quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Delta do Tigre, paz e ar puro ao lado de Buenos Aires


Domingo no Delta do Tigre, saindo de Buenos Aires.

Nada como viajar e, de lambuja, ainda encontrar velhos amigos. Assim foi na nossa última estada na Argentina, quando visitamos o querido Nahuel, músico de um talento admirável e um dos melhores amigos do Thiago.  Desde que os dois se conhecem, mantêm a tradição de se visitarem ao menos uma vez por ano, mas nas duas últimas ocasiões, foi ele quem vem ao Brasil e nós estávamos devendo uma visita à sua casa, em Buenos Aires já tinha um tempo.
Há dois anos atrás, chegamos a cometer a loucura de fazer um bate-e-volta até Santa Catarina, em pleno verão (com aquele tradicional trânsito nas estradas do sul do país) para buscá-lo. Mas dessa vez, nosso encontro foi mais tranquilo e o máximo de esforço que tivemos foi uma viagem de trem desde Buenos Aires até a charmosa cidade de Tigre e depois um barquinho pelo delta até a casa de uma amiga do Nahuel, que nos recebeu com uma deliciosa parrilla argentina preparada às margens do rio. Foi um dia memorável ao som de tangos, chamamés e sambas, tocados e cantados ao vivo por todos, afinal os convidados e a própria dona da casa eram artistas. Um domingo pra não se esquecer jamais.
Domingo no Delta do Tigre, saindo de Buenos Aires.
Domingo de preguiça no Delta do Tigre

Esse post é especialmente dedicado à esses grandes artistas: Nahuel Arze, violonista e nosso mais que especial anfitrião na Argentina; Dodô, bandeonista francesa e nossa anfitriã no Tigre, Natalia Mancini, uma tremenda cantora de tango que me emocionou várias vezes nessa viagem, Aleparrillero e tocador de violão e Juliette, jornalista francesa. Gracias por todo, amigos!

Domingo no Delta do Tigre, saindo de Buenos Aires.
Detalhes do Delta

Entre Buenos Aires e o Delta do Tigre

Uma confortável viagem de trem nos levou de Buenos Aires até a cidade de Tigre e bem próximo da estação, já embarcamos numa lancha de nativos, que segue em direção às inúmeras ilhas fluviais do delta.
Sim, o Delta do Tigre (ou do Paraná) é formado por centenas de ilhas todas bem próximas umas das outras, sendo o Rio Paraná seu principal provedor. O delta inteiro ocupa uma área de mais de 17000km² e tem uma extensão de 320km, indo desde a província de Entre Ríos até Buenos Aires, onde desemboca no Rio de la Plata. Com toda essa dimensão, o Delta do Tigre é considerado um dos maiores do mundo e só não é tão famoso quanto o Delta do Parnaíba, ou do Nilo, pois não desemboca no mar. A cidade de Tigre é, portanto, uma pequena parte do delta com seus pouco mais de trinta mil habitantes, mas tem a peculiar característica da proximidade com capital federal do país e acaba atraindo muitos dos moradores de Buenos Aires que a invadem nos finais de semana.
Navegar pelas águas do Rio Luján, um dos afluentes do Rio Paraná, é certeza de passar por casarões à beira-mar e de clubes de campo dos ricaços portenhos.

Domingo no Delta do Tigre, saindo de Buenos Aires.
Navegando pelo Delta do Tigre

A região se desenvolveu com a plantação de frutas e produção de mel em suas inúmeras ilhas fluviais, ainda no século XIX, quando ferrovias foram construídas pelos ingleses para escoarem a produção até Buenos Aires. Ainda hoje a apicultura é a atividade principal dos nativos do delta, que tem um lindo trabalho de sustentabilidade nas áreas protegidas da atividade humana.
O turismo já teve seu auge em meados do século passado, quando floresceram hotéis e clubes campestres, mas teve um forte declínio na época da ditadura argentina e somente há alguns anos, os turistas voltaram a frequentar os rios e arroios do delta.

Claro que isso não foi sem consequência para o meio ambiente, já que as construções à beira-rio tem a estranha característica de terem suas margens bloqueadas por muros de concreto ou madeira, o que gera impactos importantes ao ecossistema, principalmente o aumento das ondas, quando da passagem de embarcações no rio. Na prática, é como se o Rio Luján, o mais próximo de Tigre tivesse se transformado num imenso canal e já não fosse mais um rio verdadeiro.

Domingo no Delta do Tigre, saindo de Buenos Aires.
Casa à margem do Delta do Tigre

Domingo no Delta do Tigre, saindo de Buenos Aires.

Domingo no Delta do Tigre

Para usufruir e conhecer os arroios e riachos mais naturais do delta, é preciso fugir do centro de Tigre e ir até onde os barcos de passeios não chegam. Foi o que fizemos na companhia de nossos amigos, indo para o delicioso Arroyo Rama Negra, onde a Dodó aluga uma casa de veraneio.
Pegamos uma lancha comunitária no centro de Tigre e fomos os últimos a desembarcar, depois de inúmeras paradas em outras ilhas. Em terra, uma agradável caminhada pelo arroio, sempre às margens do rio nos levou pra o destino final do dia.

Arroyo Rama Negra
Arroyo Rama Negra

Arroyo Rama Negra

A charmosa casinha que encontramos era uma típica habitação do delta. Construída em palafita, está preparada para as inundações sazonais da maré, bem comuns na região. Aqui, as barrancas do rio estão livres dos blocos de concreto e, portanto, o nível da água pode subir de acordo com as variações da natureza, sem impeditivos artificiais. Ao contrário dos casarões com seus muros de contenção nas margens do rio, aqui os nativos do delta vivem em harmonia com a maré, simplesmente adaptando-se às condições naturais. Sábios são eles que sabem que a natureza é soberana e indomável. E, provavelmente, cobrará seu preço por tanta interferência humana...

Domingo no Delta do Tigre, saindo de Buenos Aires.
"Nossa" casinha no Delta do Tigre

O igarapé em frente à casa completava a paisagem. De um marrom caudaloso e correnteza forte, ele ainda apresenta as duas margens bem arborizadas e com a imensa vantagem de ser próprio pra banho, ao contrário dos braços maiores do delta, onde passam muitos barcos e o banho de rio é proibido.
Eu e Thiago não sabíamos disso e não levamos roupa apropriada, diferente dos nossos amigos, que se divertiram em suas águas turvas, porém limpíssimas. E como se não bastasse, Dodó ainda tinha um caiaque, que foi meio de locomoção para a compra dos utensílios da parrilla e também serviu para divertimento de todos.

Domingo no Delta do Tigre, saindo de Buenos Aires.
Nahuel e Nati andando de caiaque em frente à nossa casa

O Ale, um dos amigos que lá estavam, é um mestre na parrilla argentina e fez pra gente um belo assado com carnes suculentas, que foram adequadamente acompanhadas de vinho e cerveja. E pra completar, o Thiago ainda levou cachaça brasileira e limão, que tinha sobrado da feijoada que preparamos na casa do Nahuel, na véspera. As caipirinhas renderam boas risadas, ao menos, pra mim.

Domingo no Delta do Tigre, saindo de Buenos Aires.
Parrila Argentina

Domingo no Delta do Tigre, saindo de Buenos Aires.
Juliette, Nahuel e Dodó

Depois da comilança e mesmo antes, a música tomou conta do jardim com os violões do Nahuel e do Thiago, mas também no bandoneón da Dodó e a linda voz na Natalia. Foi uma delícia estar ali naquele dia lindo de céu azul, rodeada por todo aquele verde e ainda ao lado de pessoas tão especiais.
Compartilho algumas fotos dessas pessoas lindas e da tarde inesquecível, que tivemos juntas.

Domingo no Delta do Tigre, saindo de Buenos Aires.
Nahuel e Dodó

Domingo no Delta do Tigre, saindo de Buenos Aires.
Nahuel

Domingo no Delta do Tigre, saindo de Buenos Aires.
No violão e churrasqueira, Ale

Domingo no Delta do Tigre, saindo de Buenos Aires.
Thiago, Nahuel e Nati



Informações Práticas:

Como chegar ao Delta do Tigre?
O jeito mais barato de chegar à Tigre é pegando o Trem Mitre na Estação Retiro, em Buenos Aires. 
A estação de trem  de Tigre fica próxima ao porto da cidade, onde quase todos os barcos estão atracados para seguir ao delta. Ali, é possível comprar o bilhete da lancha comunitária, conhecido como interisleña, que vai até o Arroyo Rama Negra, passando por várias ilhas.

Onde ficar no Delta do Tigre?
Existem hotéis e hospedarias, mas a melhor opção, na minha opinião, é alugar uma das casas típicas dos nativos do delta, onde é possível entender um pouco mais como eles vivem. Há algumas opções de chalés e cabanas sugeridas no link que deixo para o Blog Delta Nativo
Além disso, eu mesma separei as hospedagens disponíveis na cidade para reserva pelo Booking e, caso você reserve através desse link estará ajudando essa que vos escreve, já que tenho uma parceria com o Booking. Nenhuma tarifa à mais será cobrada de você e eu ganho uma pequena comissão pela reserva, que me deixará muito grata. 

O que levar?
-REPELENTE é item de necessidade básica no delta. Passamos nervoso com um mosquitinho microscópico que entrava dentro da roupa e me lambuzei de repelente até por cima da roupa pra me livrar desses chatinhos.
- Em caso de hospedagem, é importante programar refeições e, se necessário, levar comida e bebida. Mas há vendinhas e restaurantes, ao menos, no Arroyo Rama Negra.


Mais fotos:


Domingo no Delta do Tigre, saindo de Buenos Aires.
Centro de Tigre

Domingo no Delta do Tigre, saindo de Buenos Aires.

Domingo no Delta do Tigre, saindo de Buenos Aires.
Delta do Tigre

Domingo no Delta do Tigre, saindo de Buenos Aires.



Mais sobre a Argentina:



4 comentários:

  1. Olá Ana, as pessoas que encontramos nas nossas aventuras fazem toda a diferença. Estou certa que a viagem não teria metade do encanto sem as cantorias, a parrilhada e o caiaque dessa equipa. Que belo momento partilho connosco.
    Beijinhos
    Ruthia d'O Berço do Mundo

    P.S. já votei no seu blog, para a aventura em Kerala

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    Respostas
    1. Oi, Ruthia! Pois é! Pra mim, viajar é mais que conhecer lugares, é conhecer pessoas! Não é à toa o nome que escolhi para esse blog. Realmente, me encanta os nativos que encontramos ao longo do caminho.

      Ah, muito obrigada pela voto! Estou na expectativa!!! :)

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  2. Nossa, que relato delicioso! É tão legal quando o post é sobre um lugar que já conhecemos, parece que voltamos no tempo e estamos curtindo a viagem novamente.
    Muito legal mesmo!
    Beijos



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    Respostas
    1. Ei, July! Não sabia que vocês conheciam o Delta do Tigre. É uma delícia lá, né?
      Saudade de vocês!!! :)

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