terça-feira, 10 de maio de 2016

Flamenco, a expressão da alma andaluza

Flamenco em Sevilha, na Andaluzia

Preciso confessar: uma das minhas grandes motivações para viajar é descobrir novas músicas e sons mundo afora. Antes mesmo de embarcar, já começamos a investigar manifestações culturais dos locais que vamos visitar e assim vamos fazendo uma imersão na realidade local e nos ambientando com a sonoridade da região. E isso não é (apenas) boemia. É também uma forma de entender a história e a cultura de cada lugar, já que as músicas típicas falam muito de como vivem os nativos, assim como de seus hábitos e tradições. 
Fazemos isso sempre, mas em poucos lugares isso foi tão forte e marcante, como com o Flamenco na Andaluzia. Claro que o turismo ajudou nessa imagem, mas para além disso há algo da alma do povo andaluz que está ali naquele elaborado jogo de canto, dança, palmas e instrumentos musicais, que nos arrebatou completamente. Demoramos para conseguir penetrar no mundo flamenco, pois chegamos na Andaluzia em plena Semana Santa, quando todas as nossas atenções ficaram voltadas para as manifestações religiosas, mas aos poucos fomos descobrindo novos lugares e experimentando diferentes estilos de tal forma que depois de três semanas na região, estávamos encantados por tudo que vimos, ouvimos e sentimos por lá.

Flamenco: uma mistura de ritmos ciganos, mouros e judeus

Assim como a arquitetura, também a música andaluza nasceu de uma fusão de diferentes culturas. Conversando com um estudioso do flamenco, em Ronda, ele nos contou que o povo andaluz durante toda a sua história foi recebendo e espertamente filtrando todas as informações que recebia, fossem de música, fossem de arte, fossem de arquitetura. O que não gostavam, jogavam fora e o que gostavam absorviam em sua própria cultura. Por aqui, passaram e deixaram suas marcas os mouros, os judeus, os cristãos e os ciganos. Com períodos de maior ou menos liberdade, diferentes povos conviveram e trocaram aqui profundas experiências musicais, gastronômicas e espirituais. 
Assim dessa maneira eclética e miscigenada foram surgindo os diferentes tipos do flamenco, dependendo dos diferentes compassos, escalas e progressão dos acordes. O mais antigo de todos é o Palo Seco (ou Martinete), cantado à capela e sem acompanhamento de nenhum instrumento musical. Outros se seguiram, como a Seguiriya (já com violão), Soleá (quando surge a dança flamenca), Bulerías (mais festivos e acelerados), entre outros como Canastera, Sevillana, etc.



Museu do Flamenco, em Córdoba, na Andaluzia
Museu do Flamenco, em Córdoba
(foto do celular)

Sem dúvida que de todos os povos que deram sua contribuição para o nascimento do flamenco, os ciganos foram os que tiveram papel fundamental. Nômades, eles chegaram à Andaluzia vindos de diversos lugares, trazendo suas tradições orais e hábitos, vestuários e ritmos que tanto marcam hoje o flamenco. Os ciganos eram conhecidos por serem excelentes ferreiros e foi a partir das estrondosas pancadas do ferro fervente, somado aos lamentos sofridos de uma vida dura que nasceram os primeiros cantos flamencos, que não tinham acompanhamento de nenhum instrumento e hoje é chamado de flamenco jondo, mais triste, pesado e profundo. Com o tempo, vieram as palmas, os sapateados, as danças e por último o violão e até o cajón
Por ser um povo sem escrita, muito da história dos ciganos se perdeu ao longo do tempo (e o que ainda se tem são tradições orais, muitas vezes fortemente carregadas por crenças sobrenaturais e lendas imaginárias), o que fez com que soubéssemos pouco da evolução desse ritmo.
Talvez, por isso mesmo o flamenco seja esse ritmo passional, onde as emoções fluem sem medo e intensas. Não há o que pensar; apenas, o que sentir.

E no contato com o flamenco na Andaluzia, sentimos essa paixão em diferentes lugares e de diferentes maneiras, todas vibrantes e inesquecíveis. Por isso, resolvi reunir num único post as principais e mais marcantes experiências que tivemos durante o tempo que passamos na região. E, apesar de termos passado em muitas cidades, três foram as que mais conseguimos adentrar no mundo flamenco: Ronda, Córdoba e, principalmente Sevilha. Como foi em cada uma delas, eu conto a seguir.


Museu do Flamenco, em Córdoba, na Andaluzia
Museu do Flamenco, em Córdoba
(foto do celular)

O flamenco em Ronda

A pequenina (e charmosíssima) Ronda esconde cantinhos surpreendentes para se ouvir o flamenco, principalmente após um dia de passeios e encantamentos com as belezas do lugar, um dos mais lindos que conhecemos na Andaluzia.

1- Concerto de violão de Celia Morales: A primeira vez no flamenco a gente nunca esquece. E a nossa não foi numa apresentação completa (com voz e dança), mas foi simplesmente uma das melhores que vimos. Isso porque ouvir o concerto de violão da Celia Morales foi algo de outro mundo. Sua precisão técnica, somado a sua delicadeza e carinho com cada canção que apresenta tornou a apresentação inesquecível. E como se não bastasse, a longa conversa no final com ela e seu marido, um grande estudioso do flamenco tornaram a noite ainda mais especial. Eles nos ensinaram a história do flamenco, além de nos ajudarem a identificar os diferente palos. Uma delícia.
Sua singela apresentação é em sua própria escola de música, onde ministra aulas de violão flamenco durante as tardes para os meninos da cidade. Nós nos surpreendemos, quando ao chegar lá para comprar o ingresso com antecedência, fomos recebidos pela própria Celia, que nos recebeu como se estivéssemos em casa. O clima familiar e pitoresco torna a experiência ali intimista e única. Pro Thiago, um amante inveterado do violão foi uma noite de prazer, ainda mais que lá conhecemos um simpático casal brasileiro, com quem saímos depois para tomar uma cerveja. Tudo de melhor numa mesma noite: música, cerveja e boa companhia.

Celia Morales e o Flamenco em Ronda, na Andaluzia
Celia Morales e seu violão flamenco
(foto do celular)

Guitarra Flamenca de Celia Morales
Quando e onde? O show acontece diariamente (exceto aos domingos) às 19h, na escola de música da Célia, que fica na na Calle Calvo Asesio, 8, Ronda
Preço: €15 por pessoa
Mais informações nesse link.

2- El Quinqué: Ainda em Ronda, não tínhamos mais a intenção de ver flamenco na cidade, mas alguns dias depois de assistir à Celia, fomos sendo guiados pelo som, quando voltávamos do pôr do Sol no Tajo e paramos em frente ao turístico El Quinqué, um restaurante que tem shows de flamenco todos as noites. 
A apresentação havia acabado de começar. Não resistimos e mesmo de chinelos e descabelados, entramos. Foi o primeiro show completo que assistimos com canto, dança e violão e foi emocionante. Hoje, vejo que não valeu o valor que pagamos para entrar, pois em Sevilha assistimos por preços mais módicos (e mesmo sem pagar nada). Mas o clima da noite valeu muito, ainda que uma garçonete viu que Thiago carregava um instrumento e perguntou o que era. Ao dizer que era um cavaquinho ela se encantou e pediu que ele tocasse para ele no fim do show. Achamos que havia sido apenas por educação, mas quando fomos pagar, ela pediu que esperássemos, chamou os músicos e pediu que o Thiago tocasse para eles. Sem titubear, ele tocou brasileirinho e outros chorinhos, trocou ideia com os músicos (que me pareciam ser uma família cigana) e ainda ganhou uma taça de vinho. Sem dúvida, uma noite memorável.

Flamenco em El Quinqué, em Ronda, na Andaluzia
El Quinqué
(foto do celular)


Show de flamenco no Restaurante El Quinqué
Quando e onde? O show acontece diariamente numa apresentação de 40 min. às 14h e outra de uma hora de duração às 20h30. O restaurante fica no Paseo Blas Infante s/n (muito próximo ao coreto do tajo)
Preço: €16
Mais informações nesse link.

Dica esperta: Justamente pelo preço salgado, considero que só vale a pena ir ao El Quinque se você não conseguir assistir ao flamenco em Sevilha. Já a apresentação da Celia Morales, vale a pena mesmo pra quem conhece toda a rota sevilhana, pois sua proposta é outra e sua técnica inigualável.

O flamenco em Sevilha

A capital andaluza e a meca do flamenco, Sevilha é pura boemia. Aqui tivemos nossas melhores experiências de flamenco, desde as mais simples apresentações de rua até as mais elaboradas. 

1- Flamenco de rua

Sim, é fácil esbarrar em algum grupo se apresentando no meio da rua e com qualidade. Seja apenas violão, seja canto e violão, seja o conjunto completo sempre vale a pena dar uma espiadinha e dar umas moedas se aprouver. Nós tivemos a sorte de cruzar por um jovem casal de ciganos que se apresentava em frente à Catedral, que nos encantaram. Ela cantava e dançava e ele tocava divinamente. As roupas simples e quase rôtas da moça não condiziam com seus movimentos suaves e delicados, quando dançava guajiras e bulerías. Ficamos quase meia hora ali encantados com o que vimos e só fomos embora, porque eles foram embora (era a hora da siesta, respeitada por todos os espanhóis). 

Flamenco em Sevilha, na Andaluzia
Flamenco de rua, em Sevilha
(foto do celular)

Quando e onde? Quando se trata de artistas de rua, é tudo uma questão de estar no lugar certo e na hora certa, mas não é difícil encontrá-los nos arredores da catedral, exceto no horário da siesta. O valor é incerto, já que paga-se o quanto o coração (ou a carteira) mandar.


2- Tablao Flamenco Lola de los Reys

Mais longe do centro histórico de Sevilha, mas frequentado basicamente por sevilhanos, o Lola de los Reys foi-nos indicado pelo taxista que nos deixou no hotel. É verdade que haviam alguns turistas, mas a maioria era mesmo nativo e quase todos se conheciam entre si. Ponto positivo, já que sempre gostamos de lugares autênticos e, de fato, isso foi o ponto alto da noite.
Mas preciso confessar que, mesmo não tendo que pagar para entrar, os preços cobrados pelas bebidas eram alarmantes, algo que nos incomodou um pouco. Mesmo assim, o clima informal com todos batendo palmas e interagindo com os músicos fez valer a noite, afinal isso foi algo que não vimos em outros lugares. O cantor também era talentosíssimo, o melhor de TODOS que ouvimos, mas o violonista não nos agradou muito com seu estilo gypsy kings (adoro gypsy kings, mas o que eles fazem é uma variação do flamenco e não o mais tradicional e puro ritmo), apesar de ser muito bom tecnicamente. E havia uma cantora de cabaré, que fazia performances sedutoras e divertidas, mas com canções excessivamente clichês (quero dizer, bregas), mas numa experiência que fez valer a noite. 

Quando e onde? O Lola tem apresentações de quinta à sábado a partir das 22h30 e sem hora pra acabar, pois sempre pode haver um ou outro cliente que resolva tocar e dançar. Fica na Avenida de Blas Infante, 6 local 1
Recomendo apenas para quem quer ter uma experiência mais autêntica com o flamenco e sem as formalidades de um show. Esteja preparado para os gritos e palmas da platéia (de homens um tanto quanto borrachos) e de pessoas conversando durante a apresentação. 
Preço: não paga para entrar, mas a primeira bebida (independente de qual seja ela) é €8 e depois disso não fica mais barato (um copo de cerveja é €5, por exemplo).
Mais informações nesse link.

Museu do Flamenco, em Còrdoba, na Andaluzia
Museu do Flamenco, em Córdoba
(foto do celular)

3- La Carbonería

Sem dúvida que La Carbonería foi o lugar mais democrático que assistimos flamenco. Numa ruazinha pequena e com entrada discreta, o lugar esconde um enorme salão ao fundo com gigantes mesas comunitárias. Enquanto não começa a apresentação, uma gritaria toma conta do lugar com todos conversando e tentando pegar suas cervejas (com preços justos). Mas logo que o flamenco começa, o silêncio impera e mesmo para os grupos mais animados que tentam conversar, logo se ouvi um shhhhhhh bem forte e silenciador, de tal forma que é possível ouvir o som de qualquer lugar da casa. O mesmo não se pode dizer sobre ver o espetáculo, já que os artistas ficam num cantinho sem palco e os que sentam distante dali só conseguem ouvir e não assisti-los. O bom é que a cada intervalo (e são muitos), as mesas são renovadas e pra quem tem paciência é possível ir conquistando  ao longo da noite espaços cada vez mais próximos aos artistas. Na noite que lá fomos, assistimos pela primeira vez o bailado apresentado por um homem e foi interessante ter essa experiência, apesar de ainda preferir a dança feminino. 
E após a apresentação oficial ainda é possível curtir um flamenco mais informal, feito pelos que estão ali e queiram tocar, ou cantar. Foi bem interessante participar dessa espécie de roda de flamenco e a noite não teria sido a mesma sem essa experiência.
A grande vantagem da Carbonería é que  não é cobrada entrada e o preço cobrado pelas bebidas é muito justo, o que torna mais viável estar ali sem gastar muito. A desvantagem é que, por ser barato, é sempre cheio. 

Quando e onde? A casa fica na Calle Levías, 18, numa portinha vermelha que não parece muito um bar, mas acredite. É lá mesmo. As apresentações são diárias entre 22h30 e 1h da manhã, mas chegue cedo para conseguir um bom lugar.
Preço: não paga para entrar e a cerveja custa €3.

4- Peña Cultural "Niño de Alfalfa"


Flamenco em Sevilha, na Andaluzia
Peña Cultural Niño de la Alfalfa
(foto do celular)

O que dizer desse lugar? Uma portinha singela dá pra um pátio simples e até um tanto decrépito e ali à esquerda uma pequena sala com cadeiras dispostas ao redor do palco, organiza o que foi para nós o MELHOR flamenco que assistimos na Andaluzia. Não estou exagerando. O que senti ali vendo aquela dançarina com toda sua energia e vigor foi algo que é difícil explicar em palavras. Várias vezes me emocionei e cheguei mesmo a chorar durante sua apresentação.


Flamenco em Sevilha, na Andaluzia
O melhor flamenco da Andaluzia: Peña Cultural Niño de la Alfalfa
(foto do celular)

A Peña Cultural "Niño de la Alfalfa" é uma das mais famosas da cidade para os apreciadores do flamenco. Apesar de ser frequentado por muitos turistas, ainda é um lugar autêntico e mantido por sócios que realmente se empenham em manter as tradições flamencas vivas. A ideia da peña é fabulosa, já que é um lugar que tem a proposta de reunir músicos que tocam de forma autêntica e livre. É muito popular na Andaluzia, mas também na Argentina (onde é comum ouvir-se tangos, milongas, chamamés e chacareras) e também no Chile, onde ficou conhecida por receber músico da Nueva Canción, como Violeta Parra e Victor Jarra, que lutaram pela justiça social e igualdade ao lado de Salvador Allende. Seja onde for, peña é sinônimo de música boa e aqui em Sevilha não foi diferente. Experiência única e inesquecível.

Quando e onde? A "Niño de la Alfalfa" acontece sempre às quintas e sábados, a partir das 22h na Calle Castellar 52, Acc C. Quando chegar, acredite. É ali mesmo, apesar de não parecer.
Para garantir um bom lugar, o ideal é chegar bem antes (chegamos por volta das 20h30) para reservar a cadeira já que a estrutura é simples e quem senta atrás não consegue ver bem.
Preço: €7
A programação completa da casa fica disponível nesse link.


O Museu do Flamenco de Córdoba: o Centro Fosforito

Não poderia terminar esse post sem falar desse singelo lugar que fomos conhecer sem grandes pretensões e se mostrou uma boa surpresa: o Centro de Flamenco Fosforito, em Córdoba. Fundado para homenagear o grande cantor cordobês, Fosforito, o espaço é um rico encontro com toda a atmosfera do flamenco. Várias salas são dedicadas a ensinar ao visitante os compassos do violão e há até mesmo dispositivos em que podemos aprender a tocar e dançar. 
Há também uma longa exposição sobre os grandes artistas do flamenco, entre eles o maior de todos, o violonista Paco de Lucía e o homenageado do museu, o Fosforito.
E como se não bastasse, há apresentações gratuitas na casa. Não demos a sorte de assistir nenhuma, mas é possível encontrar a programação no site do museu.


Museu do Flamenco, em Córdoba, na Andaluzia
Museu do Flamenco, em Córdoba
(foto do celular)

E como se não bastasse, o local onde o museu se situa, conhecida como Plaza del Potro foi frequentada por ninguém menos que Cervantes, que se inspirou nesse lugar para escrever alguns trechos de Dom Quixote. Visita imperdível, portanto.


Museu do Flamenco, em Córdoba, na Andaluzia
Museu do Flamenco, em Córdoba
(foto do celular)

Quando e onde? O museu fica na Plaza del Potro s/n, em Córdoba com horário de funcionamento de terça a sábado das 8:30 às 19:30 e no domingo das 8:30 às 14:30 (fechado às segundas).
E o melhor: com entrada franca.
A programação das apresentações de flamenco estão no site do museu, nesse link.

Por fim, deixo aqui as minhas sugestões de alguns flamencos para se ouvir e emocionar, principalmente no violão do genial Paco de Lucía (o maior artista de flamenco de todos os tempos) e na voz do vibrante Fosforito.

4 comentários:

  1. Que maravilha de post, Ana. Estive em Sevilha há um zilião de anos, ainda nem sonhava que um dia manteria um blog de viagens, e não vi flamengo nas ruas. Não tivemos sorte de estar no lugar certo na hora certa. E também não procurámos nenhum espectáculo, porque as prioridades eram outras. Estou a ver que tenho que lá voltar.
    Boa viagem de regresso.
    Beijinhos
    Ruthia d' O Berço do Mundo

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  2. Ah, Ruthia! O que mais gostei de Sevilha foi o flamenco! Somos viciados por música (como você viu! rsrs), então sempre procuramos experiências assim! E Sevilha nos encantou por isso!
    Beiinhos pra você e Pedrinho

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  3. Gostei muito do cardamomo em Madrid... fui no aniversário da minha esposa em fevereiro deste ano. . Sou músico amador. .e ela adora dança. .. Então deu muito certo. .:)

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    1. É como aqui! Eu adoro dançar e o Thiago é músico! Fórmula pra felicidade, não? rs
      Beijos

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