quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

O Tango e a alma da música argentina

"El Tango es un pensamiento triste que se baila."
O tango e a música argentina

Não há quem viaje à Buenos Aires e que não queira ver uma boa apresentação de Tango. Alguns chegam mesmo a pagar caro em lugares como o Café Tortoni e outros locais famosos, onde se dança e ouve o famoso ritmo portenho, imortalizado por artistas Carlos Gardel e Astor Piazolla. Mas a bem da verdade é que a música argentina vai muito além do tango e ouvir ritmos como milonga, candombe, chacarerazambas e chamamés é a experiência mais autêntica que se pode ter com os sons desse país que é tão musical, quanto o Brasil. E pude sentir isso na pele, hospedada na casa de um grande músico (e amigo) correntino, especialista em música folclórica argentina. Os dias na casa do Nahuel foram de intensa e produtiva vivência musical e tudo que aprendi compartilho aqui nesse post.

Café Tortoni, famoso pelas apresentações de tango.
O famoso Café Tortoni
(foto de 2006)

Por mais estranho que pareça, o Tango surgiu de ritmos africanos e com forte influência de tambores, que se mesclaram aos instrumentos europeus e deram esse ar sensual e ao mesmo tempo clássico à música e à dança. A palavra tango parece ter origem na corruptela da palavra xangô, deus do trovão e das tempestades para os Yorubás nigerianos, mas também era um nome que esse povo dava ao tambor que usavam nos rituais. Ao que tudo indica, a habanera, o primeiro ritmo genuinamente latino-americano, vindo de Cuba, assim como o candombe, música dos negros escravos teve forte influência na constituição do que hoje chamamos tango, já no final do século XIX e ainda teve a introdução do bandoneón, no começo do século passado, pelos alemães. Aliás, é curioso pensar que esse instrumento que hoje marca tão dramaticamente a toada e caracteriza o tango que conhecemos, tenha sido introduzido tardiamente na história da formação do ritmo.

O Tango e a música argentina
Dois bandoneonistas em festival de rua

Inicialmente, o Tango era dançado apenas por homens, já que era considerado obsceno um casal dançar. Além disso, era tocado somente em prostíbulos nas periferias de Buenos Aires, em locais como o atual Parque Patrícios, Retiro, Avellaneda e outros locais do sub-mundo. Aliás, foi no Parque Patrícios que fomos, por sugestão do nosso querido Nahuel, no nosso primeiro (e único) sábado em Buenos Aires para participar de um festival local de tango. Tão local que haviam pouquíssimos turistas e a maioria era portenhos que foram até lá para dançar e ouvir boa música de graça. Foi uma experiência interessantíssima ver os casais nativos dançando sem a pose e a artificialidade das apresentações turísticas e eu achei ainda mais lindo e sensual vê-los assim sem flor na boca, ou roupas escandalosas.

Prática de Tango no Parque Patrícios
Um autêntico tango no Parque Patrícios, dançado por nativos

Isso sem contar com os lindos casais de idosos que simplesmente davam um show de agilidade e beleza com seus passos preciosos e graciosos, que eu ainda não tinha visto em nenhuma apresentação paga.

Prática de Tango no Parque Patrícios
A música e a dança 

Prática de Tango no Parque Patrícios
Fotografei esse casal a tarde inteira e me encantei por cada imagem deles

Foi uma tarde memorável em que não dancei quase nada, mas fotografei como se não houvesse amanhã. O cenário do Parque Patrícios, um tradicional bairro ao sul da capital portenha e berço do próprio tango ajudaram à me seduzir ainda mais.  O céu azul, a luz do fim de tarde, a música e aqueles casais simplesmente me encantaram. E isso sem falar da música excelente, que ia desde clássicos como La Comparsita, passando por milongas animadas.

Prática de Tango no Parque Patrícios
Tango de Tênis! :)

Prática de Tango no Parque Patrícios
"O Tango é um pensamento triste que se pode dançar."


Prática de Tango no Parque Patrícios
Assim é uma milonga de verdade...

Aliás, a Milonga também merece destaque. Mais alegre e com uma cadência mais rápida que o tango, ela é um ritmo, mas também é o próprio baile onde os portenhos reúnem-se para dançar, como a nossa gafieira brasileira. A milonga e o tango quase se misturam pelas ruas de Buenos Aires e é possível ouvir os dois ritmos com igual frequência.


É claro que eu gosto dos tangueiros mais famosos, como Carlos Gardel e Astor Piazolla, mas o bom de ter amigo argentino e músico ainda por cima é que descobrimos também a produção tangueira para além dos clássicos. Eu já conhecia a Orquestra Típica Fernandez Fierro e, por uma dessas coincidências do destino, havia estado num show deles no Auditório Ibirapuera aqui em Sampa, antes de conhecer o Thiago e o Nahuel e não é que os dois também estavam no mesmo show? O curioso é que alguns meses depois eu iria conhecer o Thiago. Mas, através do Nahuel, conheci também Edmundo Rivero e Polaco Goyeneche, que nunca tinha ouvido antes.

Prática de Tango no Parque Patrícios
Meu casal preferido na milonga

O que não é tão comum é a Chacarera, uma dança folclórica do noroeste da Argentina (e do chaco boliviano), onde os dançarinos vestem roupas campesinas com os homens de bombacha e chapéu, parecidos com os nossos gaúchos e as mulheres vestem longas saias rodadas que usam para dançar e que giram lindamente com seus movimentos. O sapateado marca a dança e os violinos junto com os tambores, chamados  de bombo leguero marcam o ritmo.

Outra dança folclórica argentina é o Zamba, que tem uma origem semelhante à chacarera e também usa os mesmos tambores e indumentárias, mas os dançarinos usam lencinhos nas mãos que movimentam com delicadeza e precisão ao ritmo da música num jogo de sedução do casal.
Eu não cheguei a ver nenhuma apresentação de chacarera e zamba, mas o Thiago foi à uma peña folclórica com o Nahuel e viu todas essas danças ao vivo. Sortudo!Aliás, as Peñas merecem destaque. Elas são locais onde músicos e dançarinos se reúnem para celebrar a tradicional música argentina e é um lugar dos mais autênticos para sentir-se como um nativo. Ainda não fui à nenhuma, mas é certo que está na minha lista de prioridades na próxima passagem por Buenos Aires.

Falando em música folclórica, não posso esquecer da especialidade do nosso amigo Nahuel, o Chamamé, ritmo típico de Corrientes, sua província natal. Seu ritmo tem forte influência criolla e guarani e é comum na região dos pampas paraguaios, do Rio Grande do Sul e até no Mato Grosso do Sul. De tanto ouvir o Nahuel e o Thiago tocarem chamamé, eu sei identificar de longe a batida no violão, mas não faço ideia de como toca e só sei que me parece difícil. A formação usual é de um bandoneón, acompanhando tipicamente dois violões. Nesse link, marquei um vídeo dos irmãos Rudi e Nini Flores, um dos melhores chamamezeiros argentinos, mas acho que ainda prefiro ouvir o Nahuel tocando ao vivo...




Informações Práticas

Onde ver e ouvir músicas típicas argentinas, em Buenos Aires?

A resposta para essa pergunta é quase infinita, já que são muitas as opções, desde as mais turísticas até as mais autênticas. Para resolver a questão pedi as indicações do querido Nahuel das melhores peñas folclóricas da cidade. Aí vão elas:
1- La peña del colorado, em Palermo com apresentações diárias de artistas famosos. Segundo nosso amigo essa é uma peña mais chique e cara. 
Endereço: Guemes 3657, Palermo
2- La peña del patio provinciano, mais underground, segundo o próprio Nahuel e que foi proibida de ser realizada no próprio patio, mas que agora é num espaço de difusão da cultura afrodescendente, em San Telmo, chamado Movimiento Afrocultural.
Endereço: Defensa 535, Barrio del Tambor, Montserrat
3- Mandiyú, peña dentro de uma pizzaria, que segundo o Nahuel é uma roda de cantores. Todas as quintas, acontece a Peña de Román.
Endereço: Sarmiento 3775, Almagro
Telefones: 4862-0229 e 4865-6431

Onde ver e dançar Tangos e Milongas?

Depois de conhecer a milonga do Parque Patrícios, eu não teria muita dúvida de indicá-la. É gratuita, democrática, com dançarinos de primeira e num lugar lindo. Todo sábado na Praça do Parque Patrícios, por volta- conte com a impontualidade portenha sempre- das 16h.

Mas aproveito para deixar outras indicações de quem mora em Buenos Aires e é da nata tangueira da cidade, num post completinho da Gisele Teixeira, no blog Aquí me Quedo sobre locais para dançar (e/ou ver os angentinos dançando) ao ar livre.
É, pois é. Não vou indicar show de tango. O motivo? Acho pouco autêntico. Mas a Gisele também tem a indicação de alguns.


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6 comentários:

  1. Fui lendo o seu texto embalada pelos violões dos seus amigos e quase me senti transportada . Se um dia for à Argentina e a Buenos Aires, voltarei para anotar todas as dicas.
    Beijinhos, uma linda semana
    Ruthia
    obercodomundo.blogspot.pt

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    1. Ah, Ruthia! Você irá adorar a Argentina! :)
      Uma boa semana pra você também!

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  2. estaria bueno ya que se husa las imagenes de la
    Practica Patricios dentro del marco del Festival Parque Patricios Tango Popular el cual organiza e la mencionen.
    aca dejo el link de la organizacion de este autentico tango argentino... lo demas es puro cuento

    https://www.facebook.com/practicapatricios?fref=ts
    https://www.facebook.com/festivalPPTP/?fref=ts

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    1. Creo que no se ha leído el texto, porque Practica Patricios fue citado en el post y hay allí un link al Facebook de ustedes. Por favor, lea el texto al final y verá la indicación de la Práctica, así como el link.
      Y, sí, el texto es un "puro cuento" de los bellos días que viví en Buenos Aires y fue muy bien recibido por todos. Yo quería con lo texto devolver todo el amor que he recibido. Vuelvo a preguntar, que leyó el texto cuidadosamente y darse cuenta de eso.
      Espero que entiendan mi mal español...

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  3. A foto do casal, olho no olho, é um espetáculo! Muito bom!

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    1. Sim, Maria Gloria!! Eles eram meu casal preferido e não cansei de fotografá-los! Tive que escolher algumas para o post, mas devo ter feito dezenas de fotos deles! rs

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