quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Santana de Parnaíba, um refúgio colonial na megalópole

"Tuas ruas e casinhas
Coloridas como em guache
Céu azul e praças
Em cores não há quem ache."
Uma cidade pacata, com casarios antigos bem preservados e uma simpática pracinha onde os moradores se reúnem sem pressa pra prosear no fim de tarde. Essa é uma descrição que se encaixaria perfeitamente em muitas cidades brasileiras e, certamente, quase todas longe dos grandes centros urbanos. Mas uma delas foge à essa regra e mantém-se charmosamente interiorana mesmo estando localizada em plena megalópole paulistana e a menos de 50 km da capital paulista. Assim é Santana de Parnaíba com seu fabuloso conjunto colonial, considerado o maior do estado e que guarda na arquitetura e no ritmo de vida sua memória bandeirante.


O Centro Histórico de Santana de Parnaíba

Basta uma caminhada descompromissada pelas ruas do Centro Histórico para logo nos apaixonarmos pelas casinhas coloridas e cheias de charme de Santana de Parnaíba. E não é por acaso. As 209 construções coloniais foram tombadas em 1982 pelo CONDEPHAAT e passaram, desde então, por um processo de restauração e preservação que conseguiu manter suas características iniciais (quase) intactas.

Santana de Parnaíba

Santana de Parnaíba

Esse tesouro colonial está concentrado em poucas quadras ao redor da Matriz de Sant´Anna, considerada o marco fundador do cidade, já que Santana de Parnaíba cresceu a partir da pequena Capela dedicada a essa santa, cuja construção data de 1580. Depois de uma grande reforma no século XIX, a antiga capela transformou-se na matriz que vemos hoje: uma grande e linda igreja com traços ecléticos e tons pastéis em sua fachada. Santa Ana, a avó de Jesus, é a padroeira da cidade e até hoje, no dia 26 de julho de cada ano é organizada uma grande festa em sua homenagem com a Procissão de São Cristóvão, padroeiro dos caminhoneiros.

Matriz de Sant´Anna de Santana de Parnaíba
Matriz de Santa´Anna

E a presença de São Cristovão nessa festa não é por acaso. Santana de Parnaíba foi lar de muitos bandeirantes que desbravaram o Brasil, como Anhanguera, Fernão Dias, Raposo Tavares, entre outros. Esses corajosos homens abriram as primeiras estradas na região e muitas delas hoje tem seus nomes e são percorridas por milhares de caminhoneiros diariamente. Apesar de certa mistificação desses personagens históricos, não nos enganemos: os bandeirantes tiveram papel central na escravização de índios, combate aos quilombolas e exploração dos sertões brasileiros à procura de metais preciosos. Estão, portanto, longe de ser heróis.

E para os bandeirantes, Santana de Parnaíba tinha uma posição privilegiada na região, servindo de ponto de partida de inúmeras bandeiras para o Oeste Paulista e para o Mato Grosso. A pequena fazenda de Susana Dias (neta do famoso Cacique Tibiriça), construída às margens do Rio Tietê e próxima à Cachoeira Parnaíba transformou-se, então, uma importante vila, que chegou até mesmo a competir em importância com São Paulo, mas que foi praticamente abandonada após o fim das bandeiras paulistas. Apenas no século XX, a cidade voltou a ser lembrada, quando a Light decidiu construir, em suas nas proximidades, a primeira Usina Hidrelétrica da região.

E foi justamente os séculos de ostracismo a que a cidade foi submetida que permitiu que em pleno século XX, seu Centro Histórico estivesse preservado, como o encontramos hoje. O desenvolvimentismo paulistano que tanto valoriza o moderno, mesmo que às custas da destruição do passado, não chegou aqui. Ainda bem.

Santana de Parnaíba

Santana de Parnaíba
Arquitetura colonial

Toda essa história pode ser conhecida nos museus da cidade que ficam em típicos casarões coloniais, nos permitindo ver por dentro detalhes da arquitetura colonial. O principal deles é a Casa de Cultura, um casarão construído em taipa de pilão e pau-a-pique e datada do século XVII. O sobrado é um típico exemplo de arquitetura bandeirista urbana, sendo a única nesse estilo em todo o estado de São Paulo. Por esse motivo, a casa foi tombada pelo IPHAN em 1958.

Santana de Parnaíba
Casa de Cultura

Além de possibilitar a observação de detalhes da arquitetura com suas portas altas e elegantes balcões, a visita ao museu também reserva boas surpresas sobre a história e as festas populares já tradicionais na cidade, que comento mais a frente nesse post.

Ao lado e em contiguidade à Casa de Cultura fica o Museu Casa de Anhanguera, local onde nasceu esse famoso bandeirante e que também é tombado pelo IPPHAN. A construção nitidamente é mais simples do que a anterior, mas guarda preservada suas características e é possível ver ali o mobiliário da época.

Santana de Parnaíba

Santana de Parnaíba

Mas o lugar mais gostoso da cidade, na minha opinião, fica mesmo na pracinha principal, onde um simpático e peculiar coreto é a atração principal. O Coreto Maestro Bilo, construído em 1892 em homenagem a parnaibano Severino Dóglio, o Maestro Bilo e tem um charme todo especial, localizado bem no meio da pracinha e envolto por árvores e flores coloridas.
É aqui o ponto de encontro dos moradores da cidade e também dos turistas. Restaurantes, cafés e bares rodeiam a praça e convidam a ficar na cidade sem pressa.

Coreto Maestro Bilo, em Santana de Parnaíba.
Coreto Maestro Bilo

Festas Populares de Santana do Parnaíba

Além da festa em homenagem à santa padroeira da cidade que citei antes, alguns outros festejos ocorrem em Santana Parnaíba ao longo do ano. O mais famoso deles é, sem dúvida, o Corpus Christi, considerado o maior do estado. As ruas da cidade ficam ornamentadas com os coloridos tapetes de serragem, pó de café e casca de ovo, por onde passa a procissão no fim do dia. 
É claro que os tapetes daqui são mais simples do que os que vi, por exemplo, em São João del Rey, mas não deixam de ter sua graça e beleza. Fui duas vezes ver a festa e me emocionei nas duas ocasiões. A cidade se enche e os moradores se mobilizam para fazer os tapetes ainda de madrugada, antes dos primeiros visitantes chegarem. Uma beleza simples e autêntica!

Tapetes de Corpus Christi em Santana de Parnaíba
Tapetes de Corpus Christi

Procissão de Corpus Christi passa em tapetes de Santana de Parnaíba.
Procissão de Corpus Christi

E ainda há também o Carnaval dos bonecões e samba de bumbo, que ainda não participei, mas que parece bem autêntico e divertido. Conta-se que tudo começou quando um antigo morador da cidade teve um pesadelo que lhe inspirou a fazer uma procissão com cabeções de almas e caveiras. Desde então, toda sexta de carnaval, o Bloco Grito da Noite (grupo folclórico de origem negra) sai com chocalhos, bumbos e muita música, mantendo a tradição acesa na cidade. É certo que irei conferir essa bagunça em breve, de preferência, no próximo carnaval.

Por fim, há que se destacar a importância de Santana de Parnaíba para o desenvolvimento do Samba de Bumbo, que nasceu com os escravos da cidade e se tornou uma das manifestações culturais mais tradicionais do estado. E, como não poderia deixar de ser, me despeço deixando um vídeo de um lindo samba de bumbo tocado por um grupo folclórico especializado nesse ritmo.



Mais fotos:


Santana de Parnaíba

Santana de Parnaíba

Santana de Parnaíba
Janela do Restaurante

Santana de Parnaíba

Santana de Parnaíba


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2 comentários:

  1. Apesar de ter morado um ano no Brasil, pouco explorei do estado de S. Paulo. EM parte, porque esperávamos ficar vários anos a morar aí, o que não se concretizou. Assim, nunca tinha ouvido falar de Santana de Paranaíba, que me parece adorável.
    Você divulga um Brasil menos turístico, menos visitado, mas muito apetecível.
    Grata pela partilha.
    Um abraço
    Ruthia d'O Berço do Mundo

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    Respostas
    1. São Paulo tem belezas escondidas e que mesmo os brasileiros desconhecem, Ruthia. Essa terra tem maravilhas que me fazem querer viajar mais e mais por aqui. Realmente, não sou fã de lugares muitos "turísticos" e prefiro os mais autênticos, onde posso estar próximo da cultura local...
      Obrigada pela visita aqui no blog! Fiquei envaidecida! Gosto muito d`O Berço do Mundo! :)

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