segunda-feira, 28 de março de 2016

Rio de Janeiro além do mar: o Museu da República

"(...) e saio da vida para entrar na história."
(Getúlio Vargas)

Tem algumas histórias que me tocam profundamente, mesmo que não tenham relação direta comigo, sinto como se as tivesse presenciado. Tenho isso com vários lugares, mas no Palácio do Catete essa sensação chega ao auge, por dois eventos que aqui ocorreram e que mexem com minha imaginação: o trágico suicídio de Getúlio Vargas, em 1954; e a interpretação, pela primeira vez na história, de uma música popular (e de uma mulher, ainda por cima: a admirável Chiquinha Gonzaga) num Salão Nobre e para um público aristocrático, em 1917. 
Um lugar como esse, que viu tantos fatos importantes e intensos, desde sua construção, quando ainda éramos governados por uma monarquia parlamentarista, é certo que merece ser descoberto. E é esse lugar, hoje sede do Museu da República*, tombado e protegido pelo IPHAN desde 1938, que será o tema desse post, o segundo sobre o Rio de Janeiro para além das praias e mar. O primeiro, sobre o Centro Histórico da cidade, está nesse link.

*Esse post faz parte da Blogagem Coletiva, promovida pela RBBV para o #MuseumWeek. Mais informações sobre o evento estão no fim desse texto.


Fachada do Palácio, vista de seus jardins

A construção do Palácio

O Barão de Nova Friburgo foi uma dessas figuras típicas da nobreza tupiniquim, já que não nasceu com nenhum título nobre e só depois de ter se tornado um fazendeiro bem sucedido na agricultura cafeeira, veio a ganhar o título de barão, concedido por Dom Pedro II. E o ilustríssimo cavalheiro realmente era endinheirado, tanto que construiu um dos mais belos palácios da capital do império, conhecido na época como Palácio Nova Friburgo, como uma referência óbvia ao seu dono. Quando de sua morte, seus filhos venderam o palacete para empresários que tinham o plano de construir ali um hotel. Porém com a Proclamação da República em 1889, esse plano ficou inviável economicamente, pela famosa crise do encilhamento, deflagrada no final do século XIX e que deixou a economia do país em frangalhos. O empreendimento faliu e após vários trâmites foi ofertado ao recém-nascido governo brasileiro, como pagamento de dívida. Foi, então, que em 1897 o lugar passou a ser a sede do governo brasileiro, que ocorreu até a década de 60, quando Juscelino Kubitscheck transferiu a capital federal para Brasília.

Hall de entrada do Museu

Enquanto foi o principal palco da vida política no país, o palacete fez por merecer e participou de importantes acontecimentos de nossa história recente, como as duas declarações de guerra (1917 e 1942), a implantação do Cruzeiro como moeda nacional, além do velório do presidente Afonso Pena. Mas dois eventos que aqui tiveram cabo me impressionam. Um pela ousadia, outro pelo drama envolvidos.


O suicídio de Getúlio Vargas

O drama eu já anunciei logo no início: o suicídio de Getúlio Vargas, no famigerado 24 de agosto de 1954. Esse trágico desfecho foi claramente precipitado pelo famoso Atentado da Rua Toneleros, realizado por membros da guarda pessoal de Getúlio e cujo o alvo era Carlos Lacerda, jornalista e um dos maiores opositores ao getulismo. Lacerda sobreviveu, mas um major que o acompanhava foi assassinado e evidentemente que a culpa recaiu sobre o presidente, que apesar de negar o envolvimento e se dizer traído, passou a sofrer forte pressão para renunciar. Foi em meio à essa crise (e também a uma crise política, já que havia uma forte oposição da mídia contra a figura de Getúlio), que o presidente atira contra o próprio peito, em seu quarto, no último andar do Palácio do Catete, deixando as seguintes palavras:

"(...) Meu sacrifício ficará para sempre em sua alma e meu sangue terá o preço do seu resgate. Lutei contra a espoliação do Brasil. Lutei contra a espoliação do povo. Tenho lutado de peito aberto. O ódio, as infâmias, a calúnia não abateram meu ânimo. Eu vos dei a minha vida. Agora ofereço a minha morte. Nada receio. Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na história."
Com esse ato fatal, Getúlio torna-se um mito nacional, como permanece até hoje, gerando amor e ódio na mesma intensidade Brasil adentro. É quase impossível ter uma opinião imparcial sobre  esse que é, inegavelmente, uma das grandes figuras de nossa história.

Detalhe do Salão Veneziano, local de recepção de visitas e onde ocorreu o polêmico sarau, em uma música popular (o "Corta-Jaca) de Chiquinha Gonzaga foi interpretada pela primeira vez num Salão Nobre

Chiquinha Gonzaga no Palácio do Catete


Mas, além de todo esse drama ocorrido no Catete, há outro acontecimento vivido aqui que me chama a atenção, esse mais alegre e motivo de comemoração: foi aqui, em 26 de outubro de 1926, numa elegante soireé que reuniu importantes figuras públicas, como senadores e diplomatas, que a então primeira-dama, Nair de Teffé, tocou ao violão o popular maxixe de Chiquinha Gonzaga, conhecido como Corta-Jaca e, pela primeira vez, a música popular foi ouvida num salão aristocrático e elitista. O evento causou um verdadeiro escândalo na época, já que a interpretação foi considerada uma quebra de protocolo e um desrespeito aos convidados. 
Diante do ocorrido, Ruy Barbosa, um dos grandes intelectuais brasileiros, que era senador na ocasião, chegou a se pronunciar em pleno Senado federal:
"Uma das folhas de ontem estampou em fac-símile o programa de recepção presidencial em que, diante do corpo diplomático, da mais fina sociedade do Rio de Janeiro, aqueles que deviam dar ao país o exemplo das maneiras mais distintas e dos costumes mais reservados elevaram o 'Corta-jaca' à altura de uma instituição social. Mas o 'Corta-jaca' de que eu ouvira falar há muito tempo, o que vem a ser ele, sr. Presidente? A mais baixa, a mais chula, a mais grosseira de todas as danças selvagens, a irmã gêmea do batuque, do cateretê e do samba. Mas nas recepções presidenciais o 'Corta-jaca' é executado com todas as honras da música de Wagner, e não se quer que a consciência deste país se revolte, que as nossas faces se enrubesçam e que a mocidade se ria!"

Detalhe do Salão Mourisco com decoração árabe e que tinha a função de ser área de lazer dos homens

Pois é, grande Ruy Barbosa. Toda sua erudição não foi capaz de perceber que essa música composta por uma mulher à frente de seu tempo, que ousou quebrar as regras de uma sociedade patriarcal, em que uma dama fazer música e (ainda mais música popular) era revolucionário. Chiquinha Gonzaga era também maestrina e tinha grande repertório erudito, mas com grande ousadia e liberdade, incorporou às suas composições ritmos diversos e plurais, tornando sua obra atemporal. E vale aqui ressaltar a coragem da primeira-dama, amiga de Chiquinha e outra mulher ousada, que não titubeou em misturar o popular e o erudito, em pleno Salão Nobre do Palácio do Catete. Momento histórico e motivo de grande orgulho dessas mulheres e desse lugar, sem dúvida alguma.

Detalhe do Salão Pompeano, utilizado para recepções

E caminhar pelos salões e corredores desse palácio é sentir toda essa história em cada parede. Entre colunas de mármore, lustres de cristal, vitrais, esculturas e quadros belíssimos, sou capaz de ouvir o estampido do tiro de Getúlio Vargas, misturado à música eterna de Chiquinha Gonzaga.


Jardins do Catete

Mas não é só no interior que esse lugar surpreende. Em seus jardins, que ocupam um espaço ainda maior que o próprio casarão, as esculturas se harmonizam com palmeiras imperiais e pequenos lagos e permitem um passeio delicioso quase em frente ao mar.
O projeto paisagístico do lugar realmente é encantador, mas o que mais me agrada mesmo ali é vivenciar o ritmo carioca com os idosos que ocupam seus banquinhos para tomar banho de Sol, ou as crianças que brincam em seu gramado sob o olhar atento de seus cuidadores. A vida continua a pulsar nesse lugar mágico, que sem dúvida é muito mais que um simples museu: é a própria encarnação da alma brasileira.

Jardins do Palácio

E é claro que eu não poderia terminar esse post de outra maneira, senão compartilhando essa composição libertária de Chiquinha Gonzaga, que ressoou não só nas paredes do Palácio do Catete, como em toda a sociedade da época, abrindo portas para as mulheres e para a cultura popular brasileira. Com vocês, o Corta-Jaca:




Informações Práticas:

Como chegar?
O Museu da República fica na Rua do Catete, 153 exatamente em frente à Estação Catete do metrô. Simples e fácil de chegar.

Quando ir?
O palácio fica aberto de terça à domingo, sendo que em dias de semana o horário é de 10h às 17h e nos fins de semana das 11h às 18h . A entrada custa R$6,00 com entrada gratuita às quartas e domingos.
Já o jardim fica aberto diariamente das 8h às 18h com entrada gratuita.

Sobre o #MuseumWeek e a blogagem coletiva:

O #MuseumWeek é o primeiro evento cultural global, promovido pelo Twitter, que acontece desde 2014 com a participação em twittadas de museus e instituições culturais do mundo inteiro. Em 2016, ele será entre 28 de março e 3 de abril com o foco na preservação e celebração da cultura mundial,  numa evidente resposta aos recentes ataques terroristas em Paris e Tunísia. 
A RBBV, Rede Brasileira de Blogueiros de Viagem, a qual eu faço parte, participa desse evento com uma já tradicional blogagem coletiva, onde cada blogueiros posta sobre seus museus preferidos. 

Outros museus descritos pelos blogueiros da RBBV nessa blogagem coletiva são:

Geral
A Fragata Surprise - Casas-museus: a vida cotidiana de gente muito especial
Despachadas - 5 Museus Interativos ao redor do mundo

Europa

Alemanha
Tá indo pra onde? - Ilha dos Museus
Viajoteca - 5 museus inusitados em Berlin
Pelo Mundo Com Vc- Museu do Holocausto ou Memorial aos Judeus Mortos da Europa
Já Fomos - Visitando o Campo de Concentração em Dachau
Pequenos pelo Mundo - Museus de Automóveis na Alemanha
A Li na Alemanha - Museu Mercedes-Benz

Bulgária
Escolho Viajar - Museu Nacional de História Militar
CroáciaRodinhas nos Pés - Museu Croata de Arte Primitiva

Espanha
Virando Gringa - Museo Atlantico
Comendo Chucrute e Salsicha - Museo de Artes y Costumbres Populares de Sevilla
Esto Es Madrid, Madrid - Museo de Altamira
Sol de Barcelona - Museu Joan Miro
FrançaViagem LadoB - Museé D'Orsay
A Path to Somewhere - Centre Pompidou
Destinos por onde andei... - Louvre
Direto de Paris - Musée Rodin
SOSViagem - Museu do Louvre X Museu d'Orsay
Apure Guria - Antigo Egito no Museu do Louvre: incrível!

Grécia
Viaje Sim! - Museu Arqueológico de Delos
Fourtrip - Museus de Atenas

Holanda
Novo Caroneiro - Sexmuseum

Hungria
Juntando Mochilas - Museu do Terror
IrlandaThe Life of isa - 4 museus gratuitos em Dublin

Itália
Passeios na Toscana - Palazzo Pitti
The Nat's Corner - Pinacoteca de Brera
Vou pra Roma - Museus do Vaticano
Roma Pra Você - Galleria Borghese
Grazie a Te - Corredor Vasariano

Reino Unido
No Mundo da Paula - Museum of London
Vamos Viajar - British Museum
Segredos de Londres - Victoria and Albert Museum
Mochilão Barato - Madame Tussauds
República TchecaTrilhas e Cantos - Museu do Comunismo
RússiaViajei Bonito - Museu da Vodka
Love and Travel - Museu Hermitage

Suécia
Viajar pela Europa - Museu Vasa

Suíça
Carta sem Portador - Fondation Gianadda

Turquia
Viagem a Dois - Palácio Topkapi
Travel with Pedro - Museu de Arte Islâmica e Turca

América do Sul

Argentina
Sonhando em Viajar - Buque Museo Fragata A.R.A. "Presidente Sarmiento"

Brasil
Coisos on the go - Inhotim
E aí, Férias! - Museu Imperial
Outro blog - Museu do Amanhã
#KariDesbrava - Museu Nacional de Belas Artes
O Melhor Mês do Ano - Museu do Futebol
Cantinho de Ná - Museu do Frevo
De Cá Pra Lá - Museu Palácio dos Bandeirantes
Viagens que Sonhamos - Fundação Iberê Camargo
Atravessar Fronteiras - CCBB - DF
Embarque neste blog - Museu Casa Guilherme de Almeida
Vida de Turista - Museu de Ciências e Tecnologia da PUC-RS
Mel a Mil pelo Mundo - Museu Julio de Castilhos
Devaneios de Biela - Museu Oscar Niemeyer (Museu do Olho)
Tirando Férias - Museu de Zoologia da USP
Viagem em Detalhes - Museu Catavento - Espaço Cultural da Ciência
D&D Mundo Afora - 9 museus no Brasil
Estrangeira - MAMuseu: Museu Histórico de Alcântara

Chile
Gastando Sola Mundo Afora - Museo Chileno de Arte Precolombino

Peru
De Mochila e Caneca - Museu da Inquisição

América do Norte

Estados Unidos
Família Viagem - Fernbank Museum of Natural History
Janela para o Mundo - Graceland
RenataPereira.tv - Bibliotecas e Museus presidenciais nos EUA
Aquele Lugar - Museu do Ar e Espaço
Fica Dica Viagens - Vizcaya Museum
Casal Califórnia - Museus no Balboa Park
Malas e Panelas - The Broad Museum
Felipe, o pequeno viajante - Museu de Anchorage, Alaska
Ideias na mala - Melhores Museus de San Francisco

México
Viagem de Fuga - Museu Frida Kahlo
Uzi Por Aí - Museu Soumaya
Eu sou à toa - Casa-museu da Frida Khalo e Casa-estúdio de Diego Rivera

Asia

China
Like Wanderlust - Museu Qin e os Guerreiros de Terracota

Vietnã
Brazuka - Museu da Guerra (War Remnants Museum)

Japão
A Aventura Começa - Museu Meijimura

Oceania

Australia
Coordenadas do mundo - Museu de Arte Contemporânea


26 comentários:

  1. Lindo! A gente acaba pensando que só na Europa que tem essas coisas, né? Completamente enganados... preciso voltar ao Rio pq só conheço o básico do básico - Cristo, Pão de Açúcar, Copacabana...

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    1. Pois é, Fernanda! O Rio tem lugares surpreendentes! Já vai programando u ma viagem pra lá, porque vale! rs
      Bjo!

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  2. Gente que lindo! Inspirador o seu post, um convite e tanto para descobrir um pouco mais e com muitos detalhes a nossa história!

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    1. Sem dúvida, Poliana! Conhecer a história é nossa principal arma! :)
      Bjo!

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  3. Não conhecia, mas fiquei curiosa. Boa pedida para os dias nublados sem praia.

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    1. Pois é, Gisele! Pros dias nublados, ou pra depois da praia! ;)
      Bjo!

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  4. O Palácio do Catete era meu "vizinho" no Rio (eu morava na Rua Paissandu, Flamengo) e esses jardins já me proporcionaram inestimáveis momentos de sossego. E a lembrança de Chiquinha Gonzaga "lacrou", como a gente diz na Bahia. Grande post, Ana :)

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    1. Também tenho lembranças muito agradáveis dos jardins (e do cinema) do Palácio, Cynthia! E Chiquinha Gonzaga "lacra" sempre! :)

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  5. Pensei mil coisas para escrever aqui, mas acho que a Cyntia já definiu bem, Grande post, Ana. Sensível e cheio de história :)

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    1. Obrigada, querida! O Museu da República mexe comigo (assim como Inhotim, que você descreveu tão bem)! :)
      Bjo!!!

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  6. Esse é um dos nossos museus favoritos no Brasil! O Palácio é demais... parece uma viagem no tempo! Ótimo post, as fotos estão lindas :)

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    1. Obrigada, Gabi. Você falou bem: O Palácio do Catete é mesmo uma viagem no tempo!
      Bjo

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  7. Que Museu lindo! Entrou pra minha wishlist!!

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    1. Vale muito a pena, Dana! Sem dúvida!
      Obrigada pela visita! :)
      Um bjo.

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  8. O Museu é demais, um show mesmo... Mas tenho que destacar as fotos, Ana, que estão de um bom gosto espetacular! Lindas!

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    1. Ah, querida, obrigada! Amo fotografia (foi uma das motivações pra eu começar o blog, aliás! rs).
      Bjo!!!

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  9. Amei o jardim!!! E as fotos!! Parabéns!

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  10. Que lugar lindo! E sua narrativa me deixou ainda com mais vontade de conhecer esse lugar tão importante na nossa história.

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  11. Ah, vale mesmo muito à pena, Luis Felipe!!!!
    Obrigada pela visita!
    Bjo

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  12. Eu pretendia conhecer o Museu da República na última vez que fui ao Rio, mas estava fechado por causa do Carnaval. Parece uma ótima visita, lindo!

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    1. Que pena, Katarina! Também fui nesse último Carnaval (na quarta-feira de cinzas, na verdade) e estava fechado. Mas não deixe de ir na sua próxima estada no Rio! ;)
      Beijos

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  13. Realmente esse palacete é lindo! Fui a muito tempo atrás e não me lembrava de como ele é incrível! Ótimas fotos!

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    1. Não é? Amo de paixão o Palácio e o jardim! :)
      Obrigada!
      Beijos

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  14. Adoro lugares com tanta história! Ainda mais com tanta história brasileira!
    Parabéns pelo post, muito informativo! :)

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    1. Obrigada, Carolina! O Palácio do Catete é pura história brasileira mesmo!
      Um beijo!

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