domingo, 5 de junho de 2016

Ronda para além do Tajo

"Rondeñas vienen cantando,
sobre la cama me siento, 
porque, en oyendo rondeñas,
se me alegra el pensamiento."
(Cantiga popular de flamenco rondenho)
Ronda, na Andaluzia, região sul da Espanha.

Não escondo minha predileção por viagens mais rústicas, onde o contato com a natureza é direto e constante, principalmente se eu puder ter longas e profícuas prosas com os nativos. Tenho dificuldade em gostar de cidades grandes, com muitos carros, pessoas e movimento e sempre prefiro os sítios mais bucólicos e pacatos. Talvez isso se explique pelo fato de que vivi a maior parte da minha vida no meio do mato, ou talvez por ter morado quase uma década no extremo oposto da paz, em meio ao caos de São Paulo. Não sei o motivo ao certo, mas os lugares que mais me encantam são os que posso ver o horizonte e sentir a brisa e o verde ao meu redor. E se esse lugar ainda tiver um patrimônio cultural, histórico e artístico a ser desbravado, aí é que me sinto mesmo no paraíso. E foi exatamente desse jeito que me senti em Ronda.
Em plena harmonia entre uma beleza natural estonteante e uma vida urbana repleta de música, história e cultura, Ronda é um desses lugares que parecem ter conseguido um equilíbrio perfeito entre esses dois mundos. No post anterior, já me debrucei no impressionante abismo da cidade, conhecido como Tajo, pelo qual me apaixonei perdidamente e nesse me aterei às suas maravilhas citadinas, que também encantam qualquer alma, mesmo as mais selvagens, como a minha. 

Ronda, uma das cidades que compõe os Pueblos Blancos, na Andaluzia, região sul da Espanha.
Ronda, uma das cidades que compõe os Pueblos Blancos

Aliás, não fui só eu quem se apaixonou por Ronda. Orson Welles, o famoso cineasta que dirigiu Cidadão Kane, considerado por muitos críticos o melhor filme da história do cinema, tanto gostou desse lugar, que pediu que suas cinzas fossem depositadas na cidade após sua morte, pelo que foi atendido. A caixa com suas cinzas encontra-se hoje no fundo do poço-literalmente- da casa de seu grande amigo (e toureiro) rondenho, Antonio Ortóñez, filho de Cayetano, que por sua vez trouxe pra Ronda outra grande figura, essa da literatura: Ernesto Hemingway. O escritor imortalizou a cidade, quando escreveu o livro "Para quem os sinos dobram", cuja inspiração de algumas cenas foi no Tajo, como já contei aqui. Com esses admiradores de peso, fica ainda mais fácil convencer qualquer pessoa de que Ronda tem uma áurea especial, que merece ser desbravada.

Desbravando Ronda

Ronda faz parte de um conjunto de pequenas cidades na região da Andaluzia, mais especificamente entre as províncias de Málaga e Cádiz, conhecidos como Pueblos Blancos, que como o nome mesmo diz tem essa característica peculiar de terem sua arquitetura marcada por simpáticas casinhas brancas, pintadas de cal. A cor escolhida não é à toa, já que são povoados quentes, principalmente no verão, e o branco serve para espantar o calor de dentro das habitações. O resultado é um belíssimo contraste entre o verde do entorno, o azul do céu e o branco das construções, deixando esses lugares com uma beleza apaixonante logo no primeiro olhar. A mais conhecida cidade entre os pueblos blancos é mesmo Ronda, mas chegamos a conhecer também a pequena Arcos de la Frontera, onde estivemos em plena Semana Santa, numa experiência riquíssima, que contarei num post específico. 

Ronda, uma das cidades que compõe os Pueblos Blancos, na Andaluzia, região sul da Espanha.
Casas brancas e floridas, paisagem comum em Ronda

Assim como grande parte das cidades andaluzas, o povoado de Ronda surge com os celtas, passa por uma importante dominação romana (que deixou ruínas até hoje presentes) e se consolida, principalmente, durante a dominação muçulmana na Península Ibérica que perdurou por mais de mil anos e só acabou após a conquista do territórios pelos Reis Católicos, que expulsaram os mouros de Ronda em 1485. A influência moura deixou fortes raízes culturais na cidade, seja na arquitetura, seja na música e é parte do patrimônio imaterial desse lugar e, evidentemente, de toda a Andaluzia.

Vários são os resquícios dos árabes na cidade e uma das mais fortes são as ruínas da antiga muralha, que protegia o que um dia foi a medina de Ronda. 

Ronda, uma das cidades que compõe os Pueblos Blancos, na Andaluzia, região sul da Espanha.
Ronda com suas casinhas brancas e o que restou de sua antiga muralha

Ainda é possível ver a muralha de vários pontos da cidade, mas é na Puerta de Almocábar que podemos ter contato mais próximo com ela. Essa era a principal entrada para a medina de então, que ganhou esse nome por ficar próximo do cemitério (Al-moqabir, em árabe) da época. Estas não são as muralhas mais bem preservadas da Europa, que estão em Ávila, também na Espanha, mas mesmo assim em Ronda a construção é impactante pela belíssima composição que faz com a cidade e com as montanhas ao redor.

Puerta de Almocábar, em Ronda, na Andaluzia, região sul da Espanha.
Estrutura da Puerta de Almocábar

Caminhando pelo entorno da muralha é possível ir desde a antiga porta até a Puente Viejo. O caminho mais natural entre os dois monumentos é atravessar por dentro da cidade, já que esses dois pontos estão diametralmente  opostos, mas eu acabei fazendo um caminho diferente e peguei uma trilha pela área rural, passando pelo exterior da cidade e contornando a muralha, o que me proporcionou lindos ângulos de Ronda, visto pelo lado de fora dos muros.

Ronda, na Andaluzia, região sul da Espanha vista de fora de suas muralhas.
Ronda vista de fora das muralhas

Paisagem rural de Ronda, na Ronda, na Andaluzia, região sul da Espanha.
Paisagem rural de Ronda

Esse caminho me levou até os baños árabes, localizados na parte baixa da cidade e importante resquício da tradição moura na região. Esses são os mais bem conservados baños árabes de toda a Andaluzia e se localizava no lado de fora da cidade, justamente para oferecer seus serviços aos viajantes que chegavam de longas distâncias, cansados e... fedidos, evidentemente. 
E aqui preciso compartilhar de mais um arrependimento, durante essa viagem: o de não ter entrado pra conhecer o interior desse lugar. Assim como em Toledo eu deixei de entrar na Sinagoga de Santa Branca pra economizar, aqui fiz o mesmo e após isso só posso concluir que economias como essa são nada menos do que pura mesquinharia. Enfimfica o desabafo e o desenho que ninguém repita minha avareza.

Puente Viejo, em Ronda, na Andaluzia, região sul da Espanha.
Puente Viejo ou Puente Árabe visto logo acima dos baños árabes

Continuando o caminho, logo acima dos baños árabes fica a mais antiga ponte da cidade, conhecida como Puente Viejo, construída pelos árabes, porém sob uma edificação anteriormente romana. Bem menos imponente que a Puente Nuevo (que já mostrei no post anterior), porém com seu charme.
A partir da ponte, um longo e íngreme caminho se descortina desfiladeiro acima, passando pelo cânion formado entre o Tajo e o Rio Guadalevín, praticamente todo feito por escadas que beiram o abismo, formando lindos desenhos e mirantes, ao longo da subida.

Puente Viejo, em Ronda, na Andaluzia, região sul da Espanha.
Puente Viejo visto mais acima, com os mirantes que vão

Ali bem pertinho, mas do outro lado do cânion, está a Casa do Rei Mouro, uma construção labiríntica e irregular, que se molda ao terreno, num emaranhado de jardins, que descem até a base do rio, num intrincado sistema que permitia o abastecimento de água da cidade. A mina é, de fato, da época dos mouros, mas o palácio, esse é bem mais recente e sequer viu qualquer árabe, que dirá um rei. 

Casa do Rei Mouro, em Ronda, na Andaluzia, região sul da Espanha.
Detalhe da Casa do Rei Mouro

O Flamenco, os bandoleiros e as touradas rondenhas

Assim como em toda a Andaluzia, Ronda tem influência moura, mas também cigana e é na música que essa presença se faz mais viva, sendo sua maior expressão, sem dúvida, o Flamenco. Nossa experiência com a música flamenca foi extremamente marcante em toda a Andaluzia e eu relatei isso aqui nesse post, mas o que eu não mencionei ainda é que aqui em Ronda, o flamenco tem tanta presença que até mesmo um palo (ritmo) específico da região aqui surgiu, ficando conhecido como Rondeña. É certo que esse estilo já era tocado antes mesmo do flamenco, mas foi incorporado por esse, ganhando força com os cantores flamencos da região.

Apresentação de Flamenco em Ronda, na Andaluzia, região sul da Espanha.
Apresentação de flamenco em Ronda

Apresentação do violão flamenco de Celia Morales, em Ronda, na Andaluzia, região sul da Espanha.
Apresentação do violão flamenco de Celia Morales

Além dos músicos flamencos, outro personagem típico daqui é o bandoleiro, uma figura emblemática e até romantizada na Andaluzia. Eles chegavam aos montes em Ronda, cuja posição geográfica facilitava o esconderijo e a fuga desses homens que eram, em última análise, verdadeiros pilheiros. Os bandoleiros organizavam-se em bandos para  roubar viajantes e eram homens que não se submetiam à ordem social vigente, impondo suas próprias regras onde chegassem. No Brasil, temos nossa própria versão do bandoleirismo na figura dos cangaceiros, no nordeste do país. E assim como várias lendas e fantasias foram surgindo ao redor de Lampião e Maria Bonita, na Espanha aconteceu o mesmo com o bandoleiros, que viraram figuras míticas no imaginário popular do país.

Toureiros e bandoleiros fazem parte de Ronda, na Andaluzia
Toureiros e bandoleiros fazem parte da história de Ronda

Sua influência foi tanta que até na música eles interviram, já que eram bons vivants  e tinham seus ritmos e cantos, que se misturaram também ao flamenco da região. Sua influência se deu também no que hoje é uma tradição em toda a Espanha, mas que nasceu aqui em Ronda: as touradas.

Fachada externa da Plaza de Toros de Ronda

Ainda na idade média, com a necessidade de defesa do território, foi criado em Ronda a Plaza de Toros, a mais antiga do país, que tinha o objetivo inicial de preparar os soldados para a guerra, com o treinamento para um perfeito manejo dos cavalos, utilizado nas batalhas da época. Para isso, eram usados várias atividades e além dos exercícios equestres, também os jogos de destreza com touros passaram a ser utilizados e rapidamente se popularizaram em todo o país, nascendo assim toda uma cultura ao redor dessa figura que é o toureiro.
Hoje, apesar das fortes críticas de movimentos de proteção ao animal, que denunciam os maus-tratos inerentes às touradas, a prática ainda é comum em grande parte da Espanha e de Portugal. Eu, particularmente, não sou uma grande fã do esporte, mas cheguei a ver uma festa de rua, em Arcos de la Frontera, em que a touromaquia era cultuada, mas isso é tema para outro post, já que fazia parte das festividades da Semana Santa da cidade.

Lembrancinhas de Ronda, na Andaluzia, região sul da Espanha.

Eu ainda poderia ficar aqui mais algumas horas falando dos lindos edifícios da cidade: sua Iglesia Mayor, a Casa de São João Bosco (que fundou a escola onde estudei e que, portanto, para mim tem grande valor afetivo), a Puerta de Felipe V, entre tantas outras maravilhas da arquitetura gótico-mudéjar. Aliás, a arquitetura mudéjar, desenvolvida pelos muçulmanos que continuaram vivendo na Península Ibérica após a expulsão dos árabes, merece atenção em toda a Andaluzia e é até mais marcante em outras cidades, como Córdoba, ou Sevilha e ainda me aterei nesse tema com mais atenção.

Igreja de Padre Jesús, em Ronda, na Andaluzia, região sul da Espanha.
Detalhe da Igreja de Padre Jesús

No fim, após escrever dois posts sobre Ronda, ainda fico com a sensação de que poderia escrever muito mais, mas fato é que há lugares que parecem não caber em palavras e Ronda, sem dúvida, é um desses.


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20 comentários:

  1. Ví uma reportagem sobre Ronda faz alguns meses, fiquei encantada com as casinhas e com o povo andaluz, quero muito voltar a essa região, e quando eu for, com certeza vou incluir Ronda!

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    1. Paula, vale muito a pena! Sem contar com o Tajo, o abismo de Ronda que é uma das coisas mais lindas que vi na vida!
      Beijo

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  2. Eu nunca tinha ouvido falar, mas pelas fotos e pelo texto, já me apaixonei <3 que lugar incrível! De cinema :)

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    1. A Andaluzia é cheia desses povoados a serem descobertos, Camila! Coisa mias linda! :)
      Beijo

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  3. EU não sabia que For Whom the Bell Tolls era um livro, pra mim é uma música do Metallica hauehaue enfim, linda cidade, gostei da narrativa e das fotos! sabe me dizer de quando é a muralha??

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    1. Já eu não conhecia a música do Metallica! rsrs
      A muralha de Ronda é do século XI, Angie! Mas como todas as muralhas da Espanha, foi parcialmante destruída no século XVIII por motivos econômicos (facilitar o transporte entre as cidades) e o que vemos hoje são só ruínas!
      Beijinhos

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  4. Encantadoras essas casinhas com floreiras na janela! Confesso que não conhecia nada sobre essa região, mas adorei conhecer pelo seu post e quem sabe algum dia terei a oportunidade de fazer isso pessoalmente? Adorei o post!

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    1. Vá assim que tiver oportunidade, Simone! É um lugar encantador!
      Beijos

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  5. Que fotos mais lindas... Amei Amei <3
    Ainda não conheço a Espanha, mas esse ano ainda coloco meus pézinhos lá.
    Ronda vai ter que ficar para uma próxima, quem sabe ano que vêm!
    Beijos =)

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    1. Ahh, a Espanha é linda demais! Aproveite bastante! E na próxima não deixa de colocar Ronda no roteiro! ;)
      Beijinhos

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  6. Nunca tinha ouvido falar desse sítio e pelas fotos parece muito agradável. Sem dúvida que parece um sítio obrigatório no sul de Espanha. Obrigado pela partilha.
    Renato

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    1. Sim, sim, Renato! Um dos meus lugares preferidos na Andaluzia!
      Eu que agradeço a visita! :)
      Beijos

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  7. Que local encantador. Não sabia que tinha essa ligação a Orson Welles e a Ernest Hemingway. Um local a visitar, sem dúvida.

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    1. Pois é! E não é à toa que Orson Welles e Hemingway se apaixonaram por esse lugar também! O lugar é um encanto mesmo!!! :)
      Beijo!

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  8. Não conhecia este local, fotos lindas e inspiradoras. Sem dúvida um local a visitar na minha próxima visita a Espanha. Belo Post e obrigada pela dica.

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    1. Opa! Que bom que lhe inspirou, Sonia! Fico feliz! :)
      Beijinhos

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  9. Acredito que todos moram por tanto tempo em Sao Paulo devem querer um pouco de paz ne? Eu adoro cidade grande, mas amo tambem um lugar mais pacato como Ronda. Lindas fotos.

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    1. Sim, morar em São Paulo nos deixa acelerados demais e quando saímos da cidade só pensamos em descansar! rs

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  10. Não conhecia este lugar, mas fiquei maravilhado! São tantos lugares incríveis pelo mundo! Fica aí mais uma bela dica pro futuro...

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    1. Sem dúvida, Itamar! Coloque Ronda no seu roteiro pro futuro! ;)
      Beijo

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