domingo, 14 de agosto de 2016

A Lisboa de Fernando Pessoa

"Outra vez te revejo- Lisboa e Tejo e tudo-,
transeunte inútil de ti e de mim,
Estrangeiro aqui como em toda parte."
(Álvaro de Campos- Fernando Pessoa)
A Lisboa de Fernando Pessoa

Não me lembro, ao certo, com quantos anos descobri Fernando Pessoa, mas lembro desse dia, como se fosse hoje. Estava no meu costumeiro passeio mensal à livraria do bairro com minha mãe, que me permitia comprar um livro por mês ali. O escolhido da vez havia sido o (excessivamente) inocente "Pollyana Moça".  Estava feliz com a aquisição e quis eu mesma carregar a sacola com o novo livro, quando algo naquela bolsinha de plástico me chamou a atenção. Era a foto de um homem de rosto magro e fino, com um chapéu e bigodinho foras de moda (para os padrões do fim do século XX) e expressão triste. Do lado da foto, uma poesia impressa com um formato da letra que me atraiu e sem perceber comecei a ler, sem grandes pretensões:
    "Passa uma borboleta por diante de mim
    E pela primeira vez no Universo eu reparo
    Que as borboletas não têm cor nem movimento,
    Assim como as flores não têm perfume nem cor.
    A cor é que tem cor nas asas da borboleta,
    No movimento da borboleta o movimento é que se move,
    O perfume é que tem perfume no perfume da flor.
    A borboleta é apenas borboleta
    E a flor é apenas flor."

    (Alberto Caieiro)
E nesse instante minha vida mudou, minhas leituras mudaram e até meu corpo mudou, já que a adolescência começava a bater na porta. Descobrira, naquele momento, Fernando Pessoa.
A partir daí, me tornei uma leitora voraz da obra desse grande poeta português e de seus heterônimos. Ainda na adolescência, tinha um caderno lindo de capa dura com motivos florais, onde eu transcrevia poesias, trechos de livros e frases soltas tiradas de minhas leituras e quase todas páginas tinha algo dele transcrito.

Fernando Pessoa/ Fonte: Wikimedia Commons

O tempo passou, a vida seguiu até que o destino me levou para a cidade em que Fernando Pessoa viveu quase toda sua vida e de onde praticamente não saiu mais, depois que retornou da África do Sul, onde viveu durante parte de sua juventude. Estar na Lisboa de meu poeta preferido foi pra mim uma experiência intensa. Nunca vou esquecer da emoção ao atravessar a Ponte Vasco da Gama, após a viagem desde o Algarve e que emoção passar por cima do Tejo, o rio tantas vezes exaltado por ele.

A Lisboa de Fernando Pessoa
Rio Tejo visto do Castelo de São Jorge

Fernando Pessoa escreve sobre Lisboa

Mas numa dessas peripécias que o destino apronta, só de volta ao Brasil fui descobrir, completamente ao acaso, uma preciosidade na obra de Fernando Pessoa e que eu não imaginava que existia: o livro "Lisboa- o que o turista deve ver", um guia completo para os viajantes que visitam a cidade. Ao mesmo tempo que esbravejei de não ter lido o livro antes de conhecer Lisboa, também senti algo delicioso de poder ler depois de conhecer a cidade branca e ter a ideia exata em minha mente de cada lugar que o escritor relata no livro. Foi como se pudesse novamente passear pelas ruas, palácios, castelos e praças da cidade, só que dessa vez na companhia do grande escritor.

A Lisboa de Fernando Pessoa
Saboreando o livro

O livro provavelmente foi escrito em 1925, mas só em 1987 seu rascunho foi descoberto entre os arquivos do poeta, enquanto eram preparadas as comemorações do centenário de seu nascimento, que aconteceriam no ano seguinte. Escrito originalmente em inglês (língua que Pessoa tinha grande familiaridade por ter passado muitos anos na África do Sul, uma colônia inglesa, na ocasião), o livro tem a clara intenção de mostrar Lisboa aos viajantes de forma a exaltar a cultura e história de Portugal. Num momento em que a capital portuguesa sofria grande influência de outros países da Europa, deixando muito de suas característica originais, Fernando Pessoa tentava manter com esse livro a autenticidade de sua terra e de seus hábitos. Da mesma época é também o famoso fado de Raul Ferrão: "Lisboa, não sejas francesa", que é o retrato na música desse momento, cujo refrão diz:

    "Lisboa, não sejas francesa,
    Com toda certeza
    Não vais ser feliz.
    Lisboa, que ideia daninha,
    Vaidosa, alfacinha,
    Casar com Paris.
    Lisboa, tens cá namorados,
    Que dizem, coitados,
    Com as almas na voz.
    Lisboa, não sejas francesa,
    Tu és portuguesa,
    Tu és só pra nós."

A Lisboa de Fernando Pessoa
A Viola Portuguesa

Alfacinha é como se costuma chamar quem nasce em Lisboa. O apelido tem sua origem controversa e segundo um amigo lisboeta (portanto, um autêntico alfacinha), o termo surgiu na época da ocupação moura da cidade, quando se começou a plantar alface (em árabe al-hassa). Mas o tema é controverso e outras origens são possíveis.

Elétrico 28, em Lisboa
O famoso Elétrico 28, o mais antigo de Lisboa

E assim era Fernando Pessoa, um alfacinha. E um dos maiores que Portugal já viu, só comparável ao maior poeta português, Luís de Camões. Ambos, aliás estão enterrados no mesmo lugar, o fabuloso Mosteiro dos Jerónimos, um dos lugares que está descrito no livro para ser visitado na cidade.

Em sua genialidade, Pessoa não escreveu um simples guia de viagem com sugestões de pontos turísticos e dicas de passeios, como estamos acostumados. Nada disso. Em sua narrativa, o poeta propõe acompanhar o leitor em sua visita pela cidade e a leitura de seu guia é em clima pessoal e quase íntimo, como se estivéssemos ao lado do escritor, caminhando em sua companhia pelas ruas de sua tão amada Lisboa. O livro começa quando o navio em que se encontra o suposto turista se aproxima da cidade e o viajante se depara com o gigante Rio Tejo, que tanto inspirou o escritor. Para mim, um dos mais belos poemas de Alberto Caieiro, seu heterônimo mais parnasiano é uma linda conexão entre os tantos rios e que se intitula O Tejo:

"O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,
Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia
Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.

O Tejo tem grandes navios
E navega nele ainda,
Para aqueles que vêm em tudo o que lá não está,
A memória das naus.

O Tejo desce de Espanha
E o Tejo entra no mar em Portugal.
Toda a gente sabe isso.

Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia
E para onde ele vai
E donde ele vem.
E por isso, porque pertence a menos gente,
É mais livre e maior o rio da minha aldeia.

Pelo Tejo vai-se para o mundo.
Para além do Tejo há a América
E a fortuna daqueles que a encontram.
Ninguém nunca pensou no que há para além
Do rio da minha aldeia.

O rio da minha aldeia não faz pensar em nada.
Quem está ao pé dele está só ao pé dele."

A Lisboa de Fernando Pessoa
As margens do Tejo

O roteiro por Lisboa sugerido por Pessoa


O turista atraca, então, no Cais do Sodré, onde se inicia um longo caminho realizado de carro, que leva o leitor a percorrer locais fundamentais para se entender a história e a cultura da capital portuguesa.

O roteiro sugerido por Fernando Pessoa é um tanto labiríntico e cheios de idas e vindas por ruas e vielas, pelas partes mais antigas da cidade, mas sem dúvida abarca as principais atrações de Lisboa até os dias atuais. Apesar do autor sugerir que o roteiro seja feito em um dia, é fato que cada lugar que ele descreve merece ser explorado com calma de tal forma que, no mínimo, três dias seriam necessários para conhecer tudo com calma, saboreando os detalhes. Para se ter ideia do roteiro pessoano, coloquei num mapa todos os pontos da cidade que ele passa com o visitante (e coloquei uma estrelinha amarela nos meus lugares favoritos).


Não conseguiria num único post detalhar todos os lugares que o poeta percorre com o leitor e muitos deles ganharão relatos próprios, como o famoso Castelo de São Jorge, descrito no livro da seguinte maneira:

    "O próprio castelo é assaz notável. Foi construído pelos Mouros e, segundo parece, fazia parte das fortificações de Lisboa, com as suas grossas muralhas, ameias e torres. Dele fizeram os reis sua residência e foi também cenário de muitos eventos notáveis da história de Portugal."

A Lisboa de Fernando Pessoa
Castelo de São Jorge visto do Miradouro de São Pedro de Alcântara

Como não poderia deixar de ser, o poeta leva o turista também à Praça do Comércio, um dos lugares atualmente mais visitados de Lisboa e que assim é descrito no guia:

    "Chegamos agora à maior das praças de Lisboa, a Praça do Comércio, outrora Terreiro do Paço, como é ainda geralmente conhecida; esta é a praça que os ingleses conhecem por Praça do Cavalo Negro e é uma das maiores do mundo. É um vasto espaço, perfeitamente quadrado, contornado, em três de seus lados, por edifícios de tipo uniforme, com altas arcas de pedra. (...) O quarto lado, ou lado Sul, da praça é bordejado pelo Tejo, muito largo nesse sítio e sempre cheio de embarcações. No centro da praça fica a estátua equestre de bronze do Rei D. José I, uma esplêndida escultura de Joaquim Machado de Castro, fundida em Portugal, de uma só peça, em 1774. Tem catorze metros de altura. O pedestal é adornado com magníficas figuras representando a reconstrução de Lisboa depois do grande terremoto de 1755."


A Lisboa de Fernando Pessoa
A Praça do Comércio

Mais para frente, já saindo do centro da cidade, o passeio com o grande poeta continua até chegar em Belém, onde fica o famoso Mosteiro dos Jerónimos, onde encontra-se hoje o corpo do próprio Fernando Pessoa, junto de Luís de Camões. Evidentemente, o escritor não imaginava, ao escrever esse livro, que ali estaria após sua morte, mas já coloca esse lugar como um dos grandes monumentos da cidade, descrevendo-o da seguinte forma:

    "Alguns minutos mais e encontrar-nos-emos em frente ao grande monumento que é o Mosteiro dos Jerónimos, uma obra-prima de pedra que todos os turistas visitam e nunca conseguem esquecer. E, de facto, o mais notável monumento que a capital possui. (...) Uma visita ao Jerónimos tem necessariamente que ser demorada, para ser uma verdadeira visita. Todas as belezas aqui existentes devem ser cuidadosamente examinadas (...)."

A Lisboa de Fernando Pessoa
Túmulo de Luís de Camões, no Mosteiro dos Jerónimos

E bem próximo dali, Pessoa descreve a Torre de Belém:

    "Este é indubitavelmente um dos mais belos monumentos de Lisboa e uma das mais expressivas recordações do poder militar e naval português."

A Lisboa de Fernando Pessoa
A Torre de Belém

Gostaria eu conseguir reproduzir toda a genialidade do poeta em descreve sua cidade natal. Como jamais conseguiria e sequer tenho essa pretensão, deixo aqui a sugestão da leitura dessa jóia rara da literatura pessoana, tanto aos que pretendem conhecer Lisboa, quanto os que já conhecem a capital portuguesa com profundidade. No Brasil, o livro já está com sua edição esgotada, mas não é difícil encontrá-lo em sebos.


Esse post faz parte da Blogagem Coletiva, promovida pela RBBV- Rede Brasileira de Blogueiros de Viagem, com o tema: viagem pela literatura e cinema. Confira os outros posts que participam:

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14 comentários:

  1. Fantástico! Já anotei tudo para colocar no meu roteiro na próxima viagem a Lisboa ;)

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    1. E não é qualquer roteiro! É o roteiro indicado por Fernando Pessoa! rsrs :)
      Beijinhos

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  2. Que demais! Adoramos esse roteiro poético do Fernando Pessoa! Ele também é um dos nossos autores favoritos. Ótimo post :D

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    1. Não tem como não admirar Fernando Pessoa, não? Um GÊNIO com letras maiúsculas!
      Beijinhos

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  3. Você não pode imaginar, os sentimentos que esse post despertam em uma professora de literatura. Emocionante!

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    1. Não sou professora, mas sou uma apaixonada pela literatura! Pessoa emociona mesmo, não, Silmara? :)
      Beijinhos!

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  4. Ana, essa dica vale ouro!!! Com certeza vou ler esse livro quando eu puder ir conhecer Lisboa! Abraços . Léli

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  5. Perfeito! Adoro Fernando Pessoa e já anotei todas as dicas pra visitar Lisboa pelos olhos do poeta! Já vou providenciar o livro!

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    1. Que bom que gostou, Simone! O livro é ótimo!
      Beijinhos

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  6. Fabuloso. A mistura do olhar estrangeiro que admira Pessoa e o escolhe como guia nos seus passos por Lisboa, mas que só descobre esse guia quando regressou do passeio. Que dizer? Gostaria de ter escrito este post. E as fotos estão maravilhosas
    ABraço
    Ruthia d'O Berço do Mundo

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    1. Ruthia querida, seus comentários são sempre muito carinhosos! Muito obrigada!
      Beijinhos

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  7. Ana, eu até faço um café par ler os teus posts. Já abro as páginas que quero ler e apreciar, com a cafeteira no fogo. Eu, o pc aberto nas tuas páginas, uma xícara de café e um portal aberto ao mundo vem todinho pra mim.
    Mais um post espetacular, querida Ana. Quanta beleza e poesia.
    Eu gosto muito de Alberto Caieiro, já publiquei no meu blog. E não sabia do livro que relata aqui.
    Adorei, adorei.

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    1. Maria Gloria, que comentário delicioso de ler! São pessoas como você que me estimulam a continuar escrevendo, mesmo com as atribulações da vida! Obrigada pela companhia! :)
      Beijinhos

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