quarta-feira, 30 de março de 2016

Madrid e seus três grandes museus

Estátua de Velázquez, em frente ao Museu do Prado, em Madrid

Não foi inocente nossa escolha de hospedagem em Madrid. Era certo: queríamos estar próximo ao Prado e tínhamos um motivo, ou melhor, três deles: os museus Reina Sofía, Thyssen-Bornemisza e, claro, o Museu do Prado. A estratégia deu tão certo que já no primeiro dia na cidade, ainda sob efeito da diferença de fuso horário, fomos caminhar sem muito compromisso pelas redondezas e, de repente e sem planejarmos, estávamos em frente ao lindo prédio que abriga o Reina Sofía. E que delícia essa experiência vivida em todos os nossos dias madrilenhos de esbarrar à todo instante por esses museus e por uma história viva e presente de quando Madrid era a capital do maior império do mundo. É sobre essa experiência de intensa vivência com a arte espanhola (e mundial) nos nossos dias em Madrid, que relato nesse post.


Museu Nacional Centro de Arte Reina Sofía

Ocupando o grandioso Edifício Sabatini, onde funcionava o antigo Hospital Geral de Madrid, o Museu Reina Sofía é uma uma maravilha arquitetônica daquelas de fazer babar qualquer apreciador de arte. Quando nos deparamos com o prédio, completamente por acaso, durante nossa primeira caminhada na cidade, não entendemos direito do que se tratavam aquelas imensas paredes de vidro (elevadores, em realidade) coladas à estrutura em estilo neoclássico do enorme edifício. Sequer sabíamos que ali era o museu e, curiosos, fomos investigar do que se tratava, quando nos surpreendemos de estarmos onde tanto queríamos estar em Madrid e sem nem perceber. É claro que não perdemos a oportunidade e entramos pra conhecê-lo, já que ainda demos a sorte de ir num domingo, dia de entrada gratuita. Nossa viagem já começava com o Universo conspirando a favor e não poderíamos estar mais felizes por isso. 

Jardim interno do Museu Reina Sofía, em Madrid
Jardim interno do Museu Reina Sofía

E como se não bastasse sua beleza exterior, o museu ainda guarda tesouros de artistas espanhóis do século XX, como Juan Gris, Salvador Dalí (que deixou sua herança ao governo espanhol e, por isso, tem aqui grande acervo), Juan Miró e Pablo Picasso. Sem contar com tantos outros artistas importantes como George BraquesFernand Léger, René Magritte, entre outros num acervo que vem crescendo exponencialmente. Crescendo tanto que, em 2001, foi necessário a ampliação do espaço, quando se construiu um novo edifício, chamado de Nouvel, nome do arquiteto que projetou a ampliação. Além disso, outros espaços foram sendo anexados ao museu, como o Palácio de Cristal e de Velázquez, no Parque del Retiro.

Palácio de Cristal, no Parque del Retiro, em Madrid
Palácio de Cristal

Mas, independente do tamanho do acervo, não há escapatória, a obra mais importante do Museu Reina Sofía (e, sem dúvida, uma das mais importantes do Modernismo) é mesmo aquela que está no segundo andar do Edifício Sabatini, onde todos os visitantes se aglomeram para ver: Guernica, de Pablo Picasso. É proibido fotografá-la e penso que seria mesmo difícil reproduzir em imagem o que é ver aquela obra ao vivo. Seus quase oito metros de extensão por três de altura já impressionam pelo tamanho, mas o conteúdo impacta ainda mais, carregado de um profundo sofrimento. Quando fecho os olhos e imagino a obra, vejo triângulos azúis sangrentos e lágrimas por toda parte.

Picasso pintou o quadro em 1937 sob encomenda do governo da República Espanhola, afim de retratar a sangrenta guerra civil em que o país se encontrava após a tentativa frustrada de um golpe militar para derrubar o governo com tendências de esquerda, que havia ganhado democraticamente as eleições. Em meio ao caos, a cidade de Guernica, no norte do país é bombardeada com ajuda de tropas alemãs e italianas, tendo como vítimas principais a população civil, que não tinha nenhum envolvimento com as causas da guerra. Esse foi o trágico evento que inspirou Picasso e deu origem à essa que é uma das mais importantes pinturas da história da arte. E o resultado é forte e trágico, como o evento que lhe inspirou. É impossível ver Guernica e não ser profundamente tocado pelo sofrimento que exala de cada parte daquele quadro. É uma experiência que transforma, não tenho dúvidas.

Reprodução de Guernica
Fonte: Wikipedia Commons

Com um conjunto de obras desse porte, o Museu Reina Sofía é daqueles lugares, cuja a visita é necessária e de preferência muitas vezes, como espero que seja pra mim, já que pretendo voltar (e em breve).

Informações Práticas:

O Reina Sofía fica aberto todos os dias, exceto terças-feiras com horários que variam com o dia da semana, mas em geral é de 10 às 21h. O valor do ingresso é de €8.
Entrada gratuita: domingo de 13h30 às 19h e em todos os demais dias da semana entre 19h às 21h (exceto terça que não abre). 
Mais informações na página oficial do museu, nesse link.

Museu Thyssen-Bornemisza

Esse museu de nome difícil de pronunciar e nada espanhol tem motivo de ser. O enorme e importante acervo aqui exposto veio da coleção particular da família Thyssen-Bornemisza, adquirida ao longo de sete décadas de dedicação ao lucrativo negócio de comprar e vender obras de arte.  Originária da Alemanha, mas com ramificações importantes na Holanda e Suíça, os Thyssen são grandes magnatas. Não tinham grande relação com a Espanha até que o Barão Han Heinrich casou-se com a espanhola Carmen Cervera, que se tornou conhecida no país como a Baronesa Thyssen. Grande apreciadora de arte, a baronesa tornou-se importante mecenas no país e teve grande influência na decisão de seu marido trazer para cá seu acervo, cobiçado por vários países no mundo.

Museu Thyssen-Bornemizsa
(Foto: Wikipedia Commons)

O acordo foi motivo de polêmica, já que o barão receberia do governo espanhol nada menos que cinco milhões de dólares por ano pelo aluguel do acervo, durante nove anos até a transferência completa para a Espanha de toda a coleção. E para recebê-la, o governo se preparou à altura e cedeu o Palácio Vilahermosa, em pleno Paseo del Prado, um dos edifícios mais bonitos dessa região.

É impossível andar pelos corredores do museu sem pensar como essa família conseguiu juntar tantas obras de arte em quantidade e qualidade. E que casa caberia tantas coisas assim? Provavelmente, em várias mansões espalhadas mundo afora. Chega ser um pouco angustiante pensar que tudo aquilo era de uma única família, porque é muito dinheiro concentrado com tão poucas pessoas, mas ao menos hoje podemos ter acesso ao que eles colecionaram por tantos anos.

Independente das reflexões geradas aqui, a visita ao Thyssen vale a pena. Organizada por ordem cronológica, é possível fazer um passeio pela história da arte desde o período gótico do século XIII até exemplares contemporâneos do século XX e ser surpreendido por obras de Rafael, Rubens, Caravaggio, Van Gogh, entre tantos outros. Uma visita, sem dúvida alguma, de encher os olhos.

Mais informações:

O Thyssen fica aberto de terça à domingo das 10h às 19h com ingresso no valor de €12. 
Entrada Gratuita: todas as segundas-feiras entre 12h às 16h com acesso ao acervo permanente.
Mais informações, na página do museu, nesse link

Museu do Prado


Museu do Prado, em Madrid
Museu do Prado

O que dizer de um dos mais importantes museus do mundo sem parecer piegas, ou repetitiva? Sim, valem as filas, a muvuca e a espera. Nunca vou esquecer da emoção (e de uma certa euforia) que me acometeu, quando me deparei com "As Meninas" de Velázquez, uma das obras mais importantes da arte ocidental e que é capa de tantos livros da história da arte que já li. Outro momento de frisson pra mim foi ver as obras do holandês Hieronymus Bosh, meu pintor preferido da vida, desde os tempos da faculdade, quando comecei a estudar a história da psiquiatria e descobri um de seus quadros, "A extração da pedra da loucura". A partir dali, comecei a pesquisar sobre o artista e fui descobrindo outras maravilhas, como "O Jardim das Delícias", um tríptico com uma infinidade de detalhes, que é a principal obra de Bosh e que também se encontra no Prado. Ver todas essas obras pessoalmente me encheu de alegria e aumentou ainda mais minha paixão por esse grande artista.

A Extração da Pedra da Loucura
(Hieronymus Bosh)
Fonte: Domínio Público

O Museu do Prado tem uma história pitoresca, por si só. Idealizado pelo Rei Carlos III, que sentia grande necessidade de fazer de Madrid um lugar com espaços urbanos monumentais, como outras capitais européias. A construção do fabuloso edifício se prolongou por muitos anos e acabou sendo interrompido, quando a França invadiu a Espanha. Com a guerra pela independência que se desencadeou, o prédio foi usado para fins militares, o que levou a quase destruição do lugar.
Foi com o estímulo de sua esposa, Maria Isabel de Bragança, que o Rei Fernando VII retomou as obras e, finalmente, levou à cabo a ideia inicial de fazer ali um lugar voltado às artes, que foi inaugurado em 1819, como um dos primeiros museus públicos da Europa.

A coleção inicial era basicamente do acervo real e da nobreza da época e, desde sua inauguração, ele tem se ampliado com doações, heranças e aquisições. O resultado é um prédio grandioso e uma verdadeira obra-prima da arquitetura neoclássica com paredes apinhadas do que de mais espetacular se produziu nas artes espanhola e mundial: Velázquez, Goya, El Greco, Brugel, Durer, entre tantos outros.

Visitar o Museu do Prado é mergulhar no que de melhor se produziu na arte ocidental e é uma experiência valiosa de fruição estética. Um lugar imperdível e arrebatador em Madrid.

Informações Práticas:

O Prado fica aberto de domingo à domingo das 10h até 20h (exceto domingos e feriados, que fecha às 19h) com entrada no valor de €14.
Entrada gratuita: todos os dias o Prado oferece duas horas de visita gratuita, sendo de segunda à sábado das 18h às 20h e domingo de 17h às 19h. É importante chegar com bastante antecedência para ser um dos primeiros da fila e aproveitar melhor essas duas horinhas.
Mais informações na página do museu nesse link.

As Meninas
(Velázquez)
Fonte: Wikimedia Commons

Como otimizar a visita aos museus madrilenhos?

Conhecer profundamente todo o acervo desses três museus não é tarefa simples e exigiria, provavelmente, uma vida inteira de dedicação. Certamente que uma única visita não é suficiente para nenhum deles, por isso, otimizar cada visita me parece ser a melhor forma de aproveitá-la. Para tanto, algumas estratégias simples funcionaram para nós e compartilho aqui:

1- Usamos e abusamos dos horários de entrada gratuita. Tanto (e principalmente!) por uma questão de economia, claro, mas também para ampliar as possibilidade de fazer mais de uma visita ao mesmo museu. Um roteiro que comece no domingo, pode incluir a entrada gratuita no Museu Reina Sofía (das 13h30 às 19h) e a  na segunda para aproveitar a entrada gratuita do Tyssen (de 12h às 16h). Já para o Museu do Prado, sugiro várias visitas no horário gratuito (já que apenas duas horas não são suficientes para conhecer nem as obras principais). Por isso, estar hospedado perto ajuda bastante. Se for para escolher um museu para pagar, eu escolheria, sem dúvida, o Prado.

2- Sobre as obras, é difícil estabelecer quais devem ou não ser conhecidas. Eu gostaria de ficar horas em frente de cada obra, mas isso exigiria uma vida lá dentro. Portanto, algumas estratégias são importantes para aproveitar o máximo das horas gratuitas de cada museu. É fundamental pesquisar sobre que artistas e obras estão expostos e escolher, dentro das preferências de cada um, quais serão priorizados. Uma boa opção é pegar o panfleto com as principais obras, que cada museu oferece logo na entrada e fazer uma caça ao tesouro por elas. Fizemos isso e deu certo, além de ser divertidíssimo. 


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2 comentários:

  1. Querida Ana. Sabe que ainda não entrei em nenhum dos três. É porque as minhas idas a Madrid são sempre numa escala de horas entre voos, e a visita à cidade fica sempre condicionada. Também acho que visitar a correr seria um desperdício... então tem sido adiado e adiado.
    Imagino que uma amante de arte esteja no paraíso, no meio desse trio de ouro.
    Beijinhos e até breve, espero
    Ruthia d'O Berço do Mundo

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    1. Que pena, Ruthia! Eu me senti no paraíso mesmo, principalmente no Prado, que tem alguma das obras mais importantes dos meus pintores preferidos.
      Vale estender um pouquinho a estadia em Madrid, na sua próxima vez por lá! ;)
      Beijo!

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