quarta-feira, 6 de julho de 2016

Gamla Stan, o coração de Estocolmo

Gamla Stan, o centro histórico medieval de Estocolmo

Honestamente, Estocolmo nunca esteve presente na minha lista de lugares para conhecer antes de morrer (e olha que essa lista é enorme!!!). Não até ser levada para lá por compromissos de trabalho, que me permitiram explorar e descobrir o quanto eu estava perdendo em não dar atenção à principal cidade da Escandinávia. Organizada, surpreendente, natural e humana, a Suécia é um dos países mais ricos do mundo e figura no topo de quase todas as listas sobre índices de qualidade de vida, mas isso não torna os suecos arrogantes. Muito pelo contrário, eles fazem questão de receber à todos (inclusive refugiados e imigrantes) com respeito e calor humano. No fim das contas, foi isso o que mais gostei no país: os suecos. Mas a arquitetura e a história que os descendentes dos vikings construíram também é fabulosa e é esse o tema do post de hoje.
Como eu estava com pouco tempo livre na cidade, optei por focar em conhecer poucos lugares, ao invés de conhecer tudo superficialmente. A estratégia me agradou, principalmente porque, num dos dias, escolhi explorar um das mais importantes centros históricos da Europa: o Gamla Stan, no coração da capital sueca. E, simplesmente, me encantei.

Gamla Stan, o centro histórico medieval de Estocolmo
Canais de Estocolmo

Gamla Stan, entre pontes

A cidade de Estocolmo é, em realidade, um arquipélago formado por 14 ilhas bem coladinhas umas nas outras, interligadas por várias pontes que formam um emaranhado de conexões, todas com o padrão sueco de organização, mas cheio de charme e beleza. Envolvida pela Baía de Riddarfjärden, que recebe água doce do Lago Mälaren e água salgada do Mar Báltico, o Gamla Stan (e, em realidade, toda Estocolmo) é cercado por essas águas salobras e pra onde olhamos vemos lindos canais, a maioria deles com suas respectivas pontes.

Gamla Stan, o centro histórico medieval de Estocolmo
A cidade entre pontes (e flores)

Até bem recentemente, o bairro era considerado uma área esquecida da cidade e só na década de 70 foi descoberta pelo turismo, quando passou por uma processo de revitalização e até o seu nome mudou, já que antes era chamada de Staden mellan broarna (literalmente, cidade entre pontes). A mudança foi tanta que hoje, Gamla Stan é uma das regiões mais caras de Estocolmo, justamente por ser o local de maior concentração de turistas do país.

Gamla Stan, o centro histórico medieval de Estocolmo
Uma típica rua de Gamla Stan

Apesar de ter sido fundada oficialmente no período medieval, essa região tem ocupação registrada desde os tempos dos Vikings, origem da cultura nórdica que marca toda a Escandinávia. Mas foi mesmo o cristianismo que influenciou a arquitetura dos prédios que hoje ocupam o Gamlan Stan, assim como a própria estrutura urbana do bairro.

Gamla Stan, o centro histórico medieval de Estocolmo
Esse prédio não é no Gamla Stan, mas fica na beira do canal e é possível vê-lo de lá

Apesar de ter vários prédios importantes e famosos, não há dúvidas, o melhor da Cidade Antiga é andar sem grandes pretensões e ir descobrindo pequenos detalhes do caminho. As estreitas vielas, os túneis, os lindos prédios, as flores nas janelas vão se mostrando aos que tem olhos atentos e curiosos e é uma delícias se deixar surpreender por cada nova descoberta.

Desbravando Gamla Stan

Minha caminhada começou no Riksdag, o Parlamento Sueco, que fica numa pequena ilhota, entre os bairros de Norrmalm, mais moderno e o Gamla Stan, mais antigo, separados por canais, mas interligados por duas pontes.

Riksdag, o parlamento sueco no Gamla Stan, o centro histórico medieval de Estocolmo
Riksdag, o Parlamento Sueco e os canais que o cercam

O prédio construído no final do século XIX é um espetáculo à parte com seu estilo neoclássico e seus jardins planejados, ocupando praticamente toda a extensão da ilha de Helgeandsholmen. Aqui, é a entrada para o Gamla Stan e, por isso mesmo, está sempre cheio de turistas e locais.

Como era de se esperar, o Riksdag tem papel fundamental na política do país. Como uma boa Monarquia Parlamentarista, a Suécia tem seu primeiro-ministro nomeado pelo presidente do Parlamento. O rei é apenas uma figura decorativa, sem grande papel político, mas com grande respeito e reverência por parte da plebe, que se orgulha de sua coroa. Eu até tento, mas não consigo entender os motivos pelos quais os países que ainda preservam a figura do rei se orgulham tanto disso, mesmo sem que ele tenha uma função prática e ainda gastando bastante do dinheiro arrecadado em impostos,  mas aprendi a respeitar as diferentes culturas, mesmo sem entendê-las. Até porque no Brasil temos também nossas incongruências na política e economia, que talvez tenham até mais impacto na vida cotidiano dos brasileiros do que o financiamento de um rei.

Riksdag, o parlamento sueco, no Gamla Stan, o centro histórico medieval de Estocolmo
O Riksdag ocupa toda a ilha
(esse é o lado oposto da foto anterior)
Com essas reflexões na cabeça, atravessei o Parlamento e saí da ilha, o que me levou à entrada do Palácio Real de Estocolmo, residência oficial dos reis suecos, apesar dos atuais não morarem lá. O prédio que vemos hoje foi construído no século XVIII, após o incêndio que destruiu a construção anterior e o levou à  ruína poucas horas depois de ter sido tomado pelo fogo, acabando com grande parte da riqueza da coroa sueca. O esforço para a construção de um novo Palácio valeu à pena, pela beleza do novo, que de fato é estonteante com seus detalhes renascentistas.

Palácio Real, no Gamla Stan, o centro histórico medieval de Estocolmo
Palácio Real de Estocolmo

Saindo do Palácio, avistei uma linda torre e resolvi ir ao seu encontro, o que me levou até a Storkyrkan, a Catedral de São Nicolau, a mais antiga igreja do Gamla Stan. Sua construção é do século XIII e foi feita por Birger Jarl, o próprio fundador de Estocolmo.

Catedral de São Nicolau, em Gamla Stan, o centro histórico medieval de Estocolmo
Catedral de São Nicolau

Após sair da Catedral, andei sem rumo por um caminho que me levou para a orla da ilha e eis que, de repente, me vi seduzida pela paisagem que surgiu. Estava no Riddarholmen, uma outra ilha bem próxima à Gamla Stan, onde ficam vários prédios importantes da cidade, inclusive a Igreja de Riddarholmen, onde são sepultados os monarcas suecos. Canais, pontes, prédios que mais pareciam de brinquedo, além de um Sol delicioso do verão sueco (com seus 25ºC de temperatura) com uma brisa fresquinha vinda do mar me deliciaram e me fizeram sentar pra curtir aquele momento.

Riddarholmen, ilha ao lado do Gamla Stan, o centro histórico medieval de Estocolmo
Mais canais e, ao fundo (em preto), a torre da Igreja de Riddarholmen

Sodermalm, em Estocolmo
O bairro de Södermalm, visto de Riddarholmen

Depois de curtir a brisa, continuei minha caminhada e acabei dando uma volta completa pelo perímetro do Gamla Stan, tanto que quando me dei conta tinha voltado para o Palácio Real, praticamente o início do passeio. Foi só aí que caminhei para o interior do bairro e me afastei do mar, depois das horas de namoro com ele.

E aí, entrei em outro mundo. O mundo das vielas, túneis e prédios ocre do Gamla Stan, que são a marca registrada do bairro e o cartão-postal de Estocolmo. E obviamente fiz o que mais adoro fazer nesse tipo de lugar: me embrenhei nas ruelas e me deixei levar pela curiosidade para entrar onde desse na telha.

Gamla Stan, o centro histórico medieval de Estocolmo
Gamla Stan

Gamla Stan, o centro histórico medieval de Estocolmo

Meus passos acabaram me levando até o Stortoget, a praça principal e o centro da cidade antiga. Confesso que nesse momento, minha vontade foi de sair o quanto antes dali, pois uma multidão de turistas empunhando seus paus de selfie dificultavam a passagem, mas ainda consegui admirar os charmosos prédios da praça e, claro, o famoso Museu Nobel, localizado dentro da Bolsa de Valores de Estocolmo.

Stortoget, a praça principal do Gamla Stan, o centro histórico medieval de Estocolmo
Stortoget, a praça principal do Gamla Stan

Como todos sabem, o Prêmio Nobel surgiu na Suécia, onde viveu seu fundador e ainda hoje é em Estocolmo que a cerimônia de premiação acontece, exceto pelo Nobel da Paz, que acontece na Noruega. No Museu há todo acervo sobre os prêmios passados e a vida de Alfred Nobel, mas a premiação mesmo não acontece aqui e, sim, no Stockholm Concert Hall, já fora do Gamla Stan, mas numa distância facilmente percorrida à pé.

Stockholm Concert Hall, onde acontece a premiação do Prêmio Nobel
Fachada do Stockholm Concert Hall,
onde acontece anualmente a premiação do Prêmio Nobel
(já fora do Gamla Stan)

Estocolmo para além do Gamla Stan

Depois de percorrer os becos do bairro, aproveitei para comer algo por lá e reparei que em cada quarteirão tinham duas ou três sorveterias. Achei curioso isso, ainda mais pra um país que tem poucos meses de verão (com temperaturas bem amenas, ainda por cima) e só dias depois descobri que sorvete é uma paixão sueca ao longo do ano todo, até no inverno rigorosíssimo do país. Aliás, comer doce é uma tradição sueca tão respeitada e importante que eles tem um nome pra esse momento: o fika, que pode ser traduzido para os brasileiros como aquele nosso cafezinho da tarde com bolinho de fubá (ou de limão, que eu adoro) da avó. É engraçado, porque os suecos não tem o hábito de comer sobremesa, mas param tudo no meio da tarde para comer o docinho deles. Confesso que eu aproveitei bastante o fika e comi mais doces do que deveria, mas era irresistível ver aqueles bolinhos e rosquinhas e afins.

Fui pra Estocolmo no auge do verão, quando os dias são longos e cheios de luz, nas terras escandinavas. Nos primeiros dias, foi estranhíssima a sensação de estar em pleno dia às 22h, quando começava o pôr do Sol, que durava quase uma hora. Mesmo assim, a escuridão nunca era plena e às 3h já começava a clarear de novo. Várias vezes me peguei surpresa ao constatar que eram 21h da noite, quando na minha percepção eram no máximo 17h da tarde, ou acordar de madrugada achando que estava atrasada por já ser dia claro e ver no relógio que ainda eram 5h da manhã. Também foi divertido perceber que o Sol de meia-dia não fica no alto do céu. Aliás, o Sol nunca está no alto e parece que ele anda de lado por essas bandas, por causa da inclinação da Terra. Eu adorei a experiência de sentir essas diferenças, mas o que mais gostei mesmo foi das cores do céu no pôr do Sol, sempre amenas e tendendo ao rosa, ou vermelho.

Pôr do Sol em Estocolmo
22h em Estocolmo

No fim, depois de conhecer as belezas suecas e, mais ainda, o charme do Gamla Stan só penso na sorte que tive em ser levada pelo destino para esse lugar esplêndido e no tanto que eu teria perdido se continuasse deixando a visita à Estocolmo em segundo plano na minha lista de viagens. É... as vezes, se deixar levar pelo destino é o melhor que fazemos por nós mesmo, afinal de contas, controlar nosso futuro nem sempre é possível. E até isso a Suécia me ensinou.


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