quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

San Telmo, onde Buenos Aires é mais portenha

"Un mozo cantando endechas
A media voz, serenatas,
San Pedro González Telmo
Llorando al viento, campanas..."
San Telmo, onde Buenos Aires é mais portenha

San Telmo guarda as melhores recordações que tenho de Buenos Aires. Foi nesse charmoso bairro ao sul da cidade, que fiquei hospedada em minha primeira vez na Argentina, nos idos de 2006, quando ainda cursava a faculdade. Na ocasião, viajei junto de uma querida amiga, a Bia, uma baita companheira de aventuras juvenis e foi justamente nessa viagem que ela conheceu o Jurgeel, seu atual marido, que roubou minha parceira e a levou pra Bélgica, onde moram hoje com seus dois filhinhos. A história deles, aliás, é impressionante e prova mesmo que o amor está acima de fronteiras e idiomas. Nem a distância de um oceano separou os dois, que continuam juntos até hoje.
E, por pura coincidência, é também em San Telmo que mora o Nahuel, grande amigo meu e do Thiago e que nos recebeu em sua casa na última vez que estivemos na capital portenha. Foi uma delícia estar ali perto do burburinho das ruas de paralelepípedo e cheias de bares, dos casarões antigos e cafés com suas pinturas e desenhos fileteados. Foram dias memoráveis na companhia do querido Nahuel, ouvindo sua boa música, recheada de chamamés e milongas, no meu bairro preferido em Buenos Aires. Só tenho a agradecer pela calorosa acolhida, mi gente!

San Telmo, onde Buenos Aires é mais portenha

Era uma vez, em San Telmo...

San Telmo é um dos mais tradicionais bairros de Buenos Aires e para alguns historiadores foi na proximidade do Parque Lezama que a cidade foi fundada, em 1536. Inicialmente, era uma área de residência dos trabalhadores do porto, mas, aos poucos, foi sendo ocupada por famílias nobres e endinheiradas, que ali construíram enormes casarões que até hoje estão de pé, caracterizando a arquitetura colonial da região. Durante a invasão inglesa à capital portenha, ocorrida no início do século XIX, San Telmo foi ocupada pelas tropas anglo-saxônicas, que  deixaram alio grandes influências presentes até hoje na arquitetura, apesar da forte resistência protagonizada pelos moradores de então, que não aceitavam a ingerência da Coroa Britânica em seu território.

San Telmo, onde Buenos Aires é mais portenha

San Telmo, onde Buenos Aires é mais portenha

Uma das mais emblemáticas histórias dessa resistência foi protagonizada por Doña Martina Céspedes, que tomou doze soldados ingleses como prisioneiros. Ao entregá-los às autoridades argentinas, a brava patriota devolve apenas onze deles. Questionada sobre onde estaria o último dos homens capturados, ela respondeu que esse estava livre e era prisioneiro apenas de uma de suas filhas, que se apaixonara por ele.

Assim nasceu esse bairro tão peculiar, mas que viveu um longo momento de abandono após a epidemia de febre amarela, ocorrida no final do século XIX, quando os ricaços da região fugiram em direção ao norte da cidade, principalmente para a região do Delta do Tigre.

San Telmo, onde Buenos Aires é mais portenha
Prédio da Secretaria de Agricultura
(com forte influência neogótica)

Pelas ruas de San Telmo

Hoje, San Telmo não é mais o bairro abandonado de antes e ainda guarda preciosidades, que marcam a cidade, como os antigos e charmosos casarões do bairro, ou as placas em filete (pinturas típicas de Buenos Aires e que eu entrarei em detalhes no próximo post).

Aindo sobre os filetes, tenho a impressão de que onde mais eles ornam são nas cafeterias. E San Telmo as tem aos montes e em cada esquina. Muitos portenhos ainda mantém o velho hábito de passar longos períodos sentados nos cafés lendo o jornal, conversando, ou simplesmente deixando o tempo passar sem pressa. Essa é uma das atividades que mais me agrada na cidade, ainda mais que quase todos os cafés (e restaurantes, em geral) de Buenos Aires tem amplas janelas de vidro, que nos permitem sentir a claridade do dia e ainda ver o movimento nas ruas, o que me encanta verdadeiramente.

San Telmo, onde Buenos Aires é mais portenha

Nada como sentar num dos cafés de San Telmo e ler um livro sem pressa, enquanto observamos as conversas rápidas dos locais. Nessa última passagem pela cidade, Nahuel nos indicou um café quase na esquina de sua casa e lá eu passei algumas deliciosas horas comendo doce de leite, lendo e vendo o movimento. O Café Defensa não tem o mesmo glamour dos outros que ficam ao redor da Plaza Dorrego, mas tem a grande vantagem de ser frequentado pelos nativos, o que sempre me agrada.

San Telmo, onde Buenos Aires é mais portenha
Café Defensa

Mas a atividade mais prazeirosa em San Telmo, na minha opinião, é mesmo flanar à esmo por suas praças, vielas e ruas de paralelepípedo sem roteiro definido. A cada visita ao bairro, me perco propositalmente em suas ruazinhas e descubro um novo detalhe, uma nova fachada e um novo casarão que não tinha visto antes. E é essa sensação de descoberta e vida que eu tanto amo nesse bairro.

San Telmo, onde Buenos Aires é mais portenha
Paróquia de San Telmo avistada da Plaza Dorrego

San Telmo, onde Buenos Aires é mais portenha
Detalhe do MAMBA- Museu de Arte Moderna de Buenos Aires

Até porque basta caminhar um pouco para encontrar algum artista de rua, ou algum bar animado tocando música. Afinal, San Telmo é agitada a qualquer dia e horário. Mas a verdade é que nenhuma agito do bairro se compara com a movimentação de domingo, na badalada Feirinha de Antiguidades de San Telmo, que acontece na Plaza Dorrego faça chuva, ou faça Sol.

Nessa última estada em Buenos Aires, apesar da casa do Nahuel ficar do lado da praça, nós não fomos na feira. E o motivo foi justíssimo: passamos o único domingo livre na cidade no Delta do Tigre, junto de amigos queridos. Apesar de já ter ido em outras duas ocasiões à feirinha, não escreverei sobre ela nesse post, então compartilho o relato da adorável Camila Navarro sobre a sua visita lá, já que esse é um lugar imperdível para quem vai pela primeira vez à Buenos Aires.

Artistas de rua sempre presentes na Feira de San Telmo
(foto de 2006)

Apesar de não termos ido dessa vez, fizemos questão de voltar de Tigre ainda a tempo de participar do evento que eu mais aguardava nessa estadia: as comparsas (ou blocos) de Candombe, que desfilam pelas ruas do bairro sempre no domingo à noite, após a feirinha. Essa foi uma experiência tão especial e intensa pra mim, que deixarei para relatar em texto separado.

Mas tenho para mim que não é necessário ir na feirinha pra ter dimensão do quão charmosa e vibrante é San Telmo. Aliás, confesso que eu mesma prefiro caminhar por suas calles em dia da semana, quando há menos turistas e sentimos o bairro como nativos. E, de fato, é uma experiência autenticamente portenha ver as quitandas com as frutas expostas e as lojas de bairro vendendo produtos de necessidade diária e não só artesanato e bugingangas.

San Telmo, onde Buenos Aires é mais portenha
Banca de fruta pelas ruas de San Telmo

Outro lugarzinho delicioso no bairro e ainda bem perto da Plaza Dorrego é o clássico Mercado de San Telmo com seus arcos e vigas do século XIX e lojas de antiguidades, frutas e especiarias. Entrar ali é uma volta ao tempo, já que o lugar conserva sua estrutura original e no ano de 2000 foi declarado Monumento Histórico Nacional.

San Telmo, onde Buenos Aires é mais portenha
Mercado de San Telmo

San Telmo, onde Buenos Aires é mais portenha
Mercado de San Telmo

Isso sem contar com o delicioso Parque Lezama, que fica muito mais tranquilo fora do tumulto do domingo e onde é possível caminhar tranquilamente entre estátuas e jacarandás belíssimos. Ali uma escultura de Pedro de Mendonza, o fundador de Buenos Aires, é a atração mais vistosa, até porque parece ter sido bem próximo ao parque que foi fundada a cidade, como eu disse no comecinho desse texto. 

San Telmo, onde Buenos Aires é mais portenha
O adorável Parque Lezama

San Telmo, onde Buenos Aires é mais portenha
As tantas esculturas do parque...

Eu já havia estado no Lezama na primeira vez que fui à Buenos Aires, já que naquela ocasião havia ficada hospedada num hostel ali pertinho. Tenho ótimas lembranças do parque, que ficaram ainda melhores depois da tarde que passei com Nahuel e sua cadelinha por lá, dessa última vez. Cheguei a pensar em escrever um post só sobre esse lugar mágico, mas quando descobri um texto delicioso do Blog Aires Buenos sobre o Parque Lezama, decidi que era uma boa ideia compartilhá-lo aqui.

San Telmo, onde Buenos Aires é mais portenha
Nahuel e Negra

A boemia de San Telmo

Apesar da tranquilidade do Parque Lezama, San Telmo se nutre mesmo é de boemia e os tantos bares e restaurantes do bairro provam isso. Apesar de termos ficado na casa do Nahuel e ali já ter sido nosso reduto boêmio particular (com direito, inclusive à uma noite brasileira com feijoada e caipirinha, preparados por mim e Thiago), nós conseguimos também curtir um pouquinho da noite do bairro.
A mais memorável foi, sem dúvida, a da nossa despedida. Estávamos com Nahuel e Emma, grande amigo que fizemos em Cuba e que já havia estado conosco na noite da feijoada. Na noite de despedida, ele foi vestido a caráter com uma camiseta do MST que eu havia o presenteado (já que essa era a lembrança que ele queria do Brasil) e ainda nos presenteou com uma camiseta de seu sindicato, peronista que é.
E como se não bastasse, lá encontramos também outros amigos do Nahuel, todos músicos, e acabou que a noite virou um grande show de tangos, milongas e músicas folclóricas argentina. Inesquecível.

San Telmo, onde Buenos Aires é mais portenha
Nahuel, Thiago e Emmanuel

Tão inesquecível que o único vídeo que me lembrei de fazer foi esse que compartilho abaixo. A qualidade da imagem é deplorável, mas o som eu garanto que é de primeira. 


E assim é a San Telmo que eu tenho no meu coração e na minha memória. Esse bairro vibrante, intenso e autêntico, que pra mim é a síntese de toda beleza de Buenos Aires.


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3 comentários:

  1. Concordo com você, é difícil um bairro mais portenho que San Telmo. Uma Buenos Aires cheia de história :)

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    1. Não é, Sônia? Amo esse bairro! :)
      Feliz 2016 pra vocês!
      Bjos

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