhecida, apesar de fazer parte da Estrada Real e de ser a terra natal do Frei Galvão, nosso único santo brasileiro. E pra complicar o evento ainda aconteceu num bairro periférico da cidade, longe dos olhares da grande mídia e totalmente organizado pela comunidade local. Pois é, mas justamente por essas características autênticas e pela intensidade do que vivi ali, que decidi escrever sobre minha experiência absolutamente visceral com essa comunidade. A noite que passei na companhia daqueles jongueiros ainda reverbera em minha mente e me fez ter certeza de que valeu a viagem até esse cantinho único no Vale do Paraíba.
É por imenso respeito e gratidão aos mestres jongueiros do presente e aos já passados, que resolvi compartilhar aqui tudo que vi, ouvi e senti na noite de 27 de junho, enquanto assistia encantada a festa que guarda essa preciosidade da nossa Cultura Popular: o Jongo Tamandaré.

Guarantinguetá e o Jongo Tamandaré

Não, nós não conhecemos a casa do Frei Galvão, nem o memorial do Frei Galvão, nem a igreja onde Frei Galvão rezou sua primeira missa. Nada disso. Fomos mesmo para um bairro afastado do centro de Guaratinguetá e logo recebidos por um policial tenso de arma na mão e com cara de poucos amigos. Sim, Tamandaré não é um bairro nobre e me pareceu até mesmo um pouco violento. Mas (e sem nenhuma surpresa) é essa comunidade simples e nitidamente com muitas carências materiais que sedia um dos mais tradicionais grupos de Jongo do país e que carrega em seu nome o orgulho de sua comunidade.
Chegamos na cidade já quase de madrugada, vindos de Cunha onde efetivamente estávamos hospedados e fomos direto para o local da festa. Não foi difícil achar nosso destino, já que nas ruas todos caminhavam na mesma direção, justamente para o terreno baldio ao lado de um barranco, que seria palco do evento: a Festa Junina do Jongo Tamandaré.

Jongo Tamandaré de Guaratinguetá
Casal na roda de jongo

Jongo Tamandaré de Guaratinguetá

O Jongo

Apesar de aqui no Tamandaré a festa ser uma homenagem aos santos festeiros (Antônio, Pedro e Paulo), o festejo junino do Jongo é bem diferente do que estamos acostumados na tradição católica. Carregado de um forte significado religioso, o Jongo é de origem africana tendo sido trazido para o Brasil pelos escravos, principalmente do Reino do Congo (onde fica atualmente o território de Angola e República Democrática do Congo) da etnia bantu que tinham seus próprios deuses e crenças. Esses negros vinham trabalhar nas fazendas de cana-de-açúca e e café do Vale do Paraíba, onde viviam em senzalas, tendo apenas sua dança e música como forma de se expressar. Não à toa, a palavra jongo significa ponto de flecha, ou ponta de lança em kimbundu, uma das línguas bantu, justamente porque eram nos pontos do jongo que eles podiam fazer suas crônicas e críticas e se defender da opressão a que eram submetidos sem que os senhores de engenho e seus capatazes o compreendessem. Provavelmente, o significado da manifestação foi ajustado às práticas católicas, o que aconteceu com toda cultura africana que se miscigenou com a cultura portuguesa como forma de sobreviver.

Jongo Tamandaré de Guaratinguetá
Empoderamento negro: no Jongo tem! 

Jongo Tamandaré de Guaratinguetá

Mas tradicionalmente, o Jongo é um jogo de adivinhação com pontos cantados em tom de mistério e magia com significados sagrados. A dança se origina na tradição da umbigada, onde homem e mulher fazem jogos circulares entre si no meio de uma roda alternando-se de forma harmônica e ritmada, sempre remetendo-se à fertilidade. Saber entrar e sair da roda de jongo é uma arte e é o que caracteriza um bom dançante de jongo. Aprendi a dançar de um jeito meio mambembe, vendo outras pessoas dançarem, mas foi depois da experiência em Tamandaré que tive a primeira aula oficial do ritmo, no fabuloso Instituto Brincante (centro de referência no estudo da Cultura Popular Brasileira) com a querida Roseane Almeida. Foi ela, junto com o armorial Antônio Nóbrega, que fez o documentário que compartilho abaixo. O tema geral do filme é a especialidade do casal: as Danças Brasileiras, mas postei apenas a parte que trata do Jongo por ser mais adequado ao tema desse post. O vídeo foi feito no Jongo da Serrinha, no Rio de Janeiro e é importante ressaltar que são grandes as diferenças entre os dois grupos. O Jongo Tamandaré tem cantos próprios e até mesmo passos diferentes desses que assistimos aqui. Mas, em todo caso é uma boa introdução ao tema.


Mas o Jongo não é só a dança. Aliás, o coração dessa arte é mesma a música: tambores fortes, ritmo intenso, pontos e cantigas marcadas. Para os jongueiros, os tambores são sagrados e carregam toda a energia de seus ancestrais. Cada um que chega na roda de jongo, reverencia todos os tambores, tocando-os levemente com as mãos e fazendo o sinal da cruz, em outro curioso sincretismo religioso dessa cultura. Quem respeita a ancestralidade não entra na roda sem essa reverência.
Os tambores são artesanais e fabricados na própria comunidade, tendo sua afinação feito pelo calor, o que justifica a enorme fogueira que se forma sempre ao lado da roda. O tambor maior é chamado de Caxambu (aliás, muitos chamam o próprio ritmo de caxambu) e o tambor menor é o Candongueiro.

Afinação dos tambores no Jongo Tamandaré de Guaratinguetá.
Afinação dos tambores no calor da fogueira
(dois caxambus nas pontos e dois candongueiros no meio)

Jongo Tamandaré de Guaratinguetá
Tambores

O Jongo Tamandaré


A fogueira, diga-se de passagem, reina soberana na festa. Enorme, quente e vibrante ela aquece o inverno no Vale do Paraíba e anima os jongueiros na roda que se forma ao seu lado. Ainda sinto esse calor dentro de mim e não sei dizer se pelo fogo, ou pela intensidade do que vivi ali naquela noite.

Jongo Tamandaré de Guaratinguetá
A imensa fogueira

A festa começa com a reza para os santos festeiros, sempre organizada pelos herdeiros culturais de Dona Mazé e Tia Fia e só depois os jongueiros vão para terreiro.  Enquanto isso, a enorme fogueira vai afinando os tambores até que os tocadores chegam e se armam para começar. Logo alguém traz uma garrafa de cachaça e derrama o líquido no chão, formando um círculo que demarca a roda. Essa é a forma de saravá (saudar) os ancestrais e delimitar o espaço onde as entidades podem atuar. 
Logo alguém puxa o primeiro ponto:

"Eu vou abrir meu Congo ê
Eu vou abrir meu Congo á.
Primeiro eu peço a licença
pra rainha lá do mar 
Pra saudar a povaria
Eu vou abrir meu Congo ê..."
A partir daí, o que vivemos é inenarrável. Uma sucessão de pares que se alternam na roda com seus movimentos harmônicos e vigorosos, enquanto os cantadores puxam os pontos e os tambores vibram com intensidade. Não há intervalo, nem descanso. Em alguns momentos, os tocadores se revezam e os cantadores também, mas a toada é mantida sempre no mesmo ritmo incansavelmente, durante toda a madrugada. A expressão cachueeeera entoada pelo cantador é o sinal para que os tambores parem por breves instantes, apenas para logo um novo ponto começar, assim como a dança. O casal que termina o ponto dentro da roda, continua ali e inicia a nova umbigada agora com um detalhe: de acordo com a tradição, a mulher está mais fértil e poderá engravidar em breve. O som do tambor parece entrar não só pelos ouvidos, mas também pelos pés, pelo peito e pela alma. 

Jongo Tamandaré de Guaratinguetá
Transe jongueiro

Os moradores da comunidade e líderes do Jongo se preocupam com cada detalhe e oferecem vários quitutes como quentão, cachorro-quente, milho-verde e a a deliciosa canelinha, que alimentam e dão energia para a longa noite de festejo. É lindo de ver desde velhinhos até crianças pequenas dançando e lutando pela preservação dessa tradição que se mantém quase inalterada há mais de cem anos ali naquele mesmo lugar.
Não consegui gravar a festa, mas encontrei vários vídeos no Youtube e escolhi esse que compartilho abaixo, que traz depoimentos importantes de antigos mestres que falam de sua arte.


Minha experiência em Tamandaré me deu a certeza de que o Jongo não é só uma dança, ou uma música; é, isso sim, uma experiência de entrega e quase transe, que eu não esquecerei jamais. Saravá Dona Mazé e Tia Fia. Saravá Totonho e Togo. Saravá Jefinho. Saravá à todos preto-velhos do Tamandaré. Saravá jongueiros novos. Pro Jongo não se acabar.

Informações Práticas



Quando? 
O Jongo Tamandaré faz apresentações públicas eventuais ao longo do ano, mas a festa principal ocorre, em geral, nos finais de semana de junho de cada da ano.

Onde?
Guaratinguetá fica no Vale do Paraíba a 178 km de São Paulo. A reza se inicia sempre por volta das 21h na Rua Tamandaré No. 661, na casa das organizadoras do evento e depois todos seguem para o terreno baldio no número 605 da mesma rua, onde acontece a roda e o batuque. 

Como saber as datas certas do evento?
Como a cada ano as datas mudam, certeza mesmo das datas da festa só temos entrando em contato direto com a Associação Quilombolas do Tamandaré, cujo fundador é um dos mais ativos jongueiros da atualidade, o Jefinho Tamandaré.
Mais informações na Fanpage do grupo no Facebook, nesse link


*Tive grandes dificuldades para fotografar o evento. Em partes, por estar com uma câmera simples e sem grandes recursos, mas em maior parte por estar completamente envolvida com a festa e sem conseguir concentração para mais nada além de admirar aquilo tudo.


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