terça-feira, 31 de maio de 2016

A beleza abissal do Tajo de Ronda

"Es aqui, en Ronda,
en la delicada penumbra de la ceguera
un cóncavo delicado de patios
un ocio del jazmín
y un tenue rumor de agua, que conjuraba memorias de desierto."
(Jorge Luis Borges)
Vista da Puente Nuevo, no Tajo de Ronda, parte da Andaluzia, na Espanha.

Uma cidade construída literalmente à beira do abismo, com uma arquitetura que desafia a gravidade e em completa harmonia com uma paisagem única entre lindas montanhas e oliveiras. Ronda foi a mais apaixonante cidade que passamos na Andaluzia e onde vivemos nossos melhores momentos na Espanha. Tanto por sua beleza natural, quanto por suas casinhas brancas com balcões belíssimos e ainda pela música, Ronda nos seduziu. Tanto que prorrogamos nossos dias na cidade algumas vezes e depois de quatro dias, fomos embora com vontade de ficar mais. Difícil dizer o que mais gostamos na cidade: se sua beleza natural, ou seu rico patrimônio arquitetônico e cultural, mas algo aqui é inigualável e torna esse lugar único: o fabuloso abismo com o curioso nome de Tajo.
Chegamos em Ronda, num belíssimo fim de tarde e nossa primeira pergunta ao chegar no hotel foi: onde iremos assistir o pôr do Sol? O dia estava lindo e eu sabia que a cidade era um espetáculo no ocaso, o que nos fez querer desbravar imediatamente a cidade. Mas nenhuma das fotos que eu já havia visto de Ronda fez jus ao que me deparei ao chegar no espetacular coreto que fica na boca do Tajo. A beleza daquele abismo e  o imenso horizonte que se descortinou à nossa frente não fazem jus à nenhuma foto. Foi com esse entardecer da foto abaixo, que fomos recebidos em Ronda e olha que isso era só um aperitivo do que ainda viria pela frente.

Tajo de Ronda, parte da Andaluzia, na Espanha.
Fim de tarde no Tajo de Ronda
(foto do celular)

Não sei quanto tempo ficamos ali algum tempo admirando aquela paisagem. A vontade era de que o Sol não fosse embora nunca, mesmo que já fossem 20h da noite e a primavera espanhola nos brindasse com um dia deliciosamente longo. 

O Tajo de Ronda

Tajo é como se chama o desfiladeiro de cem metros de altura, que abruptamente interrompe a meseta de Ronda. Chegar ali é curiosíssimo, pois caminhando pela cidade, não temos noção de que estamos ao lado de um abismo. De repente, a cidade acaba e um precipício se descortina a nossa frente, assim sem pudor algum. Olhar pra baixo dá aquela aflição de ver o quão alto estamos e, ao mesmo tempo, à nossa frente se abre uma linda paisagem rural, dominada pelas oliveiras tão comuns na Andaluzia. Um espetáculo na acepção mais rica do termo.

Vista do Tajo de Ronda, parte da Andaluzia, na Espanha.
Oliveiras e montanhas vistas do Tajo

E, como se não bastasse esse abuso de beleza, uma fissura se abre no abismo, bem onde corre o Rio Guadalevín, com direito à uma cachoeira lindíssima que se forma lá embaixo, aos pés da cidade. A garganta natural dividiria a cidade, não fosse uma das mais impressionantes pontes que já vi na vida, a Puente Nuevo, construída no século XVIII e desafiando as leis da física. Toda em pedra, a ponte tem dois níveis de sustentação e sua robusta estrutura foi utilizada com diferentes propósitos, inclusive como prisão. Durante a Guerra Civil Espanhola chegou a ser utilizado como câmara de tortura e várias pessoas chegaram a ser jogadas lá de cima para morrerem cem metros abaixo, no chão do Tajo. Triste fato que, aliás, inspirou Hemingway numa das cenas de seu livro "Por quem os sinos dobram". Uma história trágica, assim como a própria guerra o é. O bom é que hoje a ponte é reduto de paz e suas estruturas são frequentadas apenas por ávidos e curiosos turistas mais preocupados em fotografar do que em fazer guerra. Ainda bem.

Vista da Puente Nuevo, no Tajo de Ronda, parte da Andaluzia, na Espanha.
Puente Nuevo e o Tajo

O Tajo me impressionou, preciso admitir. Tanto que passei todos os nossos dias na cidade dando voltas em torno dele. Por cima, por baixo, pela frente, por trás. Ia caminhando pela cidade (que também é linda e merece toda atenção), mas sempre tentando me posicionar em relação ao desfiladeiro. Onde ele está? Pensava com meus botões todo o tempo.

Uma cidade (literalmente) à beira do abismo

Mirante do Tajo


E de todos os ângulos que eu vi, o que mais me encantou foi de um mirante que dá de cara para a Puente Nuevo. Gostei tanto de lá que fui duas vezes: uma sozinha, quando cheguei só até a metade da trilha e outra com o Thiago, quando descemos todo o percurso até o rio. A subida depois é bem cansativa, por ser íngreme, mas o esforço é recompensador.
Para a minha alegria, no caminho descobri a Casa Dom Bosco, um museu em homenagem a esse grande educador italiano e fundador do Colégio Salesiano, onde estudei durante meu ensino fundamental e médio. Foi uma grata surpresa, aliás, ver também a estátua dele na Plaza Maria Auxiliadora, justamente onde começa a trilha para o mirante do Tajo.
Para descer, todo santo ajuda e é até agradável ir observando o desfiladeiro crescer à nossa frente. As casas começam a apequenar-se e os detalhes das ranhuras no meio das pedras passam a ficar mais evidentes. A paisagem muda rapidamente e logo chegamos no meio do caminho, onde fica o mirante mais lindo para a ponte e para o próprio Tajo.

Vista da Puente Nuevo, no Tajo de Ronda, parte da Andaluzia, na Espanha.
Mirante do Tajo

Tajo de Ronda, parte da Andaluzia, na Espanha.
Tajo visto por baixo

Muitos visitantes vão até ali e voltam e foi o que eu mesma fiz na primeira vez. Mas, na segunda, já com o Thiago, decidimos ir até o fim. Continuando a trilha, descemos por um estreito caminho, literalmente beirando o abismo até que chegamos num segundo mirante, esse mais perto da cachoeira, que se forma logo após a ponte e que parece deixar a paisagem ainda mais parecida com uma pintura. 

Cascata de Ronda, no Tajo, parte da Andaluzia, na Espanha.
Detalhe da Cascata de Ronda

Mas depois da cascata, ainda descemos mais um pouco até chegar na base do rio. Lá embaixo mesmo não há nada de especial, mas foi bem impressionante olhar pra cima e ter a dimensão do qual alto é o Tajo e a ponte.

Vista da Puente Nuevo, no Tajo de Ronda, parte da Andaluzia, na Espanha.
Puente Nuevo vista por trás

Alameda do Tajo de Ronda


Depois do esforço da subida até voltarmos para a parte alta da cidade, atravessamos a Puente Nuevo e fomos assistir mais um fim de tarde à beira do abismo, dessa vez na Alameda do Tajo, um passeio público lindamente arborizado e construído no princípio do século XIX, que hoje é o ponto de encontro dos rondenhos, que ali se encontram pra conversar, passear com seus cães e é um imenso parque para as crianças brincarem livremente.

Alameda do Tajo

E o que falar da luz do fim de tarde desse lugar? O Sol se põe ali à nossa frente, atrás da Serra de Grazalema, pintando o horizonte com infinitos tons de laranja, ao mesmo tempo que centenas de pássaros cantam e nos rodeiam, procurando um espacinho para dormir entre as fissuras do Tajo, logo ali embaixo de nós. O Thiago estava com seu inseparável cavaquinho e terminamos o dia matando a saudade da música brasileira, ao mesmo tempo que curtíamos a paisagem tipicamente andaluza à nossa volta.

Vista do Tajo de Ronda, parte da Andaluzia, na Espanha.
Fm de tarde na Serra da Grazalema, vista da Alameda do Tajo

Assim foram todos os nossos dias em Ronda. Aliás, foi após um desses entardeceres musicais na cidade que descobrimos o El Quinqué, uma casa de espetáculos especializada em flamenco, onde assistimos uma simpática apresentação. O Thiago estava com o cavaquinho e uma das garçonetes ficou curiosíssima com o instrumento. Tanto que insistiu para que ficássemos no bar quando terminasse a apresentação para que ela o ouvisse tocar. No fim, a simpática moça chamou os músicos e todos se sentaram para ouvir o samba brasileiro no cavaquinho do Thi, enquanto eu tomava o vinho que a garçonete nos oferecera em troca. Fiquei toda orgulhosa e ainda me dei bem com o vinho, que ganhamos por puro mérito do talento musical do Thiago.

Tajo de Ronda, parte da Andaluzia, na Espanha.
Thi (e seu cavaquinho) em dose dupla
(panorâmica feita no celular)

Como pode um desfiladeiro ser tão lindo e ainda gerar tantas histórias? Pois assim é o Tajo de Ronda, um dos pontos mais belos de toda a nossa viagem pelo Velho Mundo, não tenho dúvidas. Mas Ronda não se resume ao abismo e guarda maravilhas da música, arquitetura e arte. Só que isso é assunto pro próximo post. Até lá!


2 comentários:

  1. Querida, não fazia a menor ideia da existência desta terra (como de outras, obviamente, por esse mundo fora). As fotos estão magníficas, mas a primeira, com aquele entardecer, bem poderia enfeitar uma sala de visitas. Já ponderou fazer uma tela?
    Abraço, ansiosa pela continuação
    Ruthia d'O Berço do Mundo

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    1. Ruthia, Ronda foi paixão à primeira vista! Eu também adorei as fotos e vou pensar com carinho na ideia de transformá-las em uma tela! Obrigada! :)
      Beijos

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