quinta-feira, 9 de junho de 2016

A travessia entre dois mundos: o Estreito de Gibraltar

"Pa' una ciudad del norte
Yo me fui a trabajar
Mi vida la dejé
Entre Ceuta y Gibraltar"
(Claudestino- Manu Chao)
Pôr do Sol no Estreito de Gibraltar, entre Tânger (no Marrocos) e Tarifa (na Espanha).

Num ataque de fúria, Hércules mata sua esposa e os três filhos. Arrependido, é levado por seu primo Teseu até o Oráculo de Delfos, onde recebe a pesadíssima penitência de executar doze trabalhos colossais, escolhidas por seu maior inimigo, o Rei Euristeu. Vingativo, esse escolhe tarefas que exigiam força descomunal para serem executadas. Uma delas consistia simplesmente em buscar o gado do Monstro Gerião, que ficava para além do mundo conhecido de então, nas proximidades de onde hoje se localiza Cádiz. Para isso, Hércules usa seus próprios ombros e abre o caminho para o plus ultra ("mais além" em latim), criando assim a ligação entre o Mediterrâneo (limite do mundo conhecido) e o Oceano Atlântico (justamente o non plus ultra, o mundo desconhecido). Como resultado dessa abertura na terra, os dois mares são ligados e surge, dessa maneira, o Estreito de Gibraltar. Pelo menos, para a mitologia grega.

Pôr do Sol no Estreito de Gibraltar, entre Tânger (no Marrocos) e Tarifa (na Espanha).
Atravessando o Estreito de Gibraltar
 (O pedacinho de terra à esquerda está na África e o pedacinho de terra à direita está na Europa)

A geografia tem uma explicação menos poética. Para ela, o que aconteceu foi uma simples separação entre placas tectônicas, que se deslocaram e formaram dois continentes: a Europa (mais precisamente a Eurásia) e a África. O que nenhum geógrafo poderia prever era que essa pequena separação física entre os dois continentes, que na faixa mais estreita do Estreito de Gibraltar não passa de 14km, separaria também os caminhos sócio-econômicos e  culturais desses dois pedaços de terra de forma tão abissal. De um lado, o continente mais rico e desenvolvido do mundo; de outro, o mais pobre e sub-desenvolvido. Será que Hércules, quando abriu caminho para o Novo Mundo imaginou que estaria separando assim a humanidade? 


Pôr do Sol no Estreito de Gibraltar, entre Tânger (no Marrocos) e Tarifa (na Espanha).
O Sol faz charme e aparece com timidez no entardecer, durante a travessia do Estreito de Gibraltar

Por outro lado, quase todos os grandes personagens da história navegaram por essas águas e importantes acontecimentos da humanidade se passaram por essa região. Gregos e romanos viveram às margens do Mediterrâneo. Jesus nasceu ali perto, assim como Maomé. Antes disso, os faraós do Egito reinavam soberanos, ali do ladinho. Durante séculos, muçulmanos e cristãos atravessavam essas águas ora avançando em suas conquistas territoriais, ora recuando. E assim é até hoje, em todo a extensão do Mediterrâneo com os conflitos entre Palestina e Israel, assim como a atual guerra na Síria. Aqui surgiram as primeiras civilizações e também as primeiras guerras; as primeiras aventuras, tanto quanto as primeiras desventuras, que tanto marcaram a história do Ocidente. Sem dúvida que navegar por essas águas é uma emoção tremenda, quando se tem a exata dimensão histórica desse lugar.


Punta de Tarifa, o ponto mais meridional da Europa, que separa o Oceano Atlântico do Mar Mediterrâneo
Punta de Tarifa, o ponto mais meridional da Europa que separa o Oceano Atlântico (à esquerda da foto) do Mar Mediterrâneo (à direita da foto). A diferença entre os dois mares é nítida.

O Estreito de Gibraltar e o abismo da desigualdade

Foram com essas ideias fervilhando em mim, que chegamos à Tânger, no Marrocos, com o objetivo de atravessar o Estreito de Gibraltar rumo à Tarifa, já na Espanha, depois dos dias intensos que passáramos no Marrocos. Na minha cabeça, ressoava sem parar o trecho da música do Manu Chao, que abre esse post: "Para uma cidade do norte, eu me fui a trabalhar. Minha vida, a deixei entre Ceuta e Gibraltar" (tradução livre).

Pôr do Sol no Estreito de Gibraltar, entre Tânger (no Marrocos) e Tarifa (na Espanha).
Tânger, no Marrocos

Em plena crise de refugiados, uma das maiores preocupações hoje na Europa, impossível não pensar em quantos africanos não perderam suas vidas tentando atravessar o Mediterrâneo, muitos deles utilizando esse canal, que é o ponto mais próximo para alcançar o outro lado, a última esperança de sobreviver às mais cruéis condições de vida. Vivemos nesse momento, sem dúvida, a maior onda migratória da Europa, desde a Segunda Grande Guerra e os trágicos desdobramentos disso tem causado comoção internacional. É evidente que os refugiados sírios estão, nesse momento, mais em evidência na mídia, por conta da triste guerra que enfrenta aquele país, mas não é possível esquecer que na África sempre houveram guerras, fome, miséria, violação de direitos humanos e que grande parte de sua população busca ajuda de outros países há séculos. Quantas pessoas já morreram, tentando atravessar Gibraltar ilegalmente, muitas vezes como única alternativa de conseguirem continuar vivos? E assim é ao logo de todo o Mediterrâneo com milhares de refugiados utilizando botes frágeis e sem nenhuma segurança, pagando para atravessadores que os tratam como objetos de carga e os exploram desumanamente. Isso sem nenhuma garantia que receberão asilo e, mesmo que recebam, precisam enfrentar as enormes barreiras culturais, religiosas, linguísticas e, a pior de todas, a xenofobia.

Refugee Welcome
"Refugiados, bem-vindos. Ninguém é ilegal." (Pelas ruas de Tarifa)

Durante toda nossa passagem pela Europa, me chamou a atenção a quantidade de imigrantes, principalmente muçulmanos, em todos os lugares pelos quais passamos, fosse na Bélgica, ou na França, Portugal, ou Espanha. Muitos cidadãos europeus mostram-se solidários com a atual crise, mas muitos declaram intenso desconforto com a situação dos refugiados, chegando mesmo a recriminá-los e a usar de termos preconceituosos contra eles. Na Bélgica, por exemplo, chamar alguém de marroquino é um xingamento, quando se quer dizer que alguém é aproveitador. Situação grave e que me pareceu uma bomba-relógio prestes a explodir a qualquer momento. Os ataques terroristas cada vez mais frequentes já anunciam há décadas o acirramento das relações entre os árabes e o ocidente ao nível das relações diplomáticas entre os Estados, mas minha percepção durante essa viagem foi que esse mesmo medo do terrorismo (que esconde, por trás, outros medos e problemas sociais) tem contaminado também e de forma injusta e impacial as relações entre as pessoas comuns.

Claro que vimos também muitos imigrantes africanos não-muçulmanos e, em Portugal, por exemplo, muitos vem dos países lusófonos, como Angola, Moçambique, Cabo Verde, entre outros. Numa visão bem superficial, tive a impressão que os imigrantes africanos estão mais integrados à sociedade em Portugal, do que em outros países europeus mais ricos. Mas não sem tensão, já que é muito comum os imigrantes viverem em guetos, afastando-se do convívio com os demais cidadãos do país, muitas vezes para se proteger das agressões que sofrem todos os dias, no convívio social. Isso acontece em Portugal, mas também na França, ou em qualquer país que recebe imigrantes. 

Refugee Welcome
"Refugiados bem-vindos", numa faixa no Palácio de Cibeles, em Madrid

Enfim, eram nessas reflexões que eu me vi mergulhada, enquanto atravessava esse mar de uma beleza única e especial, num fim de tarde carregado de nuvens, mas com cores divinas, que pintavam o horizonte de um jeito todo especial. O mesmo horizonte que serviu de inspiração para os grandes navegadores e que hoje alimenta a esperança de tantos que almejam uma vida melhor.

Aproveito e deixo a música que me embalou durante a travessia do Estreito de Gibraltar e também durante todo esse post: Clandestino do músico francês Manu Chao. Grande conhecedor da realidade européia, mas também de toda a América Latina, ele dá voz  não só aos imigrantes da Europa, mas também aos clandestinos de todo mundo: bolivianos no Brasil, mexicanos nos Estados Unidos e assim por diante. Porque nenhum ser humano é ilegal, se está no planeta Terra.


Reflexões à parte, deixo abaixo as informações práticas de como fizemos a travessia e algumas dicas para melhor aproveitá-la.

Informações práticas da travessia do Estreito de Gibraltar:

Para quem atravessa o Estreito de Gibraltar como turista (e não como clandestino), a viagem é simples, rápida e belíssima, como mostram as fotos desse post. Em apenas 45 minutos, viajando em catamarã bem confortável e seguro, fizemos o trajeto marítimo entre Tânger (Marrocos) e Tarifa (Espanha) com toda a tranquilidade e conforto. Há também outras possibilidades de travessia para a Espanha, como para Algeciras, mas todos que conversamos nos disseram que Tarifa era uma cidade mais simpática para se conhecer do que Algeciras. E, de fato, não nos arrependemos da escolha, mas sobre nossos dias em Tarifa deixarei para relatar mais pra frente, nesse link.

Quais são os horários da travessia? São muitos os horários e as diferentes empresas de ferry boat partem, em média, com uma frequência de duas em duas horas. Nós utilizamos o serviço da FRS, que tem a primeira saída de Tânger às 7h e de Tarifa às 9h, sendo a última saída tanto de Tânger, quanto de Tarifa às 21h. Mais informações, aqui.

Como é a imigração? Para nós, que viemos do Marrocos e entramos na Espanha, a imigração foi feita no Porto de Tarifa, sem nenhuma burocracia, nem filas e de forma bem rápida. Nós levamos poucos segundos com o funcionário, que apenas conferiu nossas fotos, mas não fez nenhuma pergunta (nem aquelas clássicas de onde ficaríamos hospedados, ou quanto tempo ficaríamos no país). Quando nos demos conta, já estávamos em terras espanholas, sem esforço, ou estresse.
Para quem faz a travessia no sentido oposto (Espanha-Marrocos), a imigração é ainda mais fácil, já que é feita no próprio catamarã, pois há um escritório da imigração marroquina dentro do barco, que já agiliza todo o processo.

Pôr do Sol no Estreito de Gibraltar, entre Tânger (no Marrocos) e Tarifa (na Espanha).
A travessia do Estreito de Gibraltar durante o pôr do Sol é espetáculo garantido
(mesmo quando o Sol resolve se esconder entre as nuvens, como nesse dia! rs)

Dica esperta: como eu disse, são muitos os horários de travessia e é possível fazê-lo durante todo o dia. Mas, todavia, entretanto, porém se você é como nós e faz peripécias inconfessáveis por um belo entardecer, não deixe de conciliar o horário da viagem com o do pôr do Sol. Vale demais a experiência! Para isso, é preciso conferir a hora exata do pôr do Sol na internet, já que isso varia ao longo do ano, e depois fica fácil de casar com os vários horários oferecidos para viagem. Foi o que fizemos e, mesmo com muitas nuvens, não ficamos decepcionados. Foi uma viagem rápida, mas inesquecível.


4 comentários:

  1. Grata por este post maravilhoso, pela lenda do Hércules que desconhecia, pelas fotos do pôr-do-sol, e pelas suas reflexões.
    Na verdade, as pessoas de ascendência africana que vivem em Portugal são, na maioria dos casos, portugueses nascidos aqui. Foram os seus pais, na altura da guerra colonial, que emigraram, aproveitando a proximidade linguística. Existem guetos sim, mas existem também "bairros sociais, desfavorecidos" em todas as grandes cidades portuguesas, onde os africanos são uma minoria. Sinto também que estão perfeitamente integrados, partilham a visão europeia do mundo.
    Já no que diz respeito aos emigrantes muçulmanos, de origem africana ou do Médio Oriente, sobretudo a morarem em França e na Bélgica, descreveu a situação perfeitamente: é um barril de pólvora. Porque eles não se ocidentalizam, segregam-se e tentam impor a sua visão do mundo aos demais. Assim não dá... e cada vez que recebemos a notícia de um atentado, o nosso coração salta de medo.
    É preciso aceitar que o mundo mudou, que as fronteiras se esbateram, que o movimento das populações é muito facilitado pelas rotas internacionais, e temos que lidar com isso. Respeitar. Mas educar para que os outros, que chegam, nos respeitem também...
    Abraço, querida Ana.
    Ruthia d'O Berço do Mundo

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    1. Pois é, Ruthia! A situação me parece delicada, mas o caminho que vejo também passa pelo que você falou: respeito mútuo! Somos todos frutos de miscigenação de tantos povos e compreender isso é o primeiro passo para convivência pacífica!
      É claro que outras questões também estão colocadas aí (concorrência por empregos, aumento da desigualdade em países ricos), mas não dá pra Europa viver como se fosse uma ilha, não é mesmo? Até porque durante séculos os europeus exploraram outros continentes, quando lhes foi útil. Nada mais coerente do que respeitar o movimento contrário, que ocorre agora.
      Beijos
      Beijo grande!

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  2. Belo post. Excelente reflexão.

    Certa feita assistir um documentário (https://www.youtube.com/watch?v=CJJ5IgU1sv4) sobre o Estreito de Gibraltar e cheguei a pensar em como o mundo, em especial os países exploradores da época colonial, faz vista grossa para aos problemas dos imigrantes, há muitos anos. E hoje a bomba estourou. Um dia penso em fazer esta mesma travessia e seguirei suas dicas.

    Abraços,

    Vaneza Narciso.

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    1. Vaneza querida, muita gratidão por compartilhar esse documentário! Que preciosidade!!!! Não cheguei a falar do tráfico de drogas no meu post, mas sem dúvida que esse seria um tema e tanto para se tratar (não só no Estreito de Gibraltar, mas em praticamente todo o planeta, não?)! Quem sabe ainda não escrevo sobre isso? Obrigada mesmo!
      Beijinhos

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