quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Memórias afetivas do Centro do Rio

"O Rio de Janeiro continua lindo.
O Rio de Janeiro continua sendo..."
Centro Histórico do Rio de Janeiro

Por algum motivo freudiano, tenho grande dificuldade em escrever sobre lugares onde não sou turista e, sim, local. É curioso, pois quando viajo são justamente os nativos que mais me encantam, mas eu mesma acabo não valorizando o meu olhar como tal. É assim com São Paulo, onde morei por oito anos, mas quase não escrevi sobre a cidade. E é assim com Niterói e Rio de Janeiro, onde nasci e vivi durante a maior parte da minha vida e até hoje escrevi um mísero e tímido post
Mas meus tantos anos de análise tem me ajudado a elaborar essa questão e ano passado consegui até encaixar uma fugida para Angra dos Reis, durante uma viagem à Paraty para visitar a antiga casa dos meus pais e que relatei aqui. E, de fato, meu olhar sobre o Rio aos poucos (bem aos poucos) tem mudado e na minha última passagem pela cidade consegui fotografá-la e vivê-la de tal forma a poder escrever sobre o meu lugar preferido na antiga Capital do Império: seu Centro Histórico.
Pois é, aqui não haverão fotos de Ipanema, nem do Cristo Redentor. Haverão fotos e palavras das minhas lembranças juvenis de quando frequentava a região para estudar e acabava por descobrir cada cantinho, cada boteco, cada cineminha escondido e museu da região. Lembranças que foram se tornando doces em minha memória e que me motivaram, depois da última passagem pela cidade,  a escrever esse post.

Palácio Tiradentes, no Centro Histórico do Rio de Janeiro
Palácio Tiradentes visto do Paço Imperial

Era uma vez num Rio de Janeiro antigo...

O Brasil nasceu na Bahia, mas foi aqui no Rio de Janeiro que o país se consolidou como tal. É claro que  muito antes, estavam os índios, os verdadeiros donos das nossas terras, mas a verdade é que os tupis, tupinambás e tamoios que moravam no litoral brasileiro foram praticamente dizimados para a construção desse lugar que chamamos Brasil e para a construção de uma colônia aos moldes da Coroa Portuguesa. Nessa ocasião ainda existia no Centro do Rio de Janeiro, o finado Morro do Castelo, que foi demolido em 1921 para comemorar o centenário da Independência do Brasil, já que o morro nunca foi muito bem visto pela elite carioca por dificultar o escoamento de água e impedir a circulação de ar.

Estação das Barcas, no Centro Histórico do Rio de Janeiro
Estação das Barcas Rio X Niterói
(e as muitas lembranças de sua travessia pela Baía de Guanabara)

E nessa onda de construir e reconstruir, muito recentemente foi demolido também a famosa perimetral, um mega viaduto que corria paralelo ao mar ao longo do centro e que, de fato, tirava o charme dos casarios coloniais, praças e a própria vista da região. Eu me acostumei com aquele trambolho e foi muito curioso chegar na minha familiar Praça XV e ver a grande área livre que se formou sem o viaduto. E não demorou muito para eu descobrir prédios que nunca tinham me chamado atenção, além, é claro, da valorização da linda construção da Estação das Barcas que atravessam a Baía de Guanabara em direção à minha cidade natal, Niterói.

Centro Histórico do Rio de Janeiro
As belezas coloniais descobertas após a demolição da perimetral

A Praça XV e seus arredores

E foi ali pela Praça XV que iniciei minha caminhada nostágica pelo Centro do Rio, reconstruindo meus antigos passos juvenis. Passei anos frequentando o delicioso cinema do Paço Imperial, que costumava ter uma programação de filmes que fugiam do padrão cinemark e que muito me agradava. Ali também vi exposições excelentes, como a série que homenageava grandes compositores brasileiros, como Dorival Caymmi, Chico Buarque e Caetano Veloso, onde vários artistas plásticos eram convidados à fazer uma obra inspirada em alguma música desses gênios. Isso já tem mais de dez anos, mas as lembranças dessa experiência de misturas senestésicas até hoje reverberam na minha memória.

Paço Imperial, no Centro Histórico do Rio de Janeiro
A fachada frontal do Paço Imperial, vista da Praça XV

Dessa vez, a exposição não me atraiu muito, mas foi uma delícia passear pelas salas desse prédio, que já foi casa dos governadores e vice-reis da colônia e, depois, com a vinda de Dom João VI para o Brasil, se tornou local de despachos do rei e, por fim, foi convertido à Paço Imperial, após a independência do Brasil.

Não dá pra estar ali sem ser tomado pelas lembranças do tempo de escola, já que foi numa dessas salas, no dia 9 de fevereiro de 1822, que Dom Pedro I decidiu ficar no Brasil e não retornar à Portugal, no famoso Dia do Fico, contrariando as ordens da Coroa Portuguesa e iniciando assim o processo de rompimento com os grilhões europeus, que culminaria na independência do Brasil oito meses depois. Foi nessa ocasião, que uma das frases mais famosas de nossa história foi proferida:
"Se é para o bem de todos e felicidade geral da nação, estou pronto. Digam ao povo, que fico." (Dom Pedro I)
Foi aqui também, numa dessas salas, que a Princesa Isabel assinou a Lei Áurea, abolindo a escravidão no país, no 13 de maio de 1888. Por mais que, na prática, nosso país esteja até hoje longe de ser independente e que a Princesa Isabel fez apenas um acordo comercial, que estava longe de efetivamente dar conta da questão negra da época (que persiste até a atualidade), não dá pra negar que foram fatos que marcaram nossa história e também deram um ar de grandiosidade à esse lugar de arquitetura simples e colonial.

Paço Imperial, no Centro Histórico do Rio de Janeiro
O interior do Paço Imperial

Saindo do Paço, mas ainda pelas redondezas da Praça XV, fui impelida ao histórico Arco dos Teles, onde já tomei muitas cervejinhas em deliciosos fins de tarde, após uma semana de estudos intensos, já que meu cursinho pré-vestibular era ali nas redondezas. 

Arco dos Teles, no Centro Histórico do Rio de Janeiro
O histórico Arco dos Teles

O Arco foi construído ainda no século XVIII pela família Teles de Menezes, com o intuito de comunicar locais importantes da cidade, como a Praça do Carmo (atual Praça XV) à Rua da Cruz (atual Rua do Ouvidor). O imponente prédio o qual o arco fazia parte foi destruído num incêndio em 1790, restando apenas essa estrutura, que após isso deixou de ser frequentado pelos nobres da corte para ser reduto de malandros e boêmios, como aliás é também nos dias atuais.

Travessa do Comércio
(deserta numa manhã de quarta-feira de cinzas)

O Arco dá entrada a Travessa do Comércio, que numa preguiçosa quarta-feira de cinzas estava como na foto acima, completamente deserta, mas que normalmente é cheia de movimento e agito durante a semana. Caminhar por essas ruelas me causou uma nostalgia intensa, mas confesso que também certa apreensão, já que a falta de pessoas na rua, me deixou com uma sensação de insegurança que, infelizmente, é comum no Rio de Janeiro. Mas, mesmo assim, superei o medo e me embrenhei nessas vielas, curtindo os lindos prédios históricos, que já foram morada de bruxas (assim conta a lenda) e até da Carmem Miranda, que aqui morou, quando jovem e antes de ser famosa.

Centro Histórico do Rio de Janeiro
Caminhos do Rio...

A caminhada quase que inconscientemente me levou até um dos meus lugares preferidos do Rio, que fica no fim desse conjunto de ruelas: o Centro Cultural Banco do Brasil. Outro lugar de incontáveis visitas em tardes fugidias, durante meus primeiros anos de juventude e que me fazem ter por esse espaço um carinho mais que especial. Aqui participei de festivais de cinema, animação, teatro, além de tantas exposições em suas salas que circundam o ponto alto do prédio: sua linda cúpula, a mais democrática de todo o Rio de Janeiro. Democrática, porque o acesso é livre a todo e qualquer um que queria entrar ali, seja para fugir do calor escaldante da cidade, usufruindo de seu potente ar-condicionado (e, sim, eu já fiz isso algumas vezes), seja para tomar um café, ou ler um livro, ou até mesmo (veja só que ironia) para ver alguma exposição.

Centro Cultural Banco do Brasil, no Centro Histórico do Rio de Janeiro
A Cúpula Neoclássica do Centro Cultural Banco do Brasil

Ao lado do CCBB, fica outro lugar precioso: a Casa França-Brasil, primeiro prédio em estilo neoclássico do Rio de Janeiro e que é simplesmente esplêndido por dentro (mais do que por fora). Infelizmente, o museu ainda estava fechado no feriado de Carnaval, mas só de passar em frente, já matei minha saudade juvenil desse lugar mágico.

Logo ali do lado, me deparei com a monumental Candelária, ornando bem no meio da Avenida Getúlio Vargas, com os carros tendo que desviar o caminho para contorná-la. Ali aconteceram eventos importantes da nossa história republicana, como o famoso Comício da Candelária, ocorrido em 1983, quando eu ainda era uma bebê. Esse foi o evento mais apoteótico das Diretas Já, quando cerca de um milhão de pessoas ali se reuniram, pedindo o retorno das eleições diretas presidenciais e o consequente fim da Ditadura. Na ocasião, ocorreu a histórica apresentação da Fafá de Belém, cantando o Hino Nacional com a platéia em delírio.

Candelária, no Centro Histórico do Rio de Janeiro
Uma (das três) naves da Candelária

Outro evento que marcou a igreja, esse catastrófico, foi a Chacina da Candelária, quando oito pessoas (entre os quais, seis crianças) foram mortas por policiais militares, num crime covarde, que trouxe a tona a questão de mantermos uma polícia militarizada, num nítido resquício da Ditadura. Essa não seria a primeira, nem a última chacina perpetrada pela PM, principalmente contra a população preta, pobre e periférica, para quem o período ditatorial ainda não acabou até hoje.

Candelária, no Centro Histórico do Rio de Janeiro

A Avenida Rio Branco 


Da Candelária, segui para a badalada Avenida Rio-Branco, que está simplesmente um caos com as obras do monotrilho. A ideia era caminhar por essa rua, sempre agitada, que cruza o centro de ponta-a-ponta, desde a Praça Mauá até a Candelária, sendo banhada pelo mar nas duas pontas. Foi aqui, andando por essas ruas, ao redor de engravatados e pessoas apressadas, que me senti pela primeira vez adulta. Eu era apenas uma estudante, fazendo cursinho pré-vestibular, mas a sensação era de que eu estava em meio a gente importante e executiva. Essa sensação persiste até hoje, quando ando por aqui, mesmo num dia atípico, como foi esse.

Centro Histórico do Rio de Janeiro
Entre o Prédio do Amarelinho e o da Câmera dos Vereadores

Minha ideia era rever prédio caros à mim, como a Biblioteca Nacional e o Museu de Belas Artes, mas para meu azar a biblioteca está em reformas e o museu estava todo protegido por tapumes, provavelmente para impedir o vandalismo durante os blocos de carnaval. Aliás, quase todos os prédios histórico do centro estava assim protegidos e isso me deixou muito triste. Quando o Carnaval de Rua do Rio foi retomado, lá pelo ano de 2005, eu participei ativamente dos bloquinhos que desfilavam por aqui e não era necessária nenhuma proteção à prédios públicos. Muito pelo contrário, o que queríamos era justamente interagir com a cidade, como forma de exaltá-la. Uma pena que agora a massa amorfa que se tornou o carnaval de rua tenha mudado essa característica.

Para mim, interessada que estava em usufruir da beleza desses prédios, restou apenas o Theatro Municipal, que vamos combinar é o mais bonito do país, nessa construção magistral do início do século XX e que já foi palco de importantes apresentações. Só esse lugar mereceria um post à parte, mas como a ideia aqui é falar das minhas memória, vou me ater à sua fachada e deixar para falar de seu interior em outra ocasião.

Theatro Municipal, no Centro Histórico do Rio de Janeiro

Aqui na Cinelândia encerrei minha caminhada, não sem antes tomar uma cervejinha no tradicional Amarelinho, um dos bares mais famosos da cidade e dar uma passadinha rápida no adorável Cine Odeon, onde assisti incontáveis filmes durante minha juventude.

Uma tarde memorável que se encerrou com um lindo pôr do Sol e um animado (e pequeno, ainda bem) bloquinho de Carnaval, no Aterro do Flamengo para celebrar de vez minhas pazes com a cidade mais linda do mundo.

Pôr do Sol, no Pão de Açúcar
Uma foto tirada no Aterro do Flamengo, só pra dizer que teve Pão de Açúcar num post sobre o Rio! :)

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7 comentários:

  1. Lindo post!!! Fu ipro Rio quando era adolescente algumas vezes, mas preciso urgentemente voltar e o que mais quero conhecer é o centro histórico!

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    1. Obrigada, Fernanda! Pois é! A maioria das pessoas vão pras praias, mas o centro do Rio é imperdível também! Vale muito!
      Bjos!

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  2. Tô doido pra conhecer o centro histórico do Rio. Ainda não tive tempo.

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    1. Ah, mas então vá assim que puder, Deivson! É uma preciosidade!
      Beijos!

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  3. Que post completo, rico e interessante, pois fala da região central. Conheci e gostei, terminei a tarde, na Confeitaria Colombo. Gostei muito de navegar por aqui, voltarei.
    Te faço um convite a conhecer o meu blog, com prazer - http://farelascarpetta-mariagloriadamico.blogspot.com.br/
    Abraço!

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    1. Maria Gloria, a Confeitaria Colombo é uma maravilha, não? Um patrimônio do centro do Rio!
      Obrigada pela visita e já fui ao seu blog, que verdadeiramente me encantou! Também retornarei por lá para roubar algumas receitinhas! :)
      Beijos

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    2. Sempre um prazer, Ana, ter você lá no meu canto. Fique a vontade!
      Voltei e reli todo o teu post, muito rico, como já disse. E, não posso deixar de falar sobre a qualidade das tuas fotos, como são belas, parabéns!
      Beijos Ana e dias felizes.

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