sábado, 27 de fevereiro de 2016

São, São Paulo, meu amor!

"Por mil chaminés e carros
Caseados à prestação
Porém com todo defeito
Te carrego no meu peito"
Pôr do Sol no Parque do Ibirapuera, em São Paulo

Foi num longínquo janeiro de 2008, que atravessei definitivamente a Rodovia Presidente Dutra de mala, cuia e um carrinho velho, saindo da antiga casa dos meus pais, em Niterói, chegando à São Paulo. Muitas travessias numa única estrada e nem eu mesma sabia o que me esperava, quando me mudei para essa cidade, que me ensinou a ser a pessoa que sou hoje. Desde então, uma relação de amor, mas também de muitos conflitos se estabeleceu entre mim e a essa selva de pedras grafitadas.
Caminhadas deliciosas na Avenida Paulista se misturavam à falta de ouvir o silêncio, já que aqui é impossível não escutar uma pulsação constante, audível mesmo na calada da noite. Aulas de fotografia e dança me permitiam fazer novos amigos, ao mesmo tempo que sentia falta de ver o horizonte livre, sentir a brisa do mar e respirar um ar melhor. Vieram experiências profissionais incríveis, ganhei amigos pra vida inteira e conheci o amor da minha vida. Tenho muito a agradecer à essa cidade e é na minha despedida (mesmo que temporária), depois de oito intensos e felizes anos, que dedico o primeiro post nesse blog sobre meus lugares preferidos na terra que já foi da garoa e quase virou sertão.

Eu não saberia classificar esses lugares em qual gosto mais, portanto a ordem que aqui se apresenta é meramente casual. Mas, preciso confessar, o primeiro da lista me desperta a gratidão por ter sido, incomparavelmente, o lugar que mais teve presente ao longo desses meus anos paulistanos.

1- Parque do Ibirapuera

Parque do Ibirapuera, meu cantinho verde em meio ao caos urbano da cidade grande
(foto do celular- 2015)

Meu refúgio e minha paz. Assim é o Parque do Ibirapuera do meu imaginário. Foi graças à esse lugar e à sua verdejante atmosfera que consegui viver tanto tempo longe do mar. Sem dúvida que o Ibira (para os íntimos) foi o local que eu mais frequentei na cidade, fosse para estudar ou praticar exercícios físicos, fosse para relaxar e esfriar a cabeça às margens de seu lago e à sombra de suas árvores. Eu e Thiago criamos o hábito de vir pra cá para conversar sobre os mais diversos assuntos, desde as atribulações trabalho, passando por planejamentos diversos e também sobre amenidades quase infantis em fins de dias intensos de trabalho. E é certo que aqui tomamos grandes decisões, inclusive a de que era hora de ficar um tempo fora de São Paulo. 

Parque do Ibirapuera, em São Paulo
Nem parece São Paulo, mas é...
(foto de 2009)

Sem dúvida que caminhar pelas trilhas daqui é o que mais ameniza minha vida na cidade grande, mas é bem verdade que, para além dos momentos de relaxamento e reflexão, passei outros tantos momentos inesquecíveis assistindo a inúmeras apresentações musicais (e de cinema) no área aberta da fenomenal Auditório Ibirapuera. Sem contar com os preços camaradas e a programação fabulosa do interior do auditório, que foi onde mais assisti shows na cidade (junto com os teatros do SESC). E só de estar naquela belezura de teatro com a arquitetura do Oscar Niemayer ao nosso redor com aquelas curvas vermelhas e tortuosas já vale o passeio.

Auditório Ibirapuera, em São Paulo
Lateral do Auditório Ibirapuera
(foto de 2009)

Ainda dentro do Ibirapuera, me encanta também o Pavilhão da Bienal, assim como o Museu Afro-Brasileiro, o MAM e  Oca, todos projetos do Niemeyer, assim como a linda Marquise branca que liga sinuosamente todos os projetos arquitetônicos do parque e foi recentemente reinaugurada para alegria dos skatistas e patinadores que lá se encontram diuturnamente.

Aliás, outro projeto do Niemeyer, ali do lado do Parque Ibirapuera merece destaque e é pra mim exemplo típico da dinâmica de São Paulo: o antigo prédio da DETRAN, que se transformou e hoje é parte do MAC-USP. Quando me mudei pra cidade, foi nesse prédio lindo que pedi minha transferência de CNH, mas São Paulo muda com rapidez e depois de poucos anos, o prédio virou museu, o que convenhamos é mais adequado pro lugar, que é simplesmente fabuloso. Aliás, foi ali no último andar desse prêdio que eu mesma elegi o Pôr do Sol mais bonito da megalópole, com vista para o skyline da cidade e para o verde do Ibirapuera. A foto abaixo (assim como a de abertura desse post) não me deixam mentir.

Pôr do Sol no Ibirapuera, em São Paulo.
É ou não é o pôr do Sol mais bonito de Sampa?
(MAC-USP com vista para a OCA e o Auditório Ibirapuera- foto de julho de 2015)

Informações Práticas do Parque Ibirapuera:

O parque funciona de domingo à domingo e nesses anos todos apenas uma vez o vi fechar ao público, após uma tempestade que derrubou dezenas de árvores, tornando perigosa a presença de pedestres lá dentro.
Os horários de abertura e fechamento de cada portão variam e isso é importante para quem visita-o muito cedo de manhã ou muito tarde da noite. Os horários são:
- Portões: 02, 03, 05 e 10, das 05h às 00h (os mais próximos das principais atrações, como a Oca, o Auditório Ibirapuera, o Pavilão da Bienal, entre outros)
- Portões: 04, 06 e 09, das 05h às 22h.
- Portões: 07, 08 e 09A, das 06h às 20h.
- Portão: 07A, das 07h às 17h.
(informações retiradas do portal da prefeitura de São Paulo, onde também é possível ver os ônibus que passam por ali e também a programação).

E para conhecer o parque de verdade e entender seu papel social e ambiental, vale a pena conhecer o Parque Ibirapuera Conservação, um organização que tem como missão cuidar e preservar um dos maiores patrimônios ecológicos da capital.


2- Avenida Paulista


Avenida Paulista, em São PAulo
Avenida Paulista numa noite onírica
(foto feita em frente ao Conjunto Nacional em 2010)

Sim, é clichê, mas a Avenida Paulista é mesmo a rua mais democrática da cidade e quiçá do país. Aqui, se encontram todas as tribos, desde metaleiros, passando por emos à gringos de todos os cantos e empresários de terno e gravata. Pelas suas amplas calçadas tocam músicos, que passam o chapéu por uma graninha extra e despretenciosa, mas aqui também ocorrem as grandes manifestações da cidade com amplas e diversas pautas, desde a comemoração de campeonatos de futebol, passando pelas históricas jornadas de junho de 2013 e outras mais recentes, como o pedido de impeachment da presidente Dilma Roussef. Aqui, o espaço é para todos, mesmo quando não concorda-se em nada com a pauta e essa é a beleza desse lugar.

E como se não bastasse essa pluralidade toda, a Paulista tornou-se ainda mais livre e humanizada para a circulação de pessoas aos domingos, já que agora a rua é fechada para os carros e os pedestres e ciclistas tem para si todo o espaço antes ocupado egoisticamente pelos automóveis. A avenida virou um grande parque urbano com todas as atrações disponíveis para serem exploradas.

Domingo na Avenida Paulista, em São PAulo.
E domingo a Paulista é liberada para os pedestres e vira um grande parque urbano

E atração aqui é o que não falta. Eu sou frequentadora assídua do Conjunto Nacional, onde o espaço público é respeitado mesmo dentro de um prédio, que permite a livre circulação de pessoas por suas galerias internas. E ali também fica a Livraria Cultura, que por mais que eu tenha algumas questões com a loja é sem dúvida um dos acervos bibliográficos mais completos do país.
O MASP também merece destaque com suas exposições permanentes e temporárias, além de uma bela arquitetura, que é um dos cartões-postais da cidade.
E, por fim, destaco a charmosa Casa das Rosas, um belo casarão em estilo colonial que persiste intacta e intacada em meio ao desmoronamento dos casarões vizinhos e construções de arranha-céus ao seu redor.


3- Praça Roosevelt

Quando me mudei pra São Paulo, a Praça Roosevelt vivia um momento de transição. Ainda era um tanto quanto perigoso andar por suas redondezas, mas ali já estava instalado os grupos teatrais Satyros e Parlapatões, que brilhantemente passaram a integrar em suas peças muitas das travestis que antes se prostituíam na praça, o que evidentemente ajudou na mudar o clima da região e teve papel fundamental na revitalização que sofreu o lugar após a reforma feita pela prefeitura em 2012. A reforma oficial plantou árvores, mudou a iluminação e permitiu que a praça voltasse a ser frequentada sem medo. Principalmente, nos fins de tarde e noites de verão, é simplesmente uma delícia caminhar pela praça e tomar uma cervejinha num dos inúmeros bares que abriram por ali.
E como se não bastasse, é comum encontrar grupos de amigos fazendo um som com violão, entre os quais o Thiago que adora ir pra lá tocar com o povo.

Praça Roosevelt, em São Paulo
Apresentação ao ar livre, em plena Praça Roosevelt
(foto de 2010, antes da revitalização)

Vale ressaltar que o Grupo Satyros, apesar de existir desde a década de 80, inaugurou seu espaço na Praça Roosevelt em 2000, onde funciona até hoje com excelentes peças, quase sempre satirizando vários tabus e encenando muitas peças do Marquês de Sade. O grupo organiza também um dos mais impactantes eventos culturais da cidade: o Satyrianas, que acontece sempre no início da primavera, reunindo  ao longo de 78 horas centenas de artistas do teatro, música, dança, atualmente ocorrendo em vários locais.


Informações práticas:

A Praça Roosevelt fica entre a Rua Augusta e a Rua da Consolação, próximo ao famoso Edifício Copan, no centro da cidade. E é possível chegar de metrô, através da linha vermelha, na Estação República.

End.: Praça Roosevel, 222
Tel: (11) 3258-6345 ou (11) 3231-1954

End.: Praça Roosevelt, 158
Tel: (11) 3258- 4449 


4- Praça Benedito Calixto

Chorinho na Praça Benedito Calixto, em São Paulo
Na cadência bonita do samba...
(foto de 2015)

Sábado é dia de feirinha de antiguidade na Praça Benedito Calixto e, preciso confessar, não são os objetos antigos que mais me atraem ali. O que mais amo mesmo naquele lugar é a sortida praça de alimentação com comidinhas deliciosas de vários lugares do Brasil e do mundo e, principalmente, a agradável Roda de Choro que se forma a partir das 14h30 e sempre pelos veteranos Canário e Seu Regional e que sempre recebem convidados também talentosíssimos.

O Chorinho da Praça Benedito Calixto, em São Paulo
Chorão da nova geração
(foto de 2015)

Informações Práticas:
A Feira de Antiguidade da Praça Benedito Calixto fica em Pinheiros entre as Ruas Cardeal Arcoverde e Teodoro Sampaio e acontece todo sábado faça chuva, ou faça Sol das 9h às 19h. E a Roda de Choro rola das 14h30 às 18h30 no miolinho da feira, dentro da praça de alimentação. E o melhor: é gratuito.


5- Chorinho da Contemporânea

Chorinho da Contemporânea, em São Paulo.
A loja é contemporânea, mas os bambas são das antigas! :)
(foto de 2014, do celular)

Falando em Roda de Choro, impossível não lembrar da Contemporânea, o lugar mais autêntico para se ouvir chorinho em São Paulo, sem sombra de dúvidas. A loja mesmo abre todos os dias para vender seus famosos instrumentos musicais, mas aos sábados, lá no fundinho da loja, os melhores chorões da cidade se reúnem pra tocar e improvisar rodeados de caricaturas de bambas do calibre de Noel Rosa, Cartola, Pixinguinha entre tantos outros. Os músicos não param de chegar e vão se revezando na roda, que não tem intervalo e está sempre  se renovando. Ali se reúne a velha guarda do choro, mas também a nova geração, que aprende com os antigos. Bandolins, flautas, banjos, violões, pandeiros se harmonizam, como se tocassem juntos desde sempre e o resultado é o melhor chorinho que já ouvi na vida. Sem dúvida que estar ali é uma experiência verdadeiramente paulistana e, eminentemente brasileira.
Figuras consagradas do choro paulistano batem ponto na Contemporânea, como os próprios Canário e Seu Regional, que dali partem direto para a Praça Benedito Calixto. E isso tudo sem cobrarem absolutamente nada! Tocam apenas pelo prazer de estarem juntos, vivendo a música. Eis o mais autêntico espetáculo que pode existir, realizado apenas por amor à arte.

Chorinho da Contemporânea, em São Paulo.
A qualidade da foto é ruim, mas a música é de primeira!
(foto de 2014, do celular) 

Informações Práticas:

O chorinho acontece na Loja de Instrumentos Musicais Contemporânea sempre aos sábados das 9h às 14h.
End.: Rua General Osório, 46 Santa Ifigênia (A Estação de Metrô mais próxima é a Luz)


6- Instituto Brincante

O que dizer do Instituto Brincante? Pois pense num caldeirão cultural e pulsante, onde danças brasileiras, cultura popular, música erudita e brincadeiras (muitas brincadeiras!) se reúnem. Seus fundadores, Antônio Nóbrega e Rosane Almeida colocaram ali toda sua alma e alegria, construindo um espaço democrático e acolhedor, aberto à todos que queiram imergir no universo mágico da nossa cultura popular. Maracatu? Tem. Frevo? Tem também. Samba de roda? Opa. Cavalo Marinho? Sem dúvida. Caboclinho? Sim, senhor. Jongo? Mas é claro. Nossas tradições populares estão todas ali juntas, misturadas e muito bem representadas.

Instituto Brincante, em São Paulo
Antônio Nóbrega e Roseane Almeida (ao centro) comemorando 23 anos de sambadas e brincadeiras
(foto de 2015, do celular)

Antônio Nóbrega é um pernambucano que começou sua carreira musical tocando violino clássico e foi graças ao convite oportuno do admirável Ariano Suassuna para compor o Quinteto Armorial que Nóbrega se deparou com a grandiosidade da sua música e cultura popular. Tornou-se um grande estudioso e no meio do caminho conheceu e casou-se com Rosana, que acrescentou técnicas circenses e grande conhecimento de dança à sua experiência e juntos esses dois conseguiram fazer exatamente o que propunha Suassuna com o Movimento Armorial: unir o erudito ao popular, transformando manifestações aparentemente isoladas e desconexas em passos comuns e harmoniosos. Foi em busca de uma dança brasileira a partir dos diferentes movimentos, sons e ritmos e chegou no que vemos hoje, em sua companhia de dança: um balé brasileiro. 
O Brincante é, acima de tudo, uma escola. Ali, eu e Thiago fizemos inesquecíveis aulas de danças brasileiras com a própria Rosana e nos embrenhamos no mundo do cavalo marinho. Mas, além disso, o Brincante também é um espaço cultural, onde acontecem sambadas, brincadeiras, apresentações de dança e música sempre orbitando os temas da Cultura Popular Brasileira. Ali já assisti shows do Antônio Nóbrega, peças da Rosana, apresentações da Cia Antônio Nóbrega, além de apresentação de músicos e dançarinos ligados à cultura popular. E sempre saí maravilhada por tudo que vi.

Informações Práticas:

Em 2015, o Instituto Brincante sofreu sério risco de acabar, depois que o prédio que ele ocupava virou alvo da sórdida especulação imobiliária, que queria ali fazer um empreendimento, expulsando os ocupantes. Depois de uma intensa campanha nas redes sociais intitulada #ficabrincante, o instituto conseguiu arrecadar o dinheiro suficiente para comprar o terreno exatamente ao lado da antiga sede, onde atualmente está fazendo uma reforma. Muito em breve, a reforma acaba e o Brincante reabre para o público novinho em folha.

Mas isso não significa que a programação esteja parada e o jeito mais fácil de saber das atividades do instituto é pela Fanpage deles no Facebook, nesse link. O bom é que muitos eventos são gratuitos e, quando pago, são sempre preços populares. Também é possível saber mais do trabalho deles no site deles aqui

End: Rua Purpurina, 413, bem do burburinho da Vila Madalena.
Telefone: (11) 3816-0575

São Paulo
A Selva de Pedra, vista da Serra da Cantareira
(foto de 2013)

E essa é a Sampa que eu aprendi a amar, tanto pelas conquistas que aqui tive, quanto por esses lugares que fizeram parte da minha rotina, durante os últimos anos, mas principalmente pelas pessoas que aqui conheci e que deram sentido à tudo isso. Obrigada, São Paulo. Até breve!


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2 comentários:

  1. Que lindo post, Ana. As suas emoções parecem saltar do ecrã. Que este "até breve" seja feliz!
    Beijinho com saudades
    Ruthia d'O Berço do Mundo

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    Respostas
    1. Ruthia, sou muito grata à São Paulo! Tem seus problemas, mas também é possível garimpar preciosidades na cidade!
      Também sinto saudades!
      Beijinhos

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