terça-feira, 14 de junho de 2016

Tarifa e seus dois mares

Praia em Tarifa, na Espanha, o berço da Andaluzia

Preciso confessar que chegar em Tarifa depois da nossa temporada na África foi, de certa forma, um alívio. O Marrocos me encantou por vários aspectos, que contarei em outro momento, mas é um país que, o tempo todo, nos tira da zona de conforto, pelas diferenças culturais, religiosas e econômicas, que são explícitas lá. Viagens assim sempre me motivam e me fazem repensar minhas próprias crenças, mas não deixa de ser difícil.
Por isso, chegar na Espanha e poder passar alguns dias sem me preocupar com nada foi, naquele momento, um descanso pro corpo e pra alma, ainda mais com aquele clima praiano delicioso, mesmo no inverno. Tanto que acabamos ficando mais dias do que realmente Tarifa exige para ser conhecida, pois queríamos relaxar, usufruir de um conforto emocional de simplesmente acordar e dormir sem ter que fazer muito esforço de pesquisar, perguntar, tomar cuidado com a escolha e negociar o tempo todo, o que era nossa rotina diária nas cidades marroquinas que visitamos. E assim foi que passamos três dias na cidade, em que nossa maior preocupação era estar na praia na hora do pôr do Sol, além de caminhar sem compromisso pelas ruas da cidade. Praticamente, tiramos umas férias das férias.

Pôr do Sol em Tarifa, na Espanha, o berço da Andaluzia
Pôr do Sol em Tarifa

A Andaluzia nasceu em Tarifa

Apesar de estar longe de ser a mais típica e tradicional cidade da Andaluzia, Tarifa tem uma grande importância histórica para a região. Foi aqui, no ano 710 da era cristã, que os muçulmanos desembarcaram e iniciaram o processo de invasão territorial, que culminou na dominação de toda a Península Ibérica ao longo de quase mil anos. Por incrível que pareça, o desembarque foi facilitado por uma das facções visigodas opositoras do rei da época, numa nítida retaliação ao reinado. Portanto, Tarifa serviu de porta de entrada para todas as conquistas árabes na região, que tanto marcou a cultura do povo andaluz.

Tarifa, na Espanha, o berço da Andaluzia
Vimos (e comemos) tangerinas por toda parte na Andaluzia (e sul do Marrocos)

Apesar de ter tido esse papel de canal para a formação do que hoje conhecemos como Andaluzia, a verdade é que Tarifa nunca teve a mesma função estratégica e política para os conquistadores islâmicos, como tiveram outras cidades, como Córdoba, Sevilha, ou Granada. Durante décadas, Tarifa não passou de uma pequena vila de pescadores e somente dois séculos depois de sua invasão, houve a preocupação por parte dos árabes de construir uma fortaleza na região, para proteção do território.

Suas muralhas, que delimitam a antiga medina, foram construídas no século XIII e atualmente a única porta preservada é a Puerta de Jerez, que hoje é a entrada para o charmoso centro histórico da cidade.

Puerta de Jerez, em Tarifa, na Espanha, o berço da Andaluzia
Puerta de Jerez, a única porta preservada da antiga muralha de Tarifa

Na mesma época, foi construído o Castillo de Tarifa, erguido sobre ruínas romanas pré-existentes e com vista privilegiada para o Estreito de Gibraltar, sendo importante ponto de defesa para os muçulmanos da época.

Mas a tentativa de fortificar a cidade foi tardia, tanto que em 1292, Sancho IV faz um cerco à cidade e a invade, iniciando um período de décadas de tensão com os mouros até que em 1340, ocorre a famosa Batalha de Salado, quando acontece uma importante vitória dos cristãos nessa região e ocupação árabe passa a restringir-se à Granada.

Estátua de Sancho IV, em Tarifa, na Espanha, o berço da Andaluzia
Estátua em homenagem à Sancho IV, em frente ao Castillo de Tarifa

Os mares de Tarifa

Apesar de tudo isso, o que mais atrai os turistas à Tarifa não é seu papel histórico na formação da Andaluzia e, sim, seu patrimônio natural. Aqui, se localiza a exata divisão que separa o Oceano Atlântico e o Mar Mediterrâeno, tendo o seu ponto geográfico marcado exatamente na Punta de Tarifa, localizada na Isla de las Palomas, uma pequena ilha bem próxima ao continente, que é o ponto mais meridional de toda a Europa e também o mais próximo da África.  A ilha é ligada à costa por uma estrada, onde é possível caminhar exatamente na divisão dos dois mares, umas experiência única e emocionante.

Divisão entre o Mar Mediterrâneo e o Oceano Atlântico, em Tarifa, na Espanha, o berço da Andaluzia
Pequena estrada que liga a Isla de las Palomas (ao fundo) ao continente com a divisão do Oceano Atlântico (à esquerda) e o Mar Mediterrâneo (à direita)

E bem em frente à ilha, fica o Castillo de Santa Catalina, construído estrategicamente num promontório, que facilita a observação náutica, Foi erguido a partir das ruínas de uma antiga ermita, depois, virou um pequeno fortim e apenas em 1929 ganhou as características renascentistas atuais. Apesar de meio decadente e nitidamente abandonado, o prédio compõe lindamente com a paisagem de Tarifa e seus mares.

Castillo de Santa Catalina, em Tarifa, na Espanha, o berço da Andaluzia
Castillo de Santa Catalina

E isso porque ainda sequer falei das praias de Tarifa, as mais famosas da região, que com seus potentes ventos fez com que a cidade fosse considerada a capital mundial do windsurf e kitesurf. Realmente, todos os dias, a Playa de los Lances, localizada no lado atlântico da cidade, é invadida pelos atletas que vem treinar, ou pelos iniciantes que vem fazer aulas por aqui. Passamos por Tarifa ainda no inverno, mas mesmo o frio não espantava os amantes do esporte. Fico imaginando como não deve ser no verão, com a invasão de praticantes de todas as partes do mundo, que vem atrás dos ventos da cidade.

Tarifa é a capital mundial do kitesurf e windsurf
Tarifa, capital mundial do kitesurf

Do lado mediterrâneo, as praias são mais distantes e apenas conhecemos a Playa Chica, colada ao porto da cidade e que tem uma bela vista para o Estreito de Gibraltar e para Tânger, já no Marrocos. Pequena em extensão, mas impressionante em sua paisagem.

Praia em Tarifa, na Espanha, o berço da Andaluzia com o Marrocos ao fundo
Playa Chica
(com a vista para o Marrocos, ao fundo)

E foi assim assim usufruindo desse mar quase caribenho com lindos tons entre o azul e o verde que passamos nossos primeiros dias na Andaluzia, descansando dos perrengues que havíamos passado no Marrocos e nos preparando para as aventuras que se seguiriam na Espanha.


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4 comentários:

  1. Lindo texto, como sempre! Parabéns. Nunca estive em Tarifa, apesar de ter percorrido parte da Andaluzia e Marrocos. Mas o s/ texto abriu-me o apetite para passar uns dias a Tarifa...
    cumprimentos
    Carlos da Gama
    memoriadamicha2011.blogspot.com

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    1. Obrigada, Carlos! Sempre bom ter você por aqui! Apesar de não ter a mesma pompa das outras cidades da Andaluzia, vale a pena, sim, conhecer Tarifa por suas belezas naturais!
      Abraços!

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  2. Tirar férias das férias é fantástico. Na verdade, quando regresso de algumas viagens que, regra geral, têm sempre uma componente cultural (e de bate-perna) muito forte, preciso de uns dias para me recompor. Por isso, nem sempre o meu marido fica entusiasmado com os meus programas :)
    Toda a gente precisa de uns dias de preguiça, claro. Mas é que é muito mundo, para pouco tempo e carteira!
    Beijinho (lindas fotos, como sempre)
    Ruthia d'O Berço do Mundo

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    1. Pois é! Nem só de água de côco e rede na beira da praia se fazem as férias! hahahahaha
      Um beijo carinhoso, querida! E outro pro nosso adorável pequeno viajante! Diga-lhe que eu e Thiago mandamos lembranças! :)

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